quinta-feira, 23 de maio de 2013

Opinião - Corações Gelados

Título Original: Wintergirls
Autor: Laurie Halse Anderson
Editora: ASA
Número de Páginas: 232

Sinopse
 «Eu sou aquela rapariga. Eu sou o espaço entre as minhas coxas, a luz do sol a derramar-se entre elas. Eu sou a auxiliar de biblioteca que se esconde na "Fantasia". Eu sou a aberração de circo enclausurada em cera. Eu sou os ossos que eles querem, ligados num molde de porcelana.» Viajei na terra dos Corações Gelados devido às inúmeras leitoras que me escreveram a contar a sua luta com distúrbios alimentares, automutilação e sensação de andarem perdidas. A sua coragem e sinceridade puseram-me no caminho para encontrar Lia e ajudaram-me a compreender a sua devastação. Embora não seja uma história da vida real, Lia foi inspirada nessas leituras, e por isso lhes estou muito grata.

Opinião

  Laurie começou a escrever no segundo ano e mais tarde viria a tornar-se jornalista freelancer para jornais e revistas mas ela sabia que ainda havia um longo caminho a percorrer na sua escrita. Depois de centenas de cartas de rejeição, Laurie juntou-se à SCBWI, fundou um grupo de apoio crítico e isso fez toda a diferença. Antes da literatura YA ou da ficção histórica, Laurie começou por escrever livros de imagens, infantis ou sobre a História da América, que têm conquistado pais, livreiros e professores mas é pelos seus livros YA que é mais conhecida.

  Vive com o marido, o seu namorado de sempre, os quatros filhos e um cão neurótico numa casa no norte de Nova Iorque com um enorme jardim onde o seu marido construiu uma casinha de campo onde gosta de escrever principalmente quando a neve cai. Continua a correr em maratonas, subir montanhas e a tentar arrancar tomates do solo rochoso do seu jardim.

  Corações Gelados é o seu mais recente trabalho. Escrito vinte anos depois do seu primeiro livro, Grita, conquistou a crítica pela força da sua mensagem. Inspirada em leitoras que contactavam a escritora para lhe contar as suas experiências com os distúrbios alimentares, tem mais de trinta edições, venceu quatro prémios e foi nomeado para outros tantos. 

  Os espelhos mostram o que queremos ver. Podem mostrar a perfeição de sonho ou o horror dos nossos pesadelos. Nunca mostra a verdade, a verdade da mente e do racional. É o nosso coração, é a alma que se espelha naquela superfície brilhante que decide se és bela ou não, que apenas te mostra a verdade mais profundamente guardada em ti. Mas essa verdade pode ser uma teia de mentiras e ilusões, pode ser as tuas ambições e enganos porque tu podes caminhar num trilho tão ténue que a insanidade quase te apanha, quase te leva e ela sussurra-te ao ouvido verdades que só tu e ela vêem, mostra-te uma beleza tão pura que só tu podes alcançar. Só que a visão mundana vê-te como és. Uma carapaça vazia, um receptáculo frágil quase de outro mundo, uma fealdade de dor, egoísmo, loucura. Não te deixes enganar por essa superfície brilhante ornamentada de forma delicada, olha para ti. Olha mesmo.

  Por mais opiniões que tenha lido, por mais avisos que me tenham dado, nunca mas nunca, eu poderia estar preparada para o que este livro é, uma realidade feia mascarada de palavras belas, uma dor que nos paralisa e nos arrasta sem encontrar resistência, uma agonia tão forte que nos desfazemos palavra a palavra até nada restar. Laurie é um monstro da expressividade, alguém que distorce, reflecte e mistura realidade com irreal, verdades com assombrações, e que nos mata, mata e volta a matar até encontrarmos todo o sentido, todo o pleno do horror, dos segredos, do que se pode esconder na porta ao lado, na pessoa encostada a ti. De uma forma dolorosa mas oh tão bela e sublime, a autora conta-te mil histórias numa, apresenta-te raparigas sem cara numa carapaça da dor de todas. Esta não é uma história leve, esta não é uma história que poderás esquecer.

  Ilusões, as ilusões da mente, as certezas da alma. O que só nós vemos e mais ninguém compreende, a sanidade que contém um pouco de loucura. Isto é o que encontrarão nesta história, uma rapariga de certezas inabaláveis que nada são senão mentiras enterradas nela, uma irrealidade que só ela encontra pois quase já não pertence a este mundo. A anorexia é aqui retratada de uma forma que doí até a quem nunca a viu e, que imagino, deve quebrar quem já passou por isto. É de uma fealdade, de um terror, de uma agonia tão intensa que nos deixa cicatrizes tão profundas como se cada corte fosse feito na sua pele. Mas mais do que os distúrbios alimentares, este livro, Lia, é a personificação dos males que nunca vaiem sós, do ciclo vicioso de um erro que trás outro erro, de uma dor que trás outra dor, de um perdão que nunca vem, de uma descrença que só aumenta. A anorexia anda de mãos dadas com a auto-mutilação e ambas abraçam a loucura enquanto à sua volta tudo destroem.

  Lia, Cassie são bombas prestes a explodir. São medidas em gramas, graminhas, pequenos pedacinhos que aos seus olhos crescem, crescem, crescem até as engolir. Elas são o extremo do mal que as invade, elas são quase o fim, são quase belas perfeitas, são quase fantasmas. São ambas duas personagens tão difíceis que é preciso sentir por elas emoções fortes, tão fortes que quase nos afoguem na sua intensidade. Cheguei a odiá-las. A Cassie por atormentar Lia, Lia por me atormentar a mim e à sua família mas se a raiva nunca me largou e a pena parece demasiado pouco para o que elas me fizeram sentir, a necessidade de proteger, de me fazer ouvir ecoou por mim durante toda a leitura. É fácil reconhecer estas raparigas mas é tão difícil entrarmos no seu mundo e compreendê-las sem ter passado pelo mesmo pois elas são donas de corações gelados, corações entorpecidos, corações parados, corações incapazes de sentir.

  Corações Gelados é uma dor infinita que não nos larga mesmo dias depois da sua leitura. É um poder avassalador que desfaz tudo à sua passagem, que fica na memória do todo sempre. Um grande pequeno livro, é uma experiência dolorosa mas porque todos devíamos passar, nem que seja, para não nos deixarmos enganar.

7*

2 comentários:

  1. Estou tramada contigo e com a Elphaba, que entre ambas não me vão deixar escapar sem ler este, pois não? xD

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