Nascida em Chicago, Veronica começou a escrever aos 12 anos
e mais tarde viria a tirar o curso de Escrita Criativa durante o qual, em vez
de fazer os trabalhos de casa, escreveu o seu primeiro livro, Divergente. 2011 foi assim o ano desta
jovem, que além de ter publicado o seu livro também subiu ao altar. Aos 24 anos
é uma das autoras actuais mais conhecidas e o ano passado foi mesmo nomeada
como Autora do Ano pelos membros do Goodreads e a sequela de Divergente, o melhor livro de fantasia
juvenil. Quando não está a escrever faz pesquisa no Wikipédia com o seu pijama
vestido e acompanhada de uma taça de cereais e se estivesse dentro do seu livro
seria uma Intrépida apesar de também poder pertencer aos Abnegados.
Divergente, o seu
primeiro livro, tornou-se um fenómeno a escala mundial, estando traduzido para
mais de 50 línguas e o filme está neste momento a ser produzido para estrear no
próximo ano. A última parte da trilogia já tem título e capa e deverá sair nos
EUA a 22 de Outubro deste ano. Insurgente
é o segundo volume muito ansiado pelos leitores portugueses e chega agora
às nossas livrarias. Sequela que tem dividido aos fãs mas sem deixar ninguém
indiferente, promete provocar ataques cardíacos e uma ansiedade louca pelo fim.
O caos está espalhado, o equilíbrio desfez-se por ambição,
por arrogância, pela incapacidade de aceitar as diferenças. As facções
enfrentam-se e pela primeira vez discute-se quem é o mais forte, o mais preciso
e quem pode ser dispensado. Agora, ou se domina ou se começa tudo de novo.
Enquanto a sua cidade
se quebra em mil pedaços, Tris está em guerra com ela própria. As suas
escolhas, as suas perdas, quem é realmente, são dúvidas que a assolam, a culpa
corroí-a, a dor cega-a. Mas Tris é mais do que uma Intrépida, mais do que uma
filha de Abnegados, ela é uma Divergente e neste mundo, nesta guerra, isso já
não é só sinal de murmúrios e segredos, é sinal de mudança, de confronto. Ser
Divergente já não é um papel solitário e está na altura de todos se insurgirem
e tomarem as suas decisões, está na altura de todos se revelarem, dos panos
caírem e as verdades, as lutas, assolarem tudo e todos.
Depois do arraso que foi Divergente,
Veronica tinha de superar as elevadas expectativas dos seus leitores e este
livro não só o faz como supera tudo o que pudéssemos esperar. Viciando-nos da
primeira palavra à última, mantendo o nosso ritmo cardíaco acelerado, a autora
escreve com temperamento, garra e audácia, sem nunca lhe faltar o sentido, o racional
e as segundas intenções. Mestre em criar momentos de alto risco, surpresas
nunca esperadas e desvendar o inimaginável, Roth apresenta-nos uma sociedade
pós-apocalíptica como mais ninguém faz e cria uma ponte entre o primeiro livro
e o último de tal forma perfeito que lê-lo é como estar suspenso no nada para
cair à alta velocidade e voltar a ser puxado para cima uma e outra vez.
A adrenalina é a alma deste livro, a angústia, uma segunda
pele e a expectativa a aura que nos rodeia. Do início ao fim, Veronica faz-nos
sofrer de todas as formas possíveis e imaginárias e isso só serve para
percebermos que esta história é feita de matéria dura, de incontáveis erros, de
pequenas vitórias, de esperança tremeluzente. Aqui os laços desfragmentam-se,
as motivações e os ideais separam-se e não existe maneira da união regressar
sem ser através do caos mas nada irá voltar a ser como dantes. Num enredo em
que é necessário endurecer o coração e esperar sempre o pior, está sempre
presente os ventos de mudança, a procura da renovação, alianças frágeis e
quebradiças. Aqui não existe doces momentos mas sim intensos, desesperados,
duros, o que se reflecte no fortalecimento tanto das personagens como na
história.
O mais importante neste livro é a humanidade. É humano
duvidar, é humano ceder, é humano lutar, é humano ser-se imperfeito. E é pelas
imperfeições deste livro, tantas que nos obriga a identificarmo-nos com elas,
que este livro é perfeito. Em pequenos gestos, pequenas palavras, relembrámos o
que nos faz quem somos. A família, que nos cria e nos molda, a sociedade que
nos educa e nos forma, a religião que apesar de nunca presente aqui, está
enraizada nos corações e mentes. Nada disto é esquecido neste livro e cada uma
apresenta um papel importante na intricada história que ele nos apresenta.
Em clima de revolta e tensão, Veronica consegue cimentar o
caminho de uma sociedade perfeita e unida para uma desfeita e a destruir-se. Há
uma aura diferente neste livro, uma aura de morte, perda, sofrimento e
angústia. Há uma divisão criada por ideias e sonhos diferentes, há uma ambição
que nasce dos que têm finalmente uma oportunidade para poderem dominar e isso
torna este livro real, palpável porque uma transição nunca é feita com graça e
precisão, é feita de erros e lições, de vitórias que deixam um sabor amargo na
boca. Cada facção reage de forma diferente, cada personagem luta com as armas
que tem porque eles não são heróis nem vilões, são humanos que irão sobreviver
o melhor que puderem. E, claro, começa-se agora a descobrir que como qualquer
perfeição, esta sociedade estava construída sobre alicerces de mentiras, segredos,
coisas escondidas e, quase como numa dança, cada pista é dada de forma subtil
até ao grande final.
Se o ambiente muda, mais mudam as personagens. Tris não é
mesma protagonista que conheceram, o que é mais do que justificável pela culpa,
pela dor, pelos erros, e entra numa atitude que leva a Intrépida em si ao
extremo mas nunca deixa de ser a grande protagonista que era, só que agora, é
alguém com cicatrizes, traída, desconfiada e que se revela ainda melhor. Quatro
também mostra que não é perfeito mas não perde o encanto com que nos conquistou
anteriormente. As surpresas sucedem-se nas personagens secundárias e algumas
revelações poderão deixar-vos de queixo caído.
Depois de um fim que nos deixa literalmente a salivar pelo
próximo livro, Roth mostra porque é considerada a Rainha das distopias YA e
alcançou o enorme sucesso que tem. Insurgente
é arrasador, destrutivo e ainda melhor do que a nossa imaginação podia
crer. Uma sequela digna do seu antecedente.
7*