segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Opinião - Tigana, A Lâmina na Alma

Título Original: Tigana (#1.1 Tigana)
Autor: Guy Gavriel Kay
Editora: Saída de Emergência
Número de Páginas: 320


Sinopse
 Tigana é uma obra rara e encantadora onde mito e magia se tornam reais e entram nas nossas vidas. Esta é a história de uma nação oprimida que luta para ser livre depois de cair nas mãos de conquistadores implacáveis. É a história de um povo tão amaldiçoado pelas negras feitiçarias do rei Brandin que o próprio nome da sua bela terra não pode ser lembrado ou pronunciado. Mas anos após a devastação da sua capital, um pequeno grupo de sobreviventes, liderado pelo príncipe Alessan, inicia uma cruzada perigosa para destronar os reis despóticos que governam a Península da Palma, numa tentativa recuperar um nome banido: Tigana. Num mundo ricamente detalhado, onde impera a violência das paixões, este épico sublime sobre um povo determinado em alcançar os seus sonhos mudou para sempre as fronteiras da fantasia.


Opinião

  Quando Christopher Tolkien precisou de um assistente para editar o trabalho do pai, escolheu um estudante de Filosofia cujos pais eram amigos da sua segunda esposa, Baillie, um jovem chamado Guy Gavriel Kay. Guy mudou-se para Oxford em 1974 para ajudar Christopher com a edição d’O Silmarillion e durante esse processo aprendeu bastante sobre escrita e edição e também ganhou um gosto pela fantasia, um gosto que o levaria, após terminar a sua graduação em Direito, a começar a escrever ficção.


  Anos mais tarde, Guy publicou o seu primeiro livro, A Árvore do Verão, o início de uma trilogia onde a influência de Tolkien era bem visível e que foi lida por gerações de leitores, A Tapeçaria de Fionavar. Mas, foi em 1990 que Guy Gavriel Kay encontrou o seu lugar na Fantasia, com um livro que pela primeira vez mostrou a sua voz e estilos únicos e que iriam marcar todos os livros que seguiram. Tigana é a obra-prima de Kay, o livro que revolucionou a Fantasia Histórica apesar de o autor preferir dizer que os seus livros não têm um género específico. Vencedor de dois prémios, nomeado para o Aurora, Tigana está traduzido para dezasseis línguas e anos depois, finalmente, chega às livrarias portuguesas.


  Depois de me ter apaixonado pela escrita de Kay em A Tapeçaria de Fionavar e Os Leões de Al-Rassan heis que finalmente leio o famoso Tigana e, mais uma vez, voltei a apaixonar-me pela voz arrebatadora deste autor que, com uma escrita de beleza ímpar, palavras onde as emoções fluem e as lendas ganham vida, nos conta uma história de perda, de vingança e recordação que irá prender-nos o fôlego, arrebatar-nos a alma e devastar-nos os sentimentos. Kay é um mestre sem igual, um autor que consegue transmitir as ambiguidades e conflitos do ser humano, um autor capaz de contar histórias sublimes que nunca mais seremos capazes de esquecer, um autor que eleva os sentimentos nobres como a coragem, a lealdade e a esperança a um patamar que poucos poderão um dia alcançar.


  Sendo este o primeiro volume de dois, A Lâmina na Alma é uma apresentação de um mundo onde poderemos ver resquícios dos vários territórios italianos no tempo da Renascença, territórios divididos por dois poderes tiranos onde o rancor tem crescido cimentado pela recordação e saudade. Como vem sendo habitual no trabalho deste autor, são múltiplas as culturas, crenças e sociedades representadas, com políticas, histórias e línguas próprias, que vamos descobrindo ao longo da leitura através de personagens ou lendas tal como vamos absorvendo a rivalidade entre os tiranos, as diferenças de actuar de cada um, os ódios e revoltas que cada um cimenta, as suas próprias histórias e as próprias rivalidades entre territórios e suas diferenças. Como mundo fantástico, Tigana é um regalo para qualquer leitor fã de mundos e histórias complexas pelas suas vastas características bem desenvolvidas, pelos pormenores requintados e pela força da sua história.


  A narrativa é poderosa e sublime. Conta-nos uma lenda de incomensurável beleza, de exílio e amor à pátria e à família, de vingança e perda, de recordação e esquecimento que nos destrói e preenche, que marca irrevogavelmente todo aquele que a lê, não nos deixando pensar em mais nada senão no que se seguirá na próxima página. Existe uma tristeza nesta história que se infiltra nas palavras e se transcende, uma tristeza que sentimos com as personagens, que nos absorve, tal o talento do autor para transbordar sentimentos das suas palavras. Feita de momentos únicos, predestinados que poderão mudar tudo, esta é uma história de fatalidades, de coragem e lealdade, tanto de ódio como de esperança, uma história feita de música e poesia que recorda sempre tudo o que se perdeu. E de amor, pois não há sentimento que mova mais os homens que este seja a uma mulher, ao filho, ao irmão ou à pátria.


  Subtilmente, a história vai se adensando e a cada momento torna-se mais profunda. Através de conspirações, segredos e revelações, cada peça deste complexo puzzle vai se juntando e as ligações entre acontecimentos e personagens começam a fazer sentido bem como a revelar facetas escondidas das personagens, passados que levam há quem são e o que procuram de facto e actos que nos fazem compreender melhor e trazem um maior misto de sentimentos ao leitor. Muito ainda está por revelar e muito ainda irá acontecer até que esta complexa tapeçaria esteja completa mas até lá não há como não nos deliciarmos com os encontros e desencontros que irão levar as personagens até ao confronto final.


  Como já é hábito, as personagens de Kay são ambíguas, complexas, cheias de profundas camadas que o leitor vai conhecendo em cada ocasião e que em todas o consegue surpreender. Poderia dizer-se que esta é uma história de heróis e vilões mas não, esta é sim, uma história que mostra que todos somos heróis e vilões, todos temos defeitos e qualidades, todos podemos ser santos e pecadores. Cada personagem é eximiamente elaborada, cada uma tem a sua aura própria, cada uma é importante. Aqui não há personagens há odiar, há personagens a adorar, a respeitar, a admirar. Poucos escrevem personagens assim, personagens tão reais como as palavras que as descrevem. 


  Tigana é considerado uma obra-prima. E é. Um livro que mais de vinte anos depois continua a chegar a gerações de leitores, um livro que continua a arrebatar todos aqueles que o lêem, um livro cuja história continua a provocar sentimentos. Falta agora o segundo volume para sabermos o fim. A espera será, certamente, dolorosa e o final, o final será, seja ele qual for, glorioso.


4 comentários:

  1. Olá,

    Estou a adorar, embora pense que o melhor ainda está para vir ai, pois esta primeira parte funcionou como uma introdução ao universo.

    Excelente comentário a ver como tudo acaba :D

    Bjs

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    1. Olá,

      Sem dúvida que o melhor está para vir, é uma pena terem-no dividido =/

      Obrigada!

      Bjs

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  2. Tenho na minha estante o Os Leões de Al-Rassan. Estou muito curiosa para conhecer a escrita deste autor:) Beijos

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    1. Tens de ler Catarina, é fantástico!=D A escrita dele é das melhores que já li! Beijinhos

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