sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Opinião - Delirium

Título Original: Delirium (#1 Delirium)
Autor: Lauren Oliver
Editora: HarperCollins
Número de Páginas: 309

Sinopse
 They didn’t understand that once love -- the deliria -- blooms in your blood, there is no escaping its hold. Things are different now. Scientists are able to eradicate love, and the government demands that all citizens receive the cure upon turning eighteen. Lena Holoway has always looked forward to the day when she’ll be cured. A life without love is a life without pain: safe, measured, predictable, and happy.

But with ninety-five days left until her treatment, Lena does the unthinkable: She falls in love.

 Opinião

  Filha de professores de Literatura, Lauren foi incentivada desde cedo a escrever, a ler, a passar horas de frente ao computador à procura da diferença entre termos similares. Sendo uma leitora ávida e apaixonada, Lauren escrevia sempre uma continuação dos seus livros preferidos, isto antes do termo fanfiction ter sido inventado!


  Por isso, não é de espantar que quando foi para a faculdade tenha decidido estudar Literatura e Filosofia e, mais tarde, tenha trabalhado como assistente editorial, a pior que o mundo já viu e, apenas marginalmente, melhor assistente de editor na maior editora de Nova Iorque. Em 2010 estreou-se na escrita com Antes de vos Deixar mas foi com a sua trilogia distópica que o sucesso ficou firmado. Delirium é o primeiro volume dessa trilogia, publicado em 2011, vencedor de dois prémios e traduzido para 32 países não incluindo Portugal.


  Depois de tantas opiniões positivas, depois de tanto suspirar por este livro e esperar em vão que ele fosse publicado cá, finalmente li-o e, uau, que livro mais poderoso. Com parecenças com por exemplo União mas tão diferente de tantas outras distopias, Delirium tem uma premissa simples mas que nos deixa emocionalmente de rastos pois é uma leitura que nos faz reflectir sobre a sociedade, sobre o fim da adolescência, sobre o primeiro amor, sobre aquele momento em que o nosso mundo desaba, em que descobrimos que tudo o que sabemos está errado. Oliver tem uma escrita que nos prende desde o início, encantatória, emocional e arrasadora. Esta autora escreve como se conhecesse cada sentimento como a palma das suas mãos, como se entendesse cada pedaço da alma humana… Resumindo, esta senhora tem uma escrita do outro mundo, capaz de tornar algo banal numa coisa absolutamente espectacular.


  Ao contrário de tantas outras distopias, esta passa-se num futuro muito parecido com o nosso, com referências culturais que reconhecemos, com hábitos e manias que são as nossas só que numa sociedade controlada pelo medo, pela vigilância e controlo em que o amor é mesmo uma doença, uma doença grave, algo que se pega e pode destruir futuros. Com uma premissa simples e interessante que ganha vida através de descrições fortemente marcantes das quais as emoções transbordam, esta história é sobre o último Verão da inocência, o último momento antes da vida adulta, os últimos instantes em que é permitido sentir. A rebeldia contra o sistema pode ser vista por dois lados, um passivo de quem quer aproveitar os últimos momentos mas aceita o destino e aquele que nega até que tudo se torna claro. Hana e Lena são esses dois lados, o lado da rebeldia pensada e aquele que caí nas amarras da doença, duas amigas que descobrem quem realmente são num Verão que irá mudar as suas vidas.


  Sendo o amor o tema principal deste livro, cada momento é intensificado, não só por ser secreto e proibido mas porque é marcado, primeiro pela negação total, depois pelo crescimento rápido até que se torna o centro do universo para Lena. Como é ela que nos conta a história, todas estas fases são vividas pelo leitor de forma intensa, dentro da cabeça da protagonista. Com ela aprendemos as amarras da sociedade que ela sempre viu como certas e formas de evitar que o passado da sua família se repita, vamos nos apercebendo dos actos cruéis e ditadores contra aqueles que não concordam com o ponto de vista imposto até que, com ela, damos um salto que pode ser fatal. Ao longo deste relato, em que tanta coisa nos assoberba, em que tudo desaba e um novo mundo mais brilhante vai se construindo, a autora deixa-nos em cacos, não só pela forma como o amor é vivido pelas personagens, como o passado marca a mentalidade mas porque consegue colocar nesta história o que de mais cruel e belo existe nesse sentimento.


  A narrativa é por isso intensa, agoniante, libertadora, pautada por momentos que vão crescendo até ao último clímax, um final que nos deixa de rastos e boca aberta, um final tão inesperado que nos faz reler as páginas finais até percebermos que é mesmo assim que termina, deixando-nos um sabor agridoce na boca e a pensar o quanto Lauren é cruel e corajosa. As personagens sofrem do mesmo poder da história. São personagens que queremos conhecer e às quais nos apegámos, pelas quais conseguimos sentir algo. Hana, Lena e Alex, cada um à sua maneira consegue deixar uma marca e, a relação entre os três, de amizade e amor é tão refulgente, tão cheia de brilho e defeitos que é difícil não conseguirmos colocar-nos no lugar deles.


  Uma estreia poderosa, Delirium é um livro digno do sucesso gigantesco que teve e penso que é mais do que digno do investimento das editoras portuguesas. Para quem é fã de distopias mas procura algo que se diferencie, este é o livro certo. Eu irei certamente continuar a ler Lauren Oliver nem que seja para saber onde isto vai dar.


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