sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Opinião - Sonhos de Papel

Título Original: Out of the Easy
Autor: Ruta Sepetys
Editora: ASA
Número de Páginas: 384


Sinopse
 Josie Moraine vive mais do que uma vida. Ela é filha de uma das prostitutas de luxo mais cobiçadas de Nova Orleães, um estigma que a arrasta para o submundo decadente da cidade. Vítima da negligência da mãe, tem nos moradores do extravagante Bairro Francês os seus maiores aliados. De Cokie, humilde e fiel; a Willie, a dona de um bordel cuja frieza esconde um coração de ouro; e a Jesse, tímido, atraente e eternamente apaixonado, todos a protegem e velam por ela. Mas Josie sonha mais alto e move-se com igual à-vontade nos corredores da livraria onde, graças à bondade de um desconhecido, trabalha e habita. Este é o seu porto seguro. Aqui, entre as estantes repletas de livros, no pequeno escritório que agora lhe serve de quarto, não tem de se defender da sua própria mãe nem fingir ser a durona solitária que domina as ruas. Ao anoitecer, quando a porta se fecha e as luzes se apagam, ela descobre nas páginas que folheia a imensidão do mundo e anseia por uma vida melhor. Uma vida como a de Charlotte, a filha de uma família da alta sociedade, cuja amizade a inquieta a ponto de arriscar tudo, mesmo a promessa de um amor verdadeiro. E quando os seus sonhos estão prestes a realizar-se, um crime muda tudo... para sempre.


Opinião

  Nascida e criada no Michigan e, a mais nova de três, Ruta cresceu no meio de uma família de artistas, leitores compulsivos e amantes de música. Talvez por isso dissesse a quem estivesse a ouvir que ia com casar com Roald Dahl. Talvez. Descendente de lituanos por parte do pai, Ruta sempre viveu a vida ao sabor do vento. Começou por estudar Ópera, acabou a estudar Finanças Internacionais. Foi para a Europa até que decidiu que queria ir trabalhar na música em Los Angeles. Depois de 15 anos um dia decidiu mudar-se para o Tennessee. E, um dia, o marido disse-lhe que devia usar todo o seu melodrama para escrever livros e ela assim o fez.

  Em 2011 publicou o seu primeiro livro, O Longo Inverno, que ganhou quatro prémios e foi nomeado para outros tantos, e o ano passado voltou às livrarias com Sonhos de Papel, traduzido para sete línguas e finalista do Goodreads Choice Awards de 2013.

  Para quem não sabe, eu tenho uma paixoneta por Nova Orleães e pelos anos 50, uma paixoneta bem grande, por isso, como podia resistir a um livro sobre uma amante de livros passado nessa cidade e nessa década? Não podia, pura e simplesmente, eu tinha de ler este livro, principalmente depois de já ter ouvido tantas maravilhas sobre esta autora. Ruta Sepetys é daquelas pessoas que escreve com magia e sentimento, alguém que consegue moldar o pior num desafio a ultrapassar e transforma uma narrativa simples numa lição cheia de mensagens poderosas. Sonhos de Papel não foi o que estava a espera, mas não deixou por isso, de ser uma leitura marcante e fluída que me deixou totalmente presa às suas páginas até ao virar da última.

  Confesso que esperava uma leitura mais profunda, mais dramática do que aquela que realmente encontrei, no entanto, a forma suave e delicada com que a autora nos apresenta o submundo de Nova Orleães tem o seu charme próprio e o ambiente não deixa de ter a cor, a energia e a ousadia que associámos a esta cidade, mas faltou-me alguma complexidade, alguma negritude, nesta história que nos fala de bordéis, máfia e sonhos destruídos. Penso que teria sido um ponto a favor se a história não fosse tão terna mas mais dura, condizendo com a vida de Josie, afinal a sua vida não é um conto de fadas, contudo, as partes mais terríveis dela pareceram-me demasiado suavizadas.

  Não quero com isto dizer que não senti o encanto deste livro, senti, aliás adorei esta história, só que ela acaba por ser muito subtil, é as mensagens que contam, não propriamente a narrativa. Muita coisa acontece ao longo da história mas nunca há um momento de grande dramatismo, uma revelação estonteante, nunca somos parte da história mas sempre espectadores. Os acontecimentos servem apenas de mote a mostrar-nos quem é Josie, os seus sonhos, a sua coragem, o facto de nunca desistir de ser mais do que lhe dizem que é. Ela é a alma deste livro, é com ela que nos importámos, é ela que nos agarra desde o seu primeiro fôlego. Ao longo do enredo, assistimos à sua luta por uma vida melhor, como, sem desistir dos que ama, nunca esquece que precisa de algo mais, como, apesar de ter crescido num poço mais fundo, sonhou sempre mais alto. Contra todas as probabilidades, num mundo perdido, Josie é uma chama brilhante que atraí todos à sua volta.

  Esta acaba assim, por ser uma história terna e doce, que apresenta os defeitos da cidade desta época mas sem os aprofundar, onde o mistério acaba por não o ser realmente, mas onde uma rapariga cresce, uma rapariga que quer fugir mas é incapaz de abandonar quem ama, uma rapariga que aprende a diferença entre amizade e amor, entre dinheiro e felicidade, que transporta os sonhos dos papel para a vida real. Uma história onde as personagens são realmente quem importam.

  Madames com ar de madrasta mas coração de fada madrinha, mães que são bruxas, prostitutas que são irmãs bondosas, príncipes de cabedal e taxistas que são grilos falantes, esta sim é a verdadeira essência, a verdadeira beleza de Sonhos de Papel. As suas personagens. Carismáticas, cheias de vida e cor, poderosas nos seus sentimentos, únicas, cada uma à sua maneira, é a trupe que acompanha Josie que realmente nos apaixona, que brilha como fogo de artifício na escura Nova Orleães.

  Sonhos de Papel acabou por nunca ser uma desilusão no fim das contas. Foi sim, a história da Cinderela contada em pleno Mardi Gras, um conto de fadas com motas em vez de cavalos, universidades em vez de castelos. Uma história que enternece e nos ensina a nunca desistir.

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