sábado, 27 de outubro de 2012

Opinião - O Messias de Duna

Título Original: Dune Messiah (#2 As Crónicas de Duna)
Autor: Frank Herbert
Editora: Saída de Emergência
Número de Páginas: 283

Sinopse
 Doze anos depois dos eventos descritos em Duna, Paul Atreides governa como Imperador do Universo, tendo dado início a uma Jihad galáctica ao aceitar o papel de Mahdi do povo Fremen. Paul é o mais poderoso Imperador de sempre, mas é incapaz de travar a sangrenta Jihad que já ceifou as vidas de milhões de pessoas e destruiu mundos.

Com a sua visão presciente, Paul vê a Jihad a alastrar-se, mas não pode travá-la face às terríveis alternativas que se podem seguir. Motivado por este conhecimento, decide seguir um plano complexo e perigoso que pode evitar a extinção da Humanidade, uma visão que o atormenta dia e noite.

O que Paul desconhece é que muitos velhos inimigos se reúnem à sombra do Império, preparando uma conspiração para derrubar a Casa Atreides do trono. Mais do que um mero assassinato, preparam-se para fragilizar o Kwisatz-Haderach… Conseguirá Paul estar à altura dos desafios do seu papel como Imperador e evitar os perigos que o rodeiam?


Opinião


Depois de rejeitado por vinte editoras, incluindo um editor que admitiu pensar que estava a cometer o erro da década, Frank Herbert conseguiu finalmente em 1965, editar Duna em dois volumes na revista Analog e nesse ano consegue o Nebula e, no ano seguinte, o Hugo. Primeiro livro de Ficção- Científica ecológico, Duna foi um sucesso no género e marcou uma época e um pensamento, deixando, ainda hoje, incrédulos, aqueles que se atrevem a ler este marco da literatura.
O escritor ainda escreveu mais cinco livros da série, sendo o segundo este O Messias de Duna, e o quarto, As Herdeiras de Duna, foi dedicado a sua esposa que faleceu de cancro em 1984. Já o quinto, Os Hereges de Duna foi lançado no mesmo fatídico ano em que também estreou sobre a realização de David Lynch, o filme da série com a participação de Sting. Frank viria a falecer em 1986, deixando uma obra memorável.
Ler Duna foi como descobrir algo novo, algo que estava debaixo dos meus olhos sem o ver. Uma leitura cheia de significados e simbolismos, uma escrita rica e complexa que converteu esta leiga ao género de que fugia a sete pés, sem saber o que andava a perder. Meses depois, em vez do calhamaço que me conquistou, leio esta segunda parte, com um tamanho mais simpático mas menos satisfatório e uma capa sem o magnetismo da primeira.
Depois de um livro intenso onde um mundo novo foi desbravado pelos leitores com um entusiasmo crescente, onde um jovem que vinga o seu pai e a sua Casa, ascende ao poder terreno como Imperador e ao espiritual enquanto Messias, num panorama que, afinal, não está assim tão longe do passado e onde apenas a geografia e os meios são outros, O Messias de Duna, é um livro mais introspectivo, mais político e filosófico do que intenso, mais um fim que o auge.
Este é um mundo diferente do que conhecemos no primeiro volume, há uma consciência do bem e do mal, do passado e do futuro, da perda e da vitória, mas essa consciência não abrange a todos, nem amigos, nem inimigos, marcando o livro não com a violência física mas psicológica, onde cada palavra é uma arma e onde por trás de cada membro se pode encontrar ódio numa máscara de pacificação. Entre o fervorismo religioso, as intrigas palacianas e a quebra de honra, Paul é o único que tem consciência dos ventos de mudança que agitam o seu Império, apercebendo-se que os seus alicerces estão prestes a desabar graças as conspirações e ambições que os seus inimigos almejam.
Num ambiente de revolta silenciosa e traição, de lealdade ferrada e do medo de represálias, será difícil aos fãs reconhecer neste livro a força esmagadora do primeiro mas ela está lá, escondida, silenciosa, etérea e subjectiva, em cada diálogo de esperança e derrota, em cada visão terrorífica de Paul e Alia, em cada gesto de coragem ou de falsidade. Um volume mais religioso, onde as consequências da posição e hereditariedade de Paul e Alia, seres humanos superiores vistos como deuses, O Messias de Duna mostra à lupa, as suas fraquezas e temores, numa visão grotesca da qual só eles têm noção da dimensão. Numa narrativa, não de ascensão e glória mas de decadência e mudança, encontraremos facilmente uma mentira, um desejo, uma forma de destruição, o que torna este livro uma explosão silenciosa, em que cada acto pode terminar pode terminar em sofrimento, não importa de quem.
Para este ambiente de intriga, política e hierarquias, muito contribuiu o ambiente da corte deste poderoso Império, onde os hábitos estão muito longe do que foram. Enquanto alguns se mantêm fiéis a forma de vida dos Fremen, outros vivem entre os vícios e a opulência, muito longe do espírito de sacrifício que é substituído pelo egoísmo e auto-preservação. A fé tornou-se algo impróprio e destrutivo, a sociedade é representada de uma forma depressiva, com vergonha daquilo em que se transformou, estando longe da elevação espiritual que sentimos no primeiro volume.
A mudança que se sente na narrativa sente-se também nas personagens, principalmente em Paul, em quem o peso dos erros cometidos vai cair, transformando-o em algo ainda mais transcendente e longe da humanidade, chegando ao ponto de nem Alia conseguir ver até onde vai a visão do irmão. Muad’Dib é a força deste mundo, tendo ele o poder absoluto e o único com a noção da causa-consequência dos seus actos. O herdeiro Atrides encerra nele o desejo de voltar atrás e de alterar tudo e, também, a dor da certeza que isso não é possível e terá de enfrentar as maiores derrotas para conseguir alcançar um novo meio de transformação. A forma como Herbert concentra neste personagem, o divino e o humano, o déspota e o libertador,  a imagem do messias em paz ou em terror, é o que torna Paul, uma das personagens de maior ambiguidade e capacidade de sempre.
Mesmo com um tamanho mais pequeno e uma narrativa mais entranhada, O Messias de Duna tem o poder do autor em cada palavra e, em nada falha ao primeiro livro, conseguindo em menos palavras e actos atingir uma perfeição de acção e mensagens não escritas que Duna não consegue pois escrever sobre a vitória é fácil, conseguir abranger a derrota e o errado é muito mais difícil e o autor consegue-o brilhantemente em cada momento mais doloroso.
 Mais uma vez o mundo de Arrakis enredou-me e mais uma vez me mostrou que a Ficção-Científica não é um género a ser esquecido.

7*

As minhas opiniões da série:
Duna

2 comentários:

  1. Estou para ler isto há séculos e (como tu) tenho medo do género… é aquele tipo de livro que por ser um clássico quero "mesmo, mesmo" gostar dele :P

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    1. Eu e a Ficção-Científica não nos damos mesmo mas com esta série, houve um tipo um entendimento, percebes?=p

      Este tipo de livros com um certo estatuto dão sempre medo de ler porque a maior parte das pessoas adorou e tu sentes aquela "obrigação" que tens de gostar também, o que pode não acontecer. Eu tive esse problema com a "Feira das Vaidades" do Thackeray por exemplo!

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