sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Opinião - As Cinquenta Sombras de Grey

Título Original: Fifty Shades of Grey (#1 Fifty Shades of Grey)
Autor: E. L. James
Editora: Lua de Papel
Número de Páginas: 552

Sinopse
 As Cinquenta Sombras de Grey é um romance obsessivo, viciante e que fica na nossa memória para sempre. Anastasia Steele é uma estudante de literatura jovem e inexperiente. Christian Grey é o temido e carismático presidente de uma poderosa corporação internacional. O destino levará Anastasia a entrevistá-lo para um jornal universitário. No ambiente sofisticado e luxuoso de um arranha-céus, ela descobre-se estranhamente atraída por aquele homem enigmático, sombrio, cuja beleza corta a respiração. Voltarão a encontrar-se dias mais tarde, por acaso ou talvez não. O implacável homem de negócios revela-se incapaz de resistir ao discreto charme da estudante. Ele quer desesperadamente possuí-la. Mas apenas se ela aceitar os bizarros termos que ele propõe... Anastasia hesita. Todo aquele poder a assusta – os aviões privados, os carros topo de gama, os guarda-costas... Mas teme ainda mais as peculiares inclinações de Grey, as suas exigências, a obsessão pelo controlo… E uma voracidade sexual que parece não conhecer quaisquer limites. Dividida entre os negros segredos que ele esconde e o seu próprio e irreprimível desejo, Anastasia vacila. Estará pronta para ceder? Para entrar finalmente no Quarto Vermelho da Dor? As Cinquenta Sombras de Grey é o primeiro volume da trilogia de E.L. James que é já o maior fenómeno literário do ano em todos os países onde foi publicada, da Austrália aos Estados Unidos, da Inglaterra à Nova Zelândia.

Opinião 
 Mãe de dois filhos, esposa e a trabalhar na televisão, E. L. James está na boca do mundo desde que a sua fanfic da saga Luz e Escuridão foi publicada em livro, estando a trilogia completa e um quarto livro a caminho. As Cinquenta Sombras de Grey é um fenómeno literário desde o seu lançamento no ano passado, desde mães a jovens fãs da obra de Stephanie Meyer, este livro não tem deixado ninguém indiferente, oscilando entre o amor e o ódio dos leitores. Aqui em Portugal, o primeiro livro já vai na quinta edição e o segundo será lançado em Outubro.

Chocante para uns, atractivo para outros, já foi traduzido em 37 línguas, é bestseller na maioria dos países e já vendeu mais de 40 milhões de cópias por todo o mundo, detendo o recorde de vendas mais rápidas de sempre, ultrapassando Harry Potter. Graças a este sucesso literário, E. L. James foi considerada uma das 100 pessoas mais influentes do ano.
Este livro não estava na minha wishlist pela simples razão de ser uma fanfic da saga da Stephanie Meyer e pelas péssimas opiniões que li de pessoas com quem partilho gostos literários mas, como gosto de ter a minha própria opinião e gosto de saber do que falo e, até tem havido excelentes opiniões, a minha curiosidade levou a melhor e o livro lá veio cá para casa, mesmo tendo esperado algum tempo para ser lido.
A verdade, é que há muito que eu devia ter aprendido a seguir o meu instinto, portanto, devia ter fugido deste livro a sete pés em vez de lhe dar uma oportunidade, que sinceramente ele não merece. Não por o livro ser chocante, não por as cenas de BDSM serem muito fortes mas porque, pura e simplesmente, E. L. James não sabe escrever livros. A escrita da autora é má, simplória, pouco atractiva e choca mais pela falta de qualidade do que pelas cenas sexuais. Ler este livro foi, para mim, uma perda de tempo, dinheiro e uma lição a aprender sobre as minhas compras e instintos. Até escrever a opinião dele, me parece uma perda de tempo mas já que o li há que justificar as minhas impressões.
Para além de uma escrita fraca, as personagens da autora, e falo de Anna e Grey porque as outras estão lá apenas para preencher páginas e não têm qualquer objectivo no livro, são daquelas personagens que a minha mente não esquecerá de tão más que são. Continuo sem perceber como é que uma moça licenciada, que lê e supostamente é culta consegue ser tão nada. Anna não tem personalidade, força de vontade, humor, nem sequer dá pena, é apenas irritante, sem sal, aborrecida e consegue destruir a nossa paciência numa única fala. Se a ideia era ter uma Bella, acho que a autora conseguiu ultrapassá-la. Anna é ainda mais vazia, é uma personagem que não foi construída, é bidimensional, é um protótipo e mais ela não merece da minha parte. Quanto a Grey, é o típico cúmulo a que um homem pode chegar e de atractivo, sensual tem pouco. Perseguidor, obsessivo, controlador, irritante, é o tipo que não quero de certeza à minha porta e, peço desculpa, mas não consigo sentir mais do que uma fúria imensa por esta personagem na qual a autora depositou toda a sua energia.
Esta história não tem alicerces, seguimento, construção, não foi sequer pensada, é uma algaraviada de pensamentos e cenas parvas e enjoativas. Quanto ao BDSM do livro, não o achei chocante pelo assunto em si mas porque estas devem ter sido as piores cenas de sexo que alguma vez li. Chocante não é a cena do tampão, é sim a forma como a escritora apresenta a relação dos protagonistas, a forma como este livro apresenta o sexo, a forma como as coisas mais ignóbeis são apresentadas como normais. Já o BDSM, deve ter sido a única coisa menos chocante de tão suave que foi.
Por último, e não podia deixar este assunto sem comentário, a vozinha da deusa interior da Anna consegue ser ainda mais idiota que ela. Não quero nem vou tentar perceber qual foi a ideia ao colocar este “acessório” na narrativa porque conseguia ser mais irritante do que tudo o resto junto. Ridículo, não chega para adjectivar a suposta consciência da Anna, e é engraçado porque sem esta parte, possivelmente o livro teria menos partes nulas porque ainda estou para perceber porque era preciso 500 páginas para isto.
Como já devem ter percebido, eu fiquei na facção dos que odiou e espera nunca mais olhar para este livro. Se gostarem, força leiam mas ninguém me convence a voltar a olhar para isto nem como é possível isto já ter vendido tanto. Eu dispenso.

1*

Aquisições *AGOSTO*

Num mês onde a maior parte do dinheiro foi para as férias, foram poucos os livros que chegaram a estante mas todos eles já estavam na minha wishlist a muito tempo, só por isso, este já foi um bom mês. Graças as leituras do Clube BlogRing e à biblioteca pude ler livros à muito esperados e não tive necessidade de comprar tantos este mês.
Deixo-vos as poucas mas muito aguardadas aquisições de Agosto.

Compras


Agnes Grey Anne Brönte
North and South Elizabeth Gaskell 
 

Julieta Anne Fortier
 
Steampunk Poe


Trocas


A Mão Esquerda das Trevas Ursula K. Le Guin

Oferta


Paixões Secretas Anna Godbersen
(obrigada Liliana!!)

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Opinião - O Regresso

Título Original: The Return
Autor: Victoria Hislop
Editora: Civilização Editora
Número de Páginas: 460

Sinopse
 Cativante e profundamente comovente, o segundo romance de Victoria Hislop é tão inspirador como o seu romance de estreia e bestseller internacional, A Ilha.

Nas ruas calcetadas de Granada, sob as majestosas torres do Alhambra, ecoam música e segredos. Sónia Cameron não sabe nada sobre o passado chocante da cidade; ela está lá para dançar. Mas num café sossegado, uma conversa casual e uma colecção intrigante de fotografias antigas despertam a sua atenção para a história extraordinária da devastadora Guerra Civil Espanhola.
Setenta anos antes, o café era a casa da unida família Ramirez. Em 1936, um golpe militar liderado por Franco destrói a frágil paz do país, e no coração de Granada a família testemunha as maiores atrocidades do conflito. Divididos pela política e pela tragédia, todos têm de tomar uma posição, travando uma batalha pessoal enquanto a Espanha se autodestrói.

Opinião 
 Traduzida para mais de vinte línguas, Victoria Hislop já conquistou um lugar no coração dos seus leitores, amantes de romances históricos. Vencedora de prémios como o Newcomer of the Year at the Galaxy British Book Awards 2007 e o Richard & Judy Summer Read competition, Victoria já escreveu três livros de sucesso, sendo um deles este O Regresso, número um nos bestsellers do Sunday Times. Antes de ser escritora, a autora trabalhou na publicação e como relações públicas e jornalista.

Uma das autoras preferidas dos leitores portugueses, Hislop é uma das grandes apostas da Civilização e com apenas três romances tem granjeado elogios até mais não. Como curiosa e leitora que sou e, confesso, uma grande apreciadora das capas dos livros da senhora, tive de trazer este da biblioteca para perceber se tudo o que se dizia sobre os seus livros era verdade ou não. Entre o passado e o presente, este livro remete-nos para os factos não muito longínquos de uma época aterrorizadora da qual se tem vindo, pouco a pouco, a descobrir mais coisas, entrelaçando-a com uma história do presente sobre descobertas pessoais, transformações e decisões importantes.
Com um início calmo onde pouco antecipa o desenrolar que a história terá, este livro marca pelo desenvolvimento que a autora lhe dá no passado. Sónia, é a meu ver, um veículo para chegar ao verdadeiro cerne do livro, sendo ela a catalisadora das descobertas e do desenterrar de um passado que ainda marca as gerações que o viveram. Não consigo vê-la como a protagonista do livro, apesar de todas as suas questões pessoais, parece-me que toda a energia e paixão da autora foram para as outras personagens, e gostava que ela tivesse sido mais desenvolvida. Se o objectivo da escritora foi dar-nos uma ouvinte perfeita, que cresce e aprende com tudo o que ouve, Sónia foi perfeita para ouvir uma história com a qual tem mais ligação do que pensa.
Entre pequenas pistas que podem deixar adivinhar o que se segue, a autora consegue mesmo assim surpreender o leitor e puxá-lo para uma época de dores, paixões, obsessões, onde estar no Inferno se torna um eufemismo. Victoria tem uma escrita directa, límpida e apaixonada, que permite viver cada emoção como se tivéssemos passado por tudo o que nos descreve. Se a primeira história torna-nos receptivos para o que aí vem e nos faz simpatizar com Sónia, é o relato sobre a Guerra Civil Espanhola que nos prende e nos leva mais longe. A forma como as personagens são construídas faz-nos entendê-las, sofrer com elas e encontrar um pouco de nós em cada uma delas. Tal como na sua escrita, as suas personagens são transparentes, apaixonadas, lutadoras e idealistas, são ídolos ou heróis que podemos encontrar no mais simples ser humano.
O relato que conta a história de uma família dividida abafa por completo a de Sónia pois cada palavra, acontecimento ou expressão servem para nos fazer pensar, levar-nos a revolta, a fúria ou as lágrimas. Cada momento arrepia-nos, comove-nos, convence-nos ao espírito de rebelião ou faz com que a nossa mente queira esquecer. Cada dor, cada atrocidade serve para nos recordar que há coisas que não se podem repetir, que o Homem pode ser capaz de tudo por ideais, pelo poder, para ter razão. Este livro mudou algo em mim e recordou-me uma das razões porque foi que escolhi o rumo que estou a seguir, as gerações futuras não podem esquecer que males se fizeram, que o que temos hoje, temos a conta de sangue, lágrimas e muita força de espírito.
O Regresso é um relato brilhante que nos faz esquecer a ouvinte que ouve a história que mudará a sua vida, onde tudo o que importa são aqueles que nunca perderam a esperança, que lutaram e levantaram a cabeça e a usaram para sobreviver. Um livro que aconselho a todos pois este não é um romance mas uma lição de vida e uma recordação.

6*

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Picture Puzzle #24


Regras:

  • Escolher um livro;
  • Arranjar imagens representativas das palavras dos títulos (uma imagem por palavra, ignorando os "e, o(s), a(s), de, etc.);
  • Fazer o post e convidar o pessoal a tentar adivinhar o livro;
  • Se estiver a ser difícil podem ser fornecidas pistas mas está ao critério do administrador do blogue;
  • As imagens não têm de literalmente representar o título
Podem consultar a rubrica nos seguintes blogues: Bookeater/Booklover

Puzzle #1

Pistas: título em português



 Puzzle #2
  
Pistas: título em português



terça-feira, 28 de agosto de 2012

Teaser Tuesday (35)

Regras:

  • Pegar no livro que estamos a ler
  • Abrir numa página à sorte
  • Partilhar duas frases dessa página. Não incluir spoilers!
  • Partilhar o título e o autor do livro



"Um a um, os condenados foram obrigados a ajoelhar em frente do hábito branco para ouvir a sentença. Noutras circunstâncias podia acontecer o perdão, ou quase. O sentenciado era então condenado às galés após receber umas chicotadas, mas daquela vez nenhum escapou."
p.96, Mataram a Rainha!, Juliette Benzoni 


Rubrica original do blog Should Be Reading

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Uma Centena





Um ano e sete meses depois da criação do blogue chegámos finalmente ao redondo número de 100 seguidores!

Obrigada a todos os que tem acompanhado o crescimento do blogue, que leiam as opiniões, mesmo que não comentem, aqueles que lêem e comentam, que seguem as rubricas, que se riem com as parvoíces, que continuam a ler mesmo que não concordem. 

Obrigada pelo apoio,pelas mensagens que me deixam feliz, pelos elogios, pela ajuda, pelos esclarecimentos, nunca vos vou puder agradecer o suficiente!

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Vou de Férias!

Parto hoje para uma semaninha de descanso, praia, convívio, treino de cozinha, gritaria e muita alegria da qual retorno domingo. Apesar de ter lá net é só um computador para 8 pessoas por isso virei, quando puder, apenas ver os e-mails e responder aos comentários e, talvez ao Goodreads se conseguir ler alguma coisa de jeito (é preciso deixarem-me!). Sintam-se a vontade para passar por aqui na mesma, e comentem se quiserem que prometo ir passando.

Quanto as leituras, vou levar apenas um livro pois não espero conseguir ler muito por lá. O Divergente já está na mala, tal como tudo o que preciso, espero eu! As malas estão feitas, o quarto arrumado e agora é esperar que a mãezinha chegue para um último almoço até ao meu regresso ;)

Por aqui, vai haver novidades para a semana, para além das três opiniões em atraso, estejam atentos!


Até para a semana!!


domingo, 19 de agosto de 2012

Opinião - Anna Karénina

Título Original: Анна Каренина
Autor: Lev Tolstoi
Editora: Relógio de Água
Número de Páginas: 846

Sinopse
 «Embora seja uma das maiores histórias de amor da literatura mundial, Anna Karénina não é apenas um romance de aventura. Verdadeiramente interessado por temas morais, Tolstoi era um eterno preocupado com questões que são importantes para a humanidade em todas as épocas. Bom, há uma questão moral em Anna Karénina, embora não aquela que o leitor habitual possa crer que seja. Esta moral não é certamente o ter cometido adultério, Anna pagou por isso (num sentido vago pode dizer-se que é esta a moral do final de Madame Bovary). Não é isto, seguramente, por razões óbvias: se Anna ficasse com Karenin e escondesse do mundo o seu affair, não pagaria por isso primeiro com a felicidade e depois com a própria vida. Anna não foi castigada pelo seu pecado (podia muito bem ter-se safado deste) nem por violar as convenções da sociedade, muito temporais como aliás são todas as convenções e sem ter nada a ver com as eternas exigências da moralidade. Qual era então a «mensagem» moral que Tolstoi queria passar neste romance? Entendemo-la melhor se olharmos o resto do livro e compararmos a história de Lévin e Kiti com a de Vronski e Anna. O casamento de Lévin é baseado num conceito metafísico, não apenas físico, do amor, na boa-vontade e no sacrifício, no respeito mútuo. A aliança Anna-Vronski é fundada apenas no amor carnal e é aqui que reside a sua ruína.»

Do Posfácio, de Vladimir Nabokov.

Opinião 
 Lev Tolstoy é considerado por muitos um paradoxo e uma das personalidades mais intrincadas da literatura. Um cristão anarquista fervoroso, foi na década de 70 do século XIX que o escritor teve uma crise moral e espiritual que o levou a tornar-se um reformista social e um pensador moral, tendo inspirado figuras como Gandhi ou Martin Luther King Jr. com as suas ideias de resistência pacífica.
Mas o escritor russo é principalmente conhecido como um dos maiores escritores do mundo, muito devido a dois dos seus romances, Guerra e Paz e Anna Kareninna, ambos considerados como o apogeu da ficção realista e dois dos maiores romances de todos os tempos. Enquanto o primeiro foi escrito em 1864, antes da crise espiritual do autor, o segundo vem já dos novos ideais que Tolstoy havia implementado na sua vida.
Guerra e Paz foi um dos livros que marcou a minha adolescência e é o principal culpado do meu fascínio pela história russa. Por mais livros que leia, poucos conseguem atingir a grandiosidade deste livro e Tolstoy é, para mim, um dos escritores mais brilhantes do seu tempo. Aproveitando a estreia iminente de mais uma adaptação cinematográfica de Anna Kareninna com uma das minhas actrizes preferidas e realizado pelo responsável de alguns dos meus filmes preferidos, decidi que estava na hora de regressar a este autor e de ler finalmente este livro.
A complexidade desta história, a quantidade de personagens e as relações entre elas levaram a um início de leitura mais calmo mas assim que entrei no ritmo, nunca mais consegui larga-lo. Anna Karénina é um livro que se entranha, que nos conquista palavra a palavra até se tornar um vício e, não é de espantar, que o tenha lido em três dias tal foi o meu entusiamo a lê-lo. Tolstoy é um mestre que puxa o leitor para cada situação que apresenta, que conhecia cada problemática da sua sociedade e para quem todas as questões eram importantes. Ele dá-nos a sua época e o seu mundo em cada expressão, ensina-nos a amar ou a odiar cada qualidade ou defeito desta sociedade a entrar em ebulição, que aproveita cada momento antes do fim próximo.
Entre amores adúlteros e sinceros, vícios e costumes, evolução e regressão, o autor dá-nos tão mais do que isso. Desde as questões filosóficas às sociais, desde a política à economia, cada nuance do que foi o Império Russo é nos apresentado ao pormenor para que o leitor conheça todas as facções e tire as suas próprias conclusões.
Intensa, intemporal, apaixonante, assim é a história de Anna Karénina, que combate a sociedade por amor mas que não sobreviverá aos mais cruéis medos humanos. Nela a humanidade está presente no seu estado mais cru, onde as paixões combatem as normas, onde a vontade não se livra do dever, fazendo-nos viver com Anna as suas dores, a sua felicidade e os seus temores de uma forma tão abrangente como poucas protagonistas conseguem.
As personagens de Tolstoy são complexas, únicas e são em si mesmas reflexos de opiniões, posições e problemas da sociedade russa do final do século XIX. Cada uma delas tem um objectivo, cada uma delas representa uma facção da teia que é uma sociedade. Umas representam o imperialismo, a corte, a alta nobreza, outras os latifundiários, os militares, os pensadores. Cada degrau do que compõe este mundo está presente neste livro para criticar, ensinar ou louvar os princípios da Rússia. Nenhuma personagem é perfeita. É humana, têm defeitos como toda a gente e tanto pudemos adorá-las num momento como podemos, noutro, detestá-las. Cada uma tem as suas ideias, cada uma complementa todas as outras e, é difícil, não ficarmos assoberbados com a beleza e grandiosidade do que Tolstoy criou neste livro.
Uma narrativa única, rica em pormenores sociais e morais, onde cada caminho irá levar ao seguinte, marcam este livro e tornam-no intemporal e magnífico. Uma epopeia familiar onde ninguém é descurado e onde todos são atingidos pela violência do amor de Anna e Vronsky, Anna Karénina é um ataque aos sentidos do leitor, a sua capacidade de aprendizagem e sede de palavras fortes, densas, onde a sátira e a crítica estão patentes de forma tão crua, onde um homem enaltece e ataca com uma perícia que poucos ou nenhuns detêm.
Um prazer para um leitor que anseia por algo mais, este livro é belo, intenso e merece o epíteto de um dos melhores de todos os tempos, pois livros assim já não se escrevem, espíritos destes ainda não se levantaram para abrir os olhos às massas. Daqueles livros que marcam e ficam entranhados para sempre, Anna Karénina é um monstro da literatura que merece estar na estante de todos os leitores.

7*

sábado, 18 de agosto de 2012

Opinião - Alma Rebelde

Título Original: Alma Rebelde
Autor: Carla M. Soares
Editora: Porto Editora
Número de Páginas: 288

Sinopse
 No calor das febres que incendeiam a Lisboa do século XIX, Joana, uma burguesa jovem e demasiado inteligente para o seu próprio bem, vê o destino traçado num trato comercial entre o pai e o patriarca de uma família nobre e sem meios.
Contrariada, Joana percorre os quilómetros até à nova casa, preparando-se para um futuro de obediências e nenhuma esperança.
Mas Santiago, o noivo, é em tudo diferente do que esperava. Pouco convencional, vivido e, acima de tudo, livre, depressa desarma Joana, com promessas de igualdade, respeito e até amor.
Numa atmosfera de sedução incontida e de aventuras desenham-se os alicerces de um amor imprevisto... Mas será Joana capaz de confiar neste companheiro inesperado e entregar-se à liberdade com que sempre sonhou? Ou esconderá o encanto de Santiago um perigo ainda maior?

Opinião 
 Carla M. Soares é leitora, blogger, professora e, antes de tudo isso, estão todas as actividades inerentes à condição de mulher. Tem uma licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas e mestrado em Estudos Americanos, Literatura Gótica e Film Studies. Como se não bastasse tudo isso, é também escritora. Alma Rebelde é o seu primeiro livro a ser publicado e tem arrebatado os leitores portugueses com uma história de amor em terras lusas recheada de expressões e sentimentos inerentes a alma portuguesa. Uma das apostas nacionais deste ano, promete agarrar os seus leitores e fazê-los regressar a casa.
Se há coisa que eu gosto é de romances históricos que têm realmente história e, o que eu gosto mais ainda, é quando eles se passam em Portugal e em português. Infelizmente não me tenho sentido atraída para os autores nacionais deste género e, cada vez mais, me tenho sentido insatisfeita com o que tem sido feito por cá neste ramo. Os autores da moda enervam-me, as histórias não têm nem pés nem cabeça e nos últimos anos, apenas Equador me conseguiu arrebatar. Triste mas real e, apenas por uma questão de sorte ou de trocas é que Alma Rebelde me veio parar cá a casa.
Sendo a expectativa quase nenhuma e com tanto desgosto que tenho tido eis que me deparo com uma leitura arrebatadora, doce e rebelde que me fez ler as páginas deste livro de uma virada só, sem olhar para o relógio ou o que quer que fosse. A sua escrita, tão aconchegante a alma portuguesa, apaixona e encanta enquanto assistimos ao desenrolar cadenciado da acção. A fluidez e simplicidade das palavras e dos actos conquistam qualquer um que necessite de um romance enternecedor, onde dos costumes e regras pode brotar um amor capaz de mover marés.
A primeira coisa com que nos deparámos ao ler este livro é a atenção e o cuidado aos pormenores históricos, mesmo tendo sido escolhido um reinado não tão sonante da História de Portugal, a autora consegue transmitir-nos ideais, costumes e problemáticas do reinado de D. Pedro V sem entrar em grandes descrições e cenas demasiado pormenorizadas. A informação é dada de forma a ficar retida pelo leitor e a que encaixe com a história dos protagonistas, sem alongar demais o assunto.
Este livro acaba por não ser só uma história de amor ou só uma lição de história, ambas se encaixam de forma a que nenhuma se sobrepunha a outra, estando o romance de Santiago e Joana dependente não só das regras do amor como também das regras da sociedade. Assim, esta leitura não se torna “mais do mesmo” mas algo novo e inesperado de que os leitores não vão estar a espera depois de ler a sinopse do livro. Em vez de um romance tórrido apenas histórico pela época em que se passa, Alma Rebelde é na sua essência um romance histórico merecedor desse nome.
Numa narrativa onde cada momento é importante e se torna essencial a história, só tenho pena que o livro não fosse um bocadinho maior pois mais pormenor e desenvolvimento teriam feito a história crescer muito mais e tenho a sensação que isto teria dado “pano para mangas”. Contudo, é uma narrativa bem construída com uma linha de pensamento acertado e que fica a ganhar pelas correspondências trocadas ao longo da trama. Foi um pormenor engraçado que deu ao livro um outro impacto e que puxa ainda mais o leitor a sua leitura, tem como senão o se querer mais ainda a partir dessas cartas.
Para uma história bem construída temos personagens encantadoras, onde cada uma representou o seu papel na perfeição e cada uma era essencial a história. Mesmo assim, tem-se de enaltecer o casal protagonista. Joana pode reunir todos os contrassensos mas, para mim, foi uma personagem bem pensada que se torna diferente de todas as outras. Está dentro do espírito das jovens da época e transporta-nos para os verdadeiros temores femininos da altura. Santiago, por outro lado, é o perfeito, o maravilhoso, a personagem sem a qual este livro não seria ao mesmo. No momento em que ele entra na acção, todo o nosso pensamento passa por ele e é impossível não nos apaixonarmos.
O grande defeito deste livro será, talvez, o final. Rápido, agridoce, gostava que aquela última parte tivesse sido mais pormenorizada, mais explicativa mas, sinceramente, tem uma aura de mistério, de imaginação que pode levar o leitor muito mais longe e, por isso, se calhar daqui uns dias, vou gostar mais dele.
Aqueles que gostam de ler em português por portugueses, façam-me o favor de ir a livraria e, em vez de comprarem o autor do costume, comprem este, ficarão muito melhor servidos. Eu fiquei mais crente na literatura em Portugal. 

6*

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Opinião - Sangue do Assassino

Título Original: Golden Fool (#2.2 Tawny Man)
Autor: Robin Hobb
Editora: Saída de Emergência
Número de Páginas: 372

Sinopse
 Apesar de profundamente enredado nos seus conflitos pessoais, o Assassino tem de preparar uma expedição infalível às Ilhas Externas. Para isso há que ensinar ao príncipe dos Seis Ducados tudo o que conseguir sobre as duas magias - duas misteriosas e temidas magias inerentes ao sangue que ambos partilham. Mas na vida de Fitz nada é fácil, e o seu próprio desconhecimento de muito do que diz respeito a essas magias pode ter consequências catastróficas, tanto para si como para o herdeiro… e, em última instância, para o próprio reino.
Mas as ameaças não se ficam por aí: quem são realmente aqueles estranhos vilamonteses que apareceram inesperadamente em Torre do Cervo? E os manhosos, que resultará dos seus conflitos internos e que atitude tomará a respeito deles a coroa dos Seis Ducados?

Opinião 
 Escritora profissional a 30 anos, Robin Hobb é a escritora de três trilogias de fantasia bem sucedidas, estando as duas sobre FitzCavalaria já traduzidas em português, uma completamente e a outra a andar a bom ritmo. Considerada uma das senhoras da fantasia épica actual, reúne elogios quer dos fãs quer de colegas como George R. R. Martin. Criticada ou elogiada, Robin é uma criadora de personagens nata que gosta de levar o seu tempo a contar uma história e que não escreve finais felizes por obrigação. Apesar do sucesso dos seus Seis Ducados, foi com o seu outro pseudónimo, Megan Lindholm, que foi finalista dos prémios Hugo, Nebula e Endeavor, tendo ganho duas vezes o prémio Leitores de Ficção Científica Isaac Asimov.
De a um ano para cá já li sete livros de Robin Hobb, quatro da Saga do Assassino e, com este, três do Regresso do Assassino. Seria de esperar que já andasse um bocadinho farta de “mais do mesmo” mas depois de três meses sem o meu Fitz, não aguentei mais e tive de regressar aos Seis Ducados, e começo a ficar seriamente preocupada como é que vou sobreviver quando não houver mais Robb para ler, visto que se tornou um hábito difícil de arrancar.
Depois dos últimos acontecimentos inesperados que se deram no final de Os Dilemas do Assassino, encontrámos neste livro a corte dos Seis Ducados a braços com uma crise interna e com Fitz apanhado numa teia de alta conspiração que traz os seus instintos de espião e assassino ao de cima, sendo necessário fazer tudo o que esteja ao seu alcance para salvaguardar, mais uma vez, a paz no reino. Como se isso não bastasse, todos os que ama estão decididos a dificultar-lhe ainda mais a vida e o seu segredo pode estar a beira de ser descoberto.
Este é muito provavelmente o livro mais emocional do Regresso do Assassino, onde as emoções estão ao rubro. Segredos são descobertos, novos mistérios se adensam e o passado está cada vez mais próximo, tornando os acontecimentos densos e carregados de adrenalina que culminam em momentos de suster a respiração. Os fãs mais acérrimos da saga serão ver-se-ão perante sentimentos fortes que os levarão a viver cada momento lado a lado com Fitz, sentindo as suas mágoas e triunfos como se fossem deles.
Mais uma vez Robb demonstra que o seu estilo calmo e lento tem como objectivo chegar, pé ante pé, a novas descobertas e desafios, que já se avizinham neste livro. Colocando as novas personagens em caminhos inesperados, trazendo de novo personagens do passado que mexerão com os últimos acontecimentos de uma maneira complexa, a autora retorna ao brilho desta saga e, lentamente, começa a desbravar o caminho de tudo o que ficou por explicar no fim de A Saga do Assassino.
Mais uma vez, a autora prova que criou uma saga de uma complexidade única que se salienta da restante fantasia épica. Apesar da simplicidade que à primeira vista estes livros possam parecer ter, por trás de cada palavra existe um segredo, por trás de cada decisão, um novo rumo, e cada vez mais a profecia do Catalisador torna-se importante para o rumo da história. O facto deste livro ser muito a alma de Fitz, desde o seu lugar enquanto espião e assassino, ao jovem que nunca pode ser quem devia, ao homem que teve de enfrentar todo o passado outra vez, torna-o único, pois cada fase da vida do nosso protagonista fica a descoberto e todas emoções reprimidas começam a soltar-se para influenciar toda a trama.
Enquanto fã da saga, vivi cada momento com uma curiosidade atroz, assisti a cenas que nunca pensei assistir e tomei as dores das personagens como minhas. Com uma leitura recheada de surpresas, onde se avizinham decisões importantes para o futuro deste reino, este é o livro onde já se sente a aproximação da tempestade e onde se prepara o palco para os novos conflitos.
Mais um livro fantástico de uma saga que me está cada vez mais entranhada e que aconselho a qualquer fã de fantasia.

7*

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Picture Puzzle #23




Regras:

  • Escolher um livro;
  • Arranjar imagens representativas das palavras dos títulos (uma imagem por palavra, ignorando os "e, o(s), a(s), de, etc.);
  • Fazer o post e convidar o pessoal a tentar adivinhar o livro;
  • Se estiver a ser difícil podem ser fornecidas pistas mas está ao critério do administrador do blogue;
  • As imagens não têm de literalmente representar o título
Podem consultar a rubrica nos seguintes blogues:Bookeater/Booklover

Puzzle #1

Pistas: título em português; ficção científica; autora





terça-feira, 14 de agosto de 2012

Teaser Tuesday (34)

Regras:

  • Pegar no livro que estamos a ler
  • Abrir numa página à sorte
  • Partilhar duas frases dessa página. Não incluir spoilers!
  • Partilhar o título e o autor do livro



"Ela estava encantadora no seu simples vestido negro, encantadores eram os seus braços cheios com as pulseiras,encantador o seu pescoço firme com um colar de pérolas, encantadores os seus cabelos crespos no penteado um pouco desalinhado, encantadores os movimentos leves e  graciosos dos pequenos pés e das mãos pequenas, encantador aquele belo rosto na sua vivacidade; mas havia qualquer coisa de terrível e cruel no seu encanto."
 p. 91, Anna Karénina, Lev Tolstoi

Rubrica original do blog Should Be Reading

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Opinião - Sensibilidade e Bom Senso

Título Original: Sense and Sensibility
Autor: Jane Austen
Editora: Europa-América
Número de Páginas: 292

Sinopse 
 Sensibilidade e Bom Senso, o primeiro livro de Jane Austen, publicado em 1811, conta a alegre e satírica história de duas irmãs. A instintiva e apaixonada Marianne e a sensata e mundana Elinor.

Embora o coração impaciente de Marianne a deixe vulnerável aos males de amor, as qualidades opostas de Elinor também não a protegem dos problemas emocionais.

Sensibilidade e Bom Senso - um retrato psicológico e social da pequena-burguesia do século XVIII.

Opinião 
 Sensibilidade e Bom Senso foi a primeira obra de Jane Austen a ser publicada, em 1811, tendo sido escrita entre 1795 e 1799, a segunda obra a ser vendida e a terceira a ir parar as mãos de um editor. Início de uma carreira brilhante que sobreviveu à morte de Jane em 1817 e perdura até aos nossos dias, Sensibilidade e Bom Senso ocupa um dos lugares de preferência dos “austinianos”, tendo mesmo sido adaptada para série duas vezes pela BBC em 1981 e em 2008, para filme em 1995 com as estrelas Emma Thompson, Hugh Grant, Kate Winslet e Alan Rickman e até teve direito a uma produção indiana.
Este é um daqueles livros que eu já devia ter lido há muito tempo, não fosse eu uma fã de Austen, mesmo que principiante mas pronto consegui finalmente lá chegar e a este ritmo pode ser que tenha os livros mais sonantes dela lidos até ao final do ano, o que me faz muito feliz. Este era o de alta prioridade, visto ser com os meus dois preferidos, considerado um dos melhores da Jane, portanto um que eu esperava a partida gostar muito.
Este livro começa por ser diferente ao falar-nos de duas irmãs que são o oposto uma da outra e, por isso, enfrentam os seus problemas de formas contrárias sem deixarem que a sua relação seja afectada por isso. Tanto Elinor como Marianne são adoráveis à sua maneira e, cada uma delas, reflectem duas formas de estar na sociedade em que estão inseridas, mesmo quando confrontadas com situações românticas quase idênticas.
É fácil para o leitor se identificar com uma ou com a outra, já que Elinor é a racional e sensata e Marianne a impulsiva e apaixonada. Ambas simbolizam, no entanto, a mulher do século XIX que se começa a instruir, que lê e vive para além dos mexericos, do casamento e dos filhos. Tendo as irmãs Dashwood sido inspiradas em Jane e na sua irmã Cassandra, a autora apresenta-nos um livro mais pessoal, em que se identificava com muitas das situações, e era, também uma forma de homenagear a sua irmã mais chegada. Por isso mesmo, este livro dá aos fãs de Jane uma abertura para a vida da autora que mais nenhum dá. Mais do que isso, será possivelmente o que mais se coaduna com a opinião pessoal de Jane acerca dos seus contemporâneos.
Retrato de uma sociedade burguesa em crescimento, Sensibilidade e Bom Senso está cheio de críticas e pequenos sarcasmos, apresentando os vícios e falhas de um meio voltado para o dinheiro e para a posição social, onde os erros são escondidos por trás de mexericos e uma amabilidade fria. Nenhuma personagem escapa ao escrutínio da autora, tirando as duas irmãs, vistas como as únicas que não colaboram com a mesquinhice e o pobre senso-comum de todas as outras personagens.
O casamento acaba por ser o principal tema deste livro, estando todas as personagens condicionadas por ele. Pode-se mesmo considerar que o feminismo de Jane está patente em cada consideração que faz sobre a situação matrimonial das personagens, em que a autora acusa os erros do casamento, sendo que cada um dos casais um exemplo do que este não deve ser mas que era a regra nos casamentos da época. A autora ataca aqueles que casam por dinheiro ou por uma posição elevada apresentando-lhes as diversas formas do ridículo a que podiam chegar e Elinor e Marianne são o exemplo do que as jovens deviam ser e procurar.
Conservadora ou feminista, Jane Austen era uma romântica mas neste livro não ultrapassa as linhas entre o decoro e posição. O casamento de Marianne é um exemplo em como a autora não acreditava em romances impulsivos com jovens que pouco pensavam e a relação de Elinor de que a calma e a prudência dão sempre frutos, daí os fins das duas irmãs estarem de acordo com as suas personalidades.
Sobre amor e fraternidade, sobre como os laços de união se devem construir, em que o casamento é uma alta instituição que deve ser respeitada mas levada a cabo por quem realmente o sente, este é um livro encantador, que sublinha o talento de Austen enquanto romancista.
Um dos melhores livros de Jane, pode ser o livro perfeito para os estreantes e irá proporcionar-lhes um retrato único sobre uma sociedade em mudança, onde as aparências eram tudo.

6*