domingo, 23 de dezembro de 2012

Opinião -A Casa dos Primatas

Título Original: Ape House
Autor: Sara Gruen
Editora: Edições ASA
Número de Páginas: 384

Sinopse
 Sam, Bonzi, Lola, Mbongo, Jelani e Makena não são símios normais. Estes bonobos, como outros membros da sua espécie, são capazes de raciocinar e de manter relacionamentos intensos. Mas, ao contrário da maioria dos bonobos, também conhecem a linguagem gestual.

Isabel Duncan, investigadora do Laboratório de Pesquisa da Linguagem dos Símios, não compreende as pessoas mas está perfeitamente à vontade com os animais, em especial com os bonobos. Isabel sente-se mais confortável no mundo deles do que alguma vez se sentiu entre os humanos… até conhecer John Thigpen, um jornalista bem casado que desafia os manifestantes pelos direitos dos animais, que se mantêm eternamente à porta do laboratório, para ver o que está a acontecer lá dentro.

Quando uma explosão abala o laboratório, ferindo gravemente Isabel e «libertando» os símios, a reportagem de interesse humano de John torna-se a reportagem da sua vida, que o fará pôr em risco a carreira e o casamento. É nessa altura que os bonobos desaparecidos são apresentados num reality show televisivo, emitido em circunstâncias misteriosas e capaz de se transformar no maior – e mais improvável – fenómeno da história da moderna comunicação social. Milhões de fãs ficam colados ao ecrã, a verem os símios a encomendar fast food cheia de gordura, a terem relações sexuais por tudo e por nada e a gesticularem a Isabel para os salvar. Agora, para conseguir libertar a sua família de bonobos desta paródia da vida humana, Isabel tem de se aliar aos que a podem ajudar: John, um vegan de cabelo verde chamado Nathan e uma estrela porno reformada com prioridades muito específicas.

A Casa dos Primatas é um ótimo entretenimento que também nos abre a porta do mundo animal como poucos romances o fizeram, garantindo a Sara Gruen o lugar de uma contadora de histórias magistral que nos faz olhar para nós próprios como nunca antes foi possível.


Opinião
Sara mudou-se para o Canadá em 1999 para trabalhar como redactora mas quando, dois anos depois foi demitida, decidiu aventurar-se na escrita de ficção, aventura esse que culminou em dois livros, dois romances sobre as ligações entre as pessoas e os cavalos, tendo um deles sido bestseller do USA Today. Apaixonada por animais e uma contadora de histórias fabulosa, Sara criou uma obra-prima que lhe valeria o estatuto de uma das escritoras mais amadas do nosso tempo, o encantador e triste Água para Elefantes, que conquistou o público e apaixonou o mundo por uma história onde o amor está lado a lado com o carinho por uma elefanta muito especial.

O seu mais recente livro, A Casa dos Primatas, apenas veio confirmar o talento desta escritora. Aliada a uma longa fascinação pelos primatas, principalmente pelos bonobos, está uma pesquisa intensa, que marcou a autora de tal forma que a fez colocar muitos dos momentos que passou com os bonobos de The Great Ape Trust no seu livro e, talvez por se sentir em cada palavra um sentimento verdadeiro, A Casa dos Primatas revolucionou os livros sobre animais e consegue mostrar todo um mundo novo para o qual não estamos preparados.

Não costumo ler livros com animais como protagonistas, talvez por nunca ter tido um animal de estimação e nunca ter sentido aquela ligação que muitos têm aos nossos amigos de quatro patas mas depois de ter lido este livro, não só me redimi como me rendi às parecenças, à doçura e ao encanto natural destes bonobos. Escrito de uma forma brilhante, doce e profunda, este livro faz-nos olhar o mundo de forma diferente, a dar valor ao que temos e prende-nos a uma nova visão sobre os animais, a sua forma de entendimento e as suas relações com os seus e connosco, mostrando que não estamos sozinhos no mundo, só nos falta uma compreensão mais profunda do que nos rodeia.

Uma história sobre a vida e os seus caminhos, sobre o amor, a amizade e a família, o mais recente trabalho de Gruen arrebata-nos para a simplicidade e profundidade dos sentimentos, sejam humanos ou animais, num rodopio de ligações, puros acasos e luta pela verdade, onde seis bonobos vão unir à sua volta histórias de vida e ensinar que as palavras simples e os gestos mais puros podem salvar ou reacender uma chama que pode durar toda uma vida. Uma solitária apaixonada pelo trabalho que há muito considera os bonobos da instituição onde trabalha a sua verdadeira família, um jornalista apaixonado por causas e pela mulher, que fará tudo para ela ser feliz e trazer a verdade e a justiça ao de cima, jovens rebeldes e cheios de princípios que aprendem com os erros, uma prostituta que tem as suas próprias razões para se juntar a uma batalha de direitos e um realizador pornográfico que quer dinheiro e fama a qualquer custo, são alguns dos ingredientes que tornam esta narrativa única e cheia de profundidade, onde todo o tipo de amor será testado, todo o tipo de amizade será criado e novos horizontes serão abertos.

Os bonobos são uma surpresa, que além de divertida nos vai mudar e conquistar, ao ponto de criarmos uma ligação rica e apaixonada com estes animais cheios de personalidade, com gostos e vontades próprias e que nos entendem como poucos tentaram entendê-los. Mais do que animais de laboratório e fonte de rendimento, Sam, Bonzi, Lola, Makena, Jelani e Mbongo são uma família, onde todos os que se esforçam e são sinceros serão bem-vindos. Da casa onde vivem para um local onde são vistos como coisas, eles são o centro desta história e vão provocar nos leitores sentimentos tão fortes como os que provocam nas personagens que os rodeiam. Enternecedores, verdadeiros e mais humanos que aqueles que se intitulam assim, estes bonobos vão, sem dúvida, fazer-vos questionar e perceber que há muito mais do que pensámos.

A acompanhar estes primatas muito especiais, temos personagens de grande densidade, que resultado de várias experiências e situações, e com vidas tão diferentes, são capazes da maior compaixão e companheirismo, de fazer pelos que amam mais do que por eles próprios, e que vão aprender e ensinar o significado de amizade. Outras, serão capazes dos actos mais atrozes e da maior falsidade, mas também elas nos ensinaram algo, também eles nos provocarão emoções, mesmo que completamente diferentes.

Recheado de momentos fortes e de questões pertinentes, situações apaixonantes e revoltantes, A Casa dos Primatas é uma obra-prima, um livro de visões alargadas, de grandes sentimentos e muitas lições, onde os animais não são só protagonistas como pilares de uma história, que é tão diversificada quanto profunda. Da pura comédia ao maior dramatismo, de gestos ligeiros a actos grandiosos de indulgência, este livro conquista, apaixona e enternece qualquer leitor.

Amantes dos animais ou não, leitor assíduo deste tipo de livro ou nem por isso, qualquer um que lhe pegue e vire as suas páginas sentirão a força e a beleza do talento de Sara Gruen, que sem necessitar de grandes apetrechos, é capaz de nos contar uma história com muitas histórias entrelaçadas, de nos mostrar vários caminhos e de nos prender a cada gesto e palavra. Uma autora que aconselho a todos e que espero voltar a ler em breve.


7*

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