sábado, 23 de fevereiro de 2013

Opinião - Cinder

Título Original: Cinder (#1 Lunar Chronicles)
Autor: Marissa Meyer
Editora: Planeta Manuscrito
Número de Páginas: 326

Sinopse
 Com dezasseis anos, Cinder é considerada pela sociedade como um erro tecnológico. Para a madrasta, é um fardo. No entanto, ser cyborg também tem algumas vantagens: as suas ligações cerebrais conferem-lhe uma prodigiosa capacidade para reparar aparelhos (autómatos, planadores, as suas partes defeituosas) e fazem dela a melhor especialista em mecânica de Nova Pequim. É esta reputação que leva o príncipe Kai a abordá-la na oficina onde trabalha, para que lhe repare um andróide antes do baile anual.

Em tom de gracejo, o príncipe diz tratar-se de «um caso de segurança nacional», mas Cinder desconfia que o assunto é mais sério do que dá a entender.

Ansiosa por impressionar o príncipe, as intenções de Cinder são transtornadas quando a irmã mais nova, e sua única amiga humana, é contagiada pela peste fatal que há uma década devasta a Terra. A madrasta de Cinder atribui-lhe a culpa da doença da filha e oferece o corpo da enteada como cobaia para as investigações clínicas relacionadas com a praga, uma «honra» à qual ninguém até então sobreviveu. Mas os cientistas não tardam a descobrir que a nova cobaia apresenta características que a tornam única. Uma particularidade pela qual há quem esteja disposto a matar.


Opinião

Desde pequena que Marissa sente uma ligação aos livros, daí talvez que uma das suas primeiras palavras tenha sido história e que o seu brinquedo preferido fosse um livro macio, daí que quisesse ser escritora desde que descobriu que tal carreira existia. O primeiro passo deu-se aos catorze anos quando a melhor amiga a apresentou aos desenhos animados Navegantes da Lua e à fanfiction, duas coisas que para si estariam ligada durante muito tempo já que sobre um pseudónimo Marissa iria escrever mais de quarenta histórias baseadas nas cinco guerreiras da Lua.

A sua paixão pela escrita resultaria num Bacharelato de Escrita Criativa e Literatura Infantil e num mestrado em Publicação. Mais tarde, trabalharia como editora, compositora e revisora até, finalmente, publicar seu primeiro livro Cinder. Nomeado para dois prémios, o livro já conta com traduções para mais de vinte idiomas apesar de ter sido apenas publicado o ano passado. O primeiro livro de uma série de quatro, Cinder surgiu da participação da autora num concurso com um conto sobre o Gato das Botas no futuro e foi originalmente uma história NaNoWriMo. Para a personagem principal a autora inspirou-se na actriz Mew Azama que representa a Navegante de Júpiter.

Esqueça o sapatinho de cristal. Esqueça o badalar da meia-noite, a abóbora e os ratinhos. Esqueça a fada madrinha e tudo o resto porque esta Gata Borralheira vai-lhe contar uma história que não mais irá esquecer. Aqui a Cinderela é mecânica, cyborg e sem papas na língua. Bem-vindos a Nova Pequim.

Debaixo das luvas com que sempre anda, Cinder esconde uma verdade que ainda repugna a Comunidade, guarda-a para que os olhares enojados e os comentários maldosos não passem da soleira da sua porta, esconde-a para que a sua reputação não sofra nem ela. Sem recordações de um passado normal, cyborg desde um primeiro momento de olhos abertos, ela não conhece nada antes desta vida, uma vida suja e maltratada onde poucos a amam e muitos lhe viram a cara até ao dia em que o príncipe da sua nação entra na sua oficina e altera todo seu mundo, tudo o que sabe e tudo o que ela é. De uma vida triste, solitária e resignada, ela parte para uma intriga que não compreende e esconde segredos que não conhece, onde o perigo é maior do que ela pensa, onde o seu inimigo tem outra cara, onde pode perder quem ama mas salvar um povo que nunca a quis aceitar.

Numa estreia espectacular, Marissa consegue ultrapassar expectativas, conquistar corações, fazer-nos devorar o seu livro e suplicar por mais enquanto constatámos que não mais veremos a Cinderela e os cyborgs da mesma maneira, que não mais veremos um conto de fadas sem exigirmos ainda mais. Pegando na ideia de um clássico que todos conhecemos, a autora consegue transpor a alma do conto de fadas para uma dimensão futurista onde a história é diferente, onde nada é o que devia mas que consegue manter o espírito, onde, se olharmos através do espelho continuaremos a ver o conto de fadas mas o seu reflexo irá devolver-vos algo ainda mais brilhante, algo original, inesperado, algo que ficará na nossa memória e atiçará a nossa imaginação.

Com uma escrita doce, divertida e emocionante, a autora consegue enganar-nos à primeira vista já que não nos apercebemos de imediato do arrebatamento que nos toma desde a primeira palavra mas apenas quando sentimos os ares mudarem, apenas quando sentimos o primeiro arrepio é que percebemos que já estámos perdidos, é que percebemos que esta não é uma história de cristais e varinhas mas de electrónica e metais. Ao longo de uma narrativa emotiva e voraz, vemos de outra forma as diferenças e os sonhos, a liberdade e a opressão, a modernidade e a magia, concebemos novas ideias, adaptámos velhos conhecimentos e somos embalados por uma voz que, ao princípio tímida, irá ganhando cada vez mais força até nos ter completamente encantados. Com um enredo de reviravoltas e segredos, momentos inesperados e uso de velhos símbolos para novos significados, Cinder vai-nos mantendo, página a página, ofuscados com a sua simplicidade aparente, presos pela sua dualidade perfeita de futuro e conto, surpreendidos pela força com que se vai desenvolvendo e tornando uma história que é muito mais.

Através de personagens que estão longe de ser típicas, sentiremos a revolta, a dor, a esperança. Poderemos ver os medos do passado, o presente assombrado e o futuro incerto mas também sentir a doçura, a ingenuidade e os sonhos de quem ainda não chegou ao fim e está apenas no início. Cinder é uma protagonista que vai espantar e conquistar, que fará esquecer as diferenças e vos fará preferir esta Cinderela pois ela é um misto de revolta e desejo, de orgulho e medo, de doçura e força, é algo que não estão a espera e vos irá surpreender em cada momento. Não é uma adolescente típica, é uma mecânica e não uma princesa, é o resultado de valores antigos unidos com inovações tecnológicas que vos deixará de rastos, é uma caixinha de surpresas que tem sempre mais um truque. Ela é a protagonista de quem têm estado a espera e que revolucionará as distopias e os retellings, que vos fará sorrir e apertar o coração, aquela de que se orgulharão.

Este livro é uma união perfeita de originalidade e história conhecida, é um livro que todos pensam que sabem como começa e acaba mas que vos trocará todas as voltas. O enredo é explosivo, encantatório, é o céu antes da tempestade eclodir, é por isso, um feitiço disfarçado de calmaria onde as amarras não são fortes o suficiente para segurar o que está para vir.

Depois de lerem este livro, o filme da Disney saber-vos-á a pouco, o conto de Perrault será uma fantasia obscurecida e nada mais vos irá satisfazer como este conto de fadas moderno que revolucionará as memórias de infância e as mentes de hoje.

7*

10 comentários:

  1. Para ser honesta, a Cinderela/Gata Borralheira nunca foi um conto que me apaixonou, porque a Cinderela em si é muito passiva, e o príncipe aparece tão pouco.. é um conto que sabe a pouco. (Só gosto da versão da Disney por causa dos ratinhos e do gato Lúcifer. xD)

    Mas com este livro valeu a pena revisitar o conto, porque a autora consegue aproveitar as melhores partes e fazer um comentário social sobre a quase-pária que a Cinder e os cyborgs são, é interessante ver que num mundo tão tecnológico as pessoas com tecnologia no seu corpo são menos bem vistas. Espero que ela discorra mais sobre isto no próximo livro. :)

    E se me permites a correcção, é "soleira" e não "solheira" da porta. ;)

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    1. Por acaso eu também nunca gostei muito da Cinderela loool Nunca conseguia perceber como é que ela era tão passiva!lool

      Ela vai revisitar quatro contos ao longo da série e estou super curiosa para ver como ela vai modificar cada um deles para se encaixar com toda a tecnologia. Pois é, como é que numa sociedade altamente evoluída, os melhores exemplos de evolução são olhados de lado? É quase como se a humanidade ainda não tivesse aceitado as mudanças que tem sofrido...

      Obrigada, o estúpido do word agora insiste em escrever palavras que não existem e essa escapou-me -.-'

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    2. Também quero muito ver como é que ela vai adaptar os outros contos a este mundo, pelo que tenho lido, o Scarlet também está bastante bom neste aspecto... o Cress (=agrião) é o da Rapunzel, quero ver o que ela faz com o cabelo gigante e mágico. xD O Winter tive esperança que fosse "a Rainha das Neves", mas afinal é o da Branca de Neve... hmm. :/

      Acho que eles vêem os andróides como helpers, máquinas que facilitam o dia a dia, e por extensão disso consideram os cyborgs mais como máquinas do que como pessoas, e como já não os vêem como humanos, não lhes permitem os direitos que os humanos têm. É estúpido, e vai dar barraca, mas espero que haja abertura para que as coisas se alterem.

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    3. Assim que vi que o terceiro era sobre a Rapunzel pensei logo que raios ia ela inventar com o cabelo xD Também gosto do facto de cada um ter um cenário =) Eu já tinha percebido que era da Branquinha loool

      Sim eu também percebi isso, é como a história que a Cinder tem de ter tutora e não pode ter nada dela quando ela é tipo escrava e alimenta a família =s

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  2. Este livro está desde que foi lançado na minha lista de livros a ler e a cada mês que passa vejo 10 novas opiniões de pessoas que parecem venerar este livro. No início senti-me um pouco confuso e até repugnado com a ideia de uma história tão popular ser transformada numa de ficção científica que mais parece uma salada russa para onde a autora atirou um monte de ideias aleatórias: uma rapariga cyborg inspirada na Cinderela que vive num mundo onde um ataque de aliens está iminente. Agora deixaste-me ainda com mais vontade de ler o livro :p

    Abraços e boas leituras!

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    1. Ideias novas, salada russa...mas que resulta tão mas tão bem Pedro! Primeiro porque isto é muitos mais que a Cinderela, o sapatinho de cristal e o balie e, segundo, porque a autora é mesmo boa no que faz!
      Não adies mais, lê e descobre por ti próprio!=D

      beijinhos e boas leituras!

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    2. Oh, se ela faz funcionar a salada russa. Não sei bem como, mas faz, e pôs-nos a devorar o livro, não foi? xD

      E confesso, ao início também estava desconfiada da premissa "Cinderela SF". :P Acho que foi por isso que não li mais cedo.

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    3. Pois foi xD parecíamos três maluquinhas felizes a devorar cada página!

      Eu já queria lê-lo antes de ele sair cá mas confesso que nunca pensei gostar tanto!

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  3. A série parece muito interessante! ;)
    Gostei de conhecer a tua opinião! *

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    1. É muito gira Carolina, se tiveres oportunidade de ler, espero que gostes!
      Obrigada!

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