Autor: Lia Habel
Editora: Contraponto
Número de Páginas: 405
Sinopse
No ano 2195, em Nova Vitória (uma nação altamente tecnológica baseada nas maneiras, na moral e na moda da antiga era), uma jovem da alta sociedade, Nora Dearly, está mais interessada na história militar e nos conflitos políticos do país do que nos chás e bailes de debutantes. Contudo, após a morte dos pais, Nora fica à mercê da autoritária tia, uma mulher interesseira e esbanjadora que desperdiçou a fortuna familiar e agora pretende casar a sobrinha por dinheiro. Para Nora, nenhum destino poderia ser pior – até que sofre uma tentativa de sequestro por parte de um grupo de mortos-vivos.
Isto é apenas o início. Arrancada do mundo civilizado, vê-se subitamente numa nova realidade que partilha com zombies devoradores, misteriosas tropas vestidas de preto e «O Lázaro», um vírus fatal que ressuscita os mortos tornando o mundo num inferno.
Opinião
Desde pequena que Lia desenvolveu um certo fascínio por
coisas classificadas como estranhas tais como filmes de terror, vídeo jogos e
romances vitorianos, uma mistura pouco ecléctica mas que a iria moldar e
inspirar para o resto da vida. Os seus gostos por monstros, coisas com dentes
aguçados e reanimados, assassinos em série e outras parecidas, não diminuíram
com o avançar da idade o que fazia a sua mãe perguntar-se o que a filha um dia
poderia trazer para casa. Mal ela sabia onde isto a ia levar.
O seu amor à literatura demorou a transformar-se em escrita
mas garantiu-lhe um bacharelato em Literatura Inglesa e a sua paixão por coisas
antigas impeliu-a a estudar em Inglaterra onde se especializou em Estudos de
Museus. O facto de nunca ter conseguido uma carreira a longo tempo resultou no
seu primeiro livro que escreveu enquanto esteve desempregada. A viver no meio
de gatos e vestidos vitorianos, Lia frequenta encontros steampunk, continua a
ver filmes de zombies e coleciona livros vitorianos e eduardianos.
Eterna Saudade,
publicado por cá há um ano, é aquilo que se chama uma aposta arriscada devido à
mistura de temas que representam bem os gostos e personalidade da autora e que
tem dividido os leitores mas que não tem deixado de surpreender.
Um mundo desfez-se, a vida, as normas quebraram-se, a
necessidade levou a repensar toda uma forma de viver para aqueles que
sobreviveram e, assim, relembrada pela glória e charme do passado, a época vitoriana
volta a respirar num futuro onde tudo volta ser como era mas onde ninguém se
esqueceu até que ponto o ser humano evoluiu. Sozinha no mundo, perdida numa
sociedade onde o que mais gosta é errado, Nora é apanhada em algo que pode bem
ser o seu pior pesadelo e descobre que a sua vida está rodeada de segredos e
mentiras, que nada é o que realmente parece e que no seu íntimo ela não é uma
senhora mas uma rapariga de armas e alma tenaz capaz de se perder por um
coração que apenas bate por ela. Num submundo escondido das luzes da
civilização, escondem-se seres aterradores, vidas perdidas, esperanças
destruídas. Por trás de uma mentira, a vida após a morte continua mas um passo
em falso e o terror pode causar selvajaria e abandono, a elegância pode desfazer-se
na vontade de sobrevivência e só os mais fortes puderam olhar de frente e
combater com todas as suas forças.
Quando abri este livro não fazia a mínima ideia no que me ia
meter, não sabia que ia ser apanhada na primeira frase, tentada no capítulo
seguinte, conquistada em cada virar de página, não sabia que eu, odiadora
oficial de tudo o que tenha zombies, me ia tornar fã deles. Com uma escrita
divertida, plena de sarcasmo e imaginação, Lia virou o meu mundo ao contrário e
deixou-me assoberbada pelo dela, uma mistura de beleza e horror, de elegância
do passado com a tecnologia do futuro, um mundo tão impossível e que ela torna
perfeito em cada reviravolta, em cada momento, em cada diálogo. Não é fácil
criar algo assim e muito menos fácil é envolver todos estes elementos para que
eles encaixem perfeitamente uns nos outros mas neste livro é como se cada
elemento pertencesse ali, como se fosse tão natural ver uma sombrinha com luzes
eléctricas, uma jovem vestida de forma vitoriana com um telemóvel ou uma rapariga
beijar um zombie como outra coisa qualquer que achemos natural, tal é a maneira
maravilhosa com que a autora encaixa e muda, tal é a originalidade da sua
imaginação.
Ao longo de um enredo onde diversão, estupefacção e
maravilhamento são constantes, somos arrastados e assoberbados pelo desenrolar
da história, pela forma inteligente como a autora nos leva a gostar e a
compreender os seus zombies pois ela torna-os humanos, possíveis de se amar,
seres de coragem que merecem toda a admiração e compaixão, consegue trazer ao
de cima o que de mais doce podemos sentir, a forma como os sentimentos são
capazes de se moldar através do interior de cada um esquecendo que por fora o
objecto do nosso amor está morto. Por entre as regras e eloquência da
sociedade, a coragem pode revelar-se na maior das fragilidades, nos tempos de
desastre o carinho e a dedicação são os mais fortes alicerces e a noção de que
o sempre é impossível é o maior desafio e ingrediente de um amor que não estava
destinado a acontecer e, tudo isto, transforma Eterna Saudade numa leitura única, assolapadora e viciante.
Nora e Bram são o casal impossível, o casal que por mais que
custe a acreditar é o que acaba por soar mais certo, como se o amor deles fosse
algo maior, algo que ultrapassa a guerra, o desastre e as perdas, algo que nos
faz suspirar e tremelicar, algo em que acabámos por acreditar acerrimamente.
Nora foi uma surpresa daquelas boas, uma miúda sem papas na língua, cheia de
desenvoltura e coragem, uma miúda que vence os medos para descobrir a amizade,
o amor, o significado de família, um miúda que vive as emoções no extremo e
compreende que é preciso aceitar que se pode perder para se mostrar que ama.
Bram é um zombie mas isso não interessa nada porque ele é um cavalheiro, um
soldado cheio de coragem, que devota à miúda que ama um amor capaz de tudo, que
é capaz de se arriscar pelos amigos, que nos faz suspirar e esquecer que ele
está a cair aos bocados. Pamela, porque se tem de falar nela, é uma doce bomba
que pode explodir em todas as direcções e é capaz de soltar as garras e
deixar-se da boa educação pelas pessoas que adora. Eles são apenas três das
personagens que vos farão adorar ler este livro, eles são toda alma desta
história.
Uma caixinha de surpresas feita de veludo e tecnologia, este
primeiro livro de Lia Habel é algo que prima pela originalidade, que transpira
acção, horror e diversão numa onda de romantismo pouco normal. Feito de coisas
impossíveis, Eterna Saudade é o sonho
realizado de alguém que lá colocou tudo o que ela é e que se tornou em algo
memorável, algo que se construiu numa história concisa de beleza irreverente e
charme do passado, algo que se tornou numa das minhas histórias preferidas.
7*

também adorei este livro +.+
ResponderEliminarEu ainda estou woooowww com este livro *.*
EliminarE eu fiquei super-curiosa.
EliminarParabéns, eu adoro as tuas opiniões.
bj
Obrigada Clarinda!=D
Eliminarbeijinhos
A Contraponto ainda não te respondeu, pois não? Olha que no FB eles parecem não responder muito às pessoas... :S
ResponderEliminarAi Lia Habel, estragaste-nos os zombies... nunca mais vamos olhar para eles da mesma maneira. xD
Não ;_; Se calhar vou mandar um e-mail...
EliminarNa, na, ni, na, ni, na, não! Ela melhorou-os *.*