quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Opinião - A Floresta Mecânica

Título Original: Variant (#1 Variantes)
Autor: Robison Wells
Editora: Planeta Manuscrito
Número de Páginas: 328

Sinopse
Benson Fisher pensou que uma bolsa para frequentar a Academia Maxfield seria o seu passaporte para uma vida com futuro. Estava enganado. Agora, vive num colégio cercado por uma vedação de arame farpado. Um colégio onde câmaras de vigilância monitorizam todos os seus movimentos. Onde não há adultos. Onde os alunos se dividiram em grupos para sobreviver. Onde a punição por violar as regras é a morte. Mas, quando descobre, por acidente, o verdadeiro segredo do colégio, Benson percebe que cumprir as regras poderá trazer-lhe um destino pior do que a morte, e que a fuga - a sua única esperança de sobrevivência - talvez seja uma missão impossível. 

Opinião
Robison começou a escrever enquanto crítico de teatro para a revista de artes semanal da Universidade do Utah em 1999 e publicou o seu primeiro livro em 2004, uma comédia romântica baseada numa pequena cidade que foi seguida de dois thrillers políticos, que foi uma forma de utilizar a sua licenciatura em Ciência Política. Sem conseguir encontrar trabalho na sua área, voltou à universidade e decidiu dedicar-se à literatura juvenil, o que fez com que lesse e escrevesse mais do que estudava economia. Depois de se licenciar em 2009 e ver-se de novo no desemprego, começou a escrever Floresta Mecânica que ao ser publicado em 2011, permitiu ao seu autor escrever a tempo inteiro. Vive actualmente no Utah com a mulher e os três filhos.
Nomeado para o Publishers Weekly’s Best Books of 2011 e para o YALSA Picks for Reluctant Readers, Floresta Mecânica mereceu as críticas mais positivas e foi mesmo comparado a Os Jogos da Fome ou Divergente. Com uma premissa capaz de nos fazer roer as unhas e entrar num stresse total, este é um livro, que sem cenário pós-apocalíptico mas com uma ideia genial, consegue cortar a respiração, prender o leitor e levá-lo a um local onde as aparências iludem e a vida de todos está em jogo. A perspectiva de um futuro perde-se na lei da sobrevivência, um colégio que afinal é uma prisão, regras que levam a uma única sentença: o desaparecimento para nunca mais se ser visto. A Academia Maxfield é uma incógnita, uma fachada para algo que nenhum aluno se atreveu a imaginar, um sítio onde os abandonados têm um lar, um lar que os pode destruir, onde não existem adultos ou figuras de autoridade, só um medo que os fez seguir as regras à risca.
Psicológico, aterrador, este é um livro onde os limites são testados, onde as regras são sufocantes, os direitos extraídos e a juventude é utilizada a favor de um ambiente hostil onde a tecnologia é utilizada como forma de opressão e as fragilidades adolescentes são usadas como moeda de troca. A ideia desta narrativa não podia ser mais simples, mais cruel e mais genial do que é e, quer queiramos quere não, vai agarrar qualquer leitor que aprecie um mundo distópico. Dentro de quatro paredes ou rodeados de arame farpado, jovens abandonados, sem família ou amigos, viram uma vez este espaço como uma esperança num futuro incerto mas rapidamente percebem que nunca sairão dali e nem há uma razão aparente para ali estarem. Ou aceitam as regras e iludem as suas mentes ou desaparecerão na noite como se nunca tivessem existido. A necessidade de sobrevivência, de um líder, de um grupo onde se sintam integrados, levam-nos a entrar em grupos, que numa espécie de paz armada, transformam a academia num pequeno espaço onde ninguém pode ultrapassar as medidas criadas para a segurança de todos, mesmo que signifique a injustiça total.
Ao mexer com a mente juvenil que nunca teve um suporte familiar ou regras definidas, Robison consegue enquadrar este grupo na perfeição com a incerteza, opressão e sinistralidade que Maxfield confere, conseguindo chocar-nos com as atitudes, pensamentos ou actos praticados por estes jovens, que há muito esquecidos e abandonados, procuram na hostilidade migalhas de normalidade, de vida, da adolescência que não viveram. Em termos de descrições e psicológicos, Floresta Mecânica é um livro que promete mas que não consegue alcançar tudo o que podia ser. Se a incerteza e suspense que se vive durante toda a leitura consegue prender o leitor e mantê-lo curioso, a dada altura quer-se respostas e em vez dessas surgem ainda mais perguntas. Pedia-se um final, que mesmo tendo sido real e cruel, também levantasse algumas das dúvidas com que o leitor fica, pois todas as questões continuam em aberto.
Simples, cruel, atroz e hostil, são algumas das palavras que caracterizam o ambiente e os momentos que as personagens vivem neste livro mas faltou, senão coerência, um pouco mais de acção e variedade pois a sensação ao ler o livro é que não saímos do mesmo sítio, que estávamos sempre na mesma cena quando já estávamos noutro momento do livro. Não há explicações, resoluções, ou o que seja de parecido, há momentos de cortar a respiração sim mas não conseguem colmatar as paragens que o resto da leitura tem. Ao passar-se no mesmo sítio, precisava de mais alterações de acção, mais descobertas, mais alguma coisa que não esteve lá. Não deixa de ser uma ideia diferente, e sim, genial, porque a ideia é o de facto, mas a forma como foi usada devia ter sido repensada.
Foi na construção das personagens que acabei por sentir menos empatia, o que não é muito bom neste tipo de livros. A formação psicológica está lá mas a ligação entre personagem e leitor quase não existe porque não há uma justificação para o que elas fazem, não há personalidades que se destaquem e as ideias não saem do mesmo, o que se nota imenso no protagonista Benson que parece que não pensa em mais nada, apesar de ser essa mesmo a ideia do autor, podia estar mais definida.
Não sendo uma leitura que queria imensamente ler, era um livro em que tinha expectativas que acabaram por não se concretizar. Fico com a ideia de algo giro, original e forte e que acaba por morrer na forma com é construída no livro. Ao contrário dos livros a que é comparado, acabou por ficar aquém e não me prender como eles. Espero que o volume seguinte traga mais respostas e uma ideia mais definida.

4*

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