sábado, 20 de abril de 2013

Opinião - A Laranja Mecânica

Título Original: A Clockwork Orange
Autor: Anthony Burgess
Número de Páginas: 222

Sinopse
 Alex, o "humilde narrador" deste romance, é o produto de uma civilização em que a violência se transformou num hábito, numa parte integrante da sociedade. Os adolescentes que, como Alex, cresceram rodeados por essa violência, juntam-se em grupos e aterrorizam uma Londres do futuro, atacando os seus cidadãos ao acaso, roubando e violando, ou brigando entre si. Um dia, Alex é traído pelos seus "drucos" e preso pelos "milicens". Na prisão, Alex vê-se confrontado com um tipo de violência diferente, uma violência institucionalizada, legalizada, e torna-se objecto de um "tratamento" que o condiciona a repudiar qualquer tipo de violência...

Escrito em "nadescente", a língua que Burgess inventou para as suas personagens, A Laranja Mecânica é um livro sobre o livre arbítrio. Burgess apresenta aos leitores um dilema central da existência humana: "O que é que define um homem bom? É nom o homem que escolhe o bem ou aquele a quem o bem é imposto? Não será o homem que escolhe o mal de alguma forma melhor do que aquele que faz o bem porque não tem escolha?"

Em 1971, A Laranja Mecânica foi levado ao cinema pelo realizador Stanley Kubrick, numa adaptação que não esteve isenta de controvérsia. O seu lançamento no Reino Unido causou tantos problemas que o próprio realizador resolveu tirar o filme do mercado britânico, onde permaneceu fora das salas de cinema até à morte de Kubrick, em 1999.

Opinião

  Foi linguista, compositor, poeta, dramaturgo. Foi oficial, tradutor, ensaísta, crítico. Mas foi pela sua escrita que ficou conhecido. Nascido no ano em que haveria de despoletar a Revolução Russa, John Anthony Burgess Wilson, viveu na Malásia, serviu na II Guerra Mundial e decidiu escrever quando lhe foi diagnosticada uma doença fatal. 

  Anthony sobreviveu 34 anos a essa doença fatal. Voltou a casar e deixou uma vasta obra marcada pela controvérsia, pela sua admiração por James Joyce e pelo seu tempo, da qual se distingue o seu décimo oitavo trabalho, A Laranja Mecânica. Baseado num facto real, este livro gerou controvérsia quando foi publicado em 1962, tendo o seu vigésimo primeiro capítulo sido retirado das edições originais. Mais tarde, também quando chegou ao cinema pelas mãos do cineasta Stanley Kubrick em 1971, gerou polémica e foi retirado das salas de cinema britânicas antes do previsto e só depois da morte do realizador, trinta anos depois é que pode voltar a ser exibido em terras de Sua Majestade.

  Aos 15 anos, Alex, o encantador, sarcástico protagonista, já é um monstro e está prestes a pagar pelos longos crimes que já cometeu na sua vida. Dono de uma personalidade tão destrutiva, ele não conhece a diferença entre o Bem e o Mal, apenas o satisfaz cometer horrores pela noite fora até que os seus druncos decidem que já estão fartos dele. Ansioso pela liberdade ele acede a fazer parte do programa Ludovico e por ela, perde a personalidade, o gosto pela música e a capacidade de puder escolher quem quer ser, o que quer fazer e quem é.

  Um dos livros mais controversos do século XX ou mesmo da História, A Laranja Mecânica é uma história de violência pura, onde o livre-arbítrio é o tema principal, onde a humanidade no seu pior, principalmente a rebeldia e crueldade da adolescência, nos causam emoções tão poderosas como o ódio, a aversão, a fúria e a vingança. Para dar vida a uma história que nada de bom traz ou provoca, é preciso ter jeito para as palavras, ter um poder encantatório que convença o leitor, e gostando ou não do livro, a verdade é que Burgess tem esse poder. Com uma escrita crua, provocante, muitas vezes sarcástica e sem dúvida convincente, o autor mostra que é preciso mais do que coragem para escrever uma história assim, é preciso saber escrevê-la.  

  O ponto mais importante, ou mais visível deste livro, é a escrita que Burgess criou para o seu mais famoso livro, uma linguagem entre o inglês e o russo, uma espécie de calão para os adolescentes de uma Londres temporal distante. Apesar de ser um acto extraordinário e dever ser-lhe entregue os créditos por isso, a verdade é que mesmo tendo tido facilidade em acompanhá-la, achei que esta servia apenas para tornar ou fazer parecer que esta é uma história extraordinária, algo com que não posso concordar.

  Sendo inegável o jeito e o talento do escritor, não posso dizer que gostei deste livro, pelo contrário. Para mim é difícil gostar de um livro que generaliza a adolescência como uma infecção de maldade e crueldade crua, para a qual a violência é um passatempo sem consequências, sem consciência. Sendo um livro sobre o nosso poder de escolha, não consigo de forma nenhuma ver isso em Alex porque nele não há escolhas, há sim, problemas psicológicos graves cuja cura só pode ser tão radical como o programa Luduvico, ou seja, ele próprio não sabe escolher porque nunca soube distinguir o Bem do Mal, logo é um péssimo exemplo para o que Burgess tenta demonstrar aqui.

  Violência gratuita é o que encontrarão no início do livro. Uma lista de crimes horrendos que só um monstro pode cometer com a naturalidade com que Alex o faz mas atenção, ele não é Hannibal, não tem o encanto, a persuasão e a inteligência. Alex é o que eu chamo um parasita da sociedade, alguém que nunca fez nada de bom, nem quer fazer e com um trauma psicológico muito grande. Desculpe-me Burgess se eu acho que não se deve generalizar e se penso que se fossem todos como ele pinta já não tínhamos mundo onde viver. Percebo claro, o que ele quer transmitir, mas perceber a mensagem não significa adorar a maneira como ele o faz. 

  Para mim, há uma ideia que ganha sem dúvida pontos, e não, não é a linguagem que mais serve para aumentar o ego de um certo senhor e dificultar a leitura de algo simples, é sim o programa Ludovico. Há nesse programa, um fatalismo, um fim, que nos assusta a todos, o de perder a nossa personalidade, a nossa moral, a nossa forma de olhar a vida. Isso sim devia causar arrepios a todos nós porque se há algo que apreciámos é a liberdade e algo assim iria retirar-nos tudo e por isso isto devia ser a parte mais assustadora do livro. Lamento, mas depois de já estar anestesiado com tantos horrores só consegui ver isto como um castigo para a Alex e acho que devia ser esse o ponto central. O livre-arbítrio é o tema que este livro quer explorar mas toda a história acaba por se centrar na loucura de Alex, no castigo e na sua cura, por isso mesmo, para mim foi mal explorado e acabou por ir perdendo importância.

  Mas algo que me assusta neste livro, realmente, é a despersonalização das personagens. Nós sabemos quem é Alex, odiámo-lo, somos felizes com a vingança mas o resto das personagens, pura e simplesmente, não existem. Não são pessoas, são objectos com uma finalidade, o de serem vítimas, capangas, juízes e torturadores, nada mais, tudo gira a volta do maior empecilho da história da literatura. Não há prazer em odiá-lo, só coisas más. Todo o ambiente do livro só causa impressões negativas e uma fúria ao longo de toda a leitura.

  Um clássico do século XX, esta é uma obra que para mim, foi mais do que sobrevalorizada. Ao terminá-la, não senti que tivesse aprendido algo, apenas um alívio imenso de passar a frente porque ler este livro senhores é como se vocês próprios estivessem a passar pela tortura de Alex. Definitivamente, não memorável.

 4*

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