segunda-feira, 3 de março de 2014

Opinião - O Despertar do Mundo

Título Original: The Aftermath
Autor: Rhidian Brook
Editora: ASA
Número de Páginas: 328


Sinopse
 Em 1945, enquanto o mundo celebra a vitória sobre o exército nazi, a Alemanha derrotada é dividida. De um lado, a União Soviética. Do outro, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França. A Guerra Fria está prestes a começar. Em Hamburgo, grupos de crianças esfomeadas vasculham os destroços em busca de alimentos, famílias desalojadas lutam por abrigos imundos. É nesta cidade arruinada que o coronel Lewis Morgan é encarregado de repor a paz. O governo inglês requisita uma casa para o acolher a ele e à família. Aos proprietários da mansão resta a indigência. É então que o coronel propõe uma solução inédita: a partilha do espaço. Mas ao contrário do que coronel espera, este pacto vai ser explosivo. A sua mulher, Rachel, vive fechada em si própria. O filho de ambos, Edmund, debate-se com uma solidão extrema. A alemã Freda é a adolescente rebelde, filha de Herr Lubert, um homem de elite inconformado com a submissão que lhe é imposta. Entre segredos e traições, a vida na casa é uma bomba-relógio que uma paixão proibida ameaça ativar.. Baseado no extraordinário ato de bondade do avô do autor, O Despertar do Mundo pinta um retrato único da guerra vista do lado dos perdedores.


Opinião

  Impedido de trabalhar por dois anos, Rhidian começou a escrever algumas histórias quando se sentia com energia e, quando ganhou um concurso de contos na Time Out em 1991, ganhou confiança para escrever mais ainda. Mesmo quando ficou melhor e voltou ao trabalho, continuou a escrever, publicou mais uma série de contos em diversas revistas e iniciou o seu primeiro livro, que viria a ser publicado em 1997. Depois de ter lançado o seu segundo romance, dois anos depois, Rhidian pensou em dedicar-se por completo à escrita mas não conseguiu escrever um terceiro livro e dedicou-se a escrever guiões para a BBC.

  Escreveu um livro sobre a pandemia das DST no Exército da Salvação depois de uma viagem de nove meses por África, Índia e China, durante a qual fez transmissões para a BBC World Service e para a Radio 4. Continuou a escrever guiões e um deles tornou-se no seu terceiro muito desejado romance, uma história baseada nas experiências do seu avô na Alemanha pós-Segunda Guerra.

  O Despertar do Mundo foi publicado o ano passado e os seus direitos já foram comprados para vinte e três países.

  À primeira vista, este poderia ser mais um livro sobre a II Guerra Mundial mas, surpreendentemente, O Despertar do Mundo revelou-se um relato único sobre a perda da Alemanha e a sua divisão pelos vencedores. Através de uma escrita emotiva, extremamente transparente e delicadamente forte, Brook apresenta um quadro triste de um povo condenado pelas acções de alguns, de um país destruído e desprovido da sua identidade, de um grupo de heróis que marcado pelas imagens de terror tanto se deixou levar pelo ódio como conseguiu ver mais do que um símbolo ou partido. Uma história que vai mais além, este livro é marcante e numa tão vasta colecção de livros sobre este tema, marca a diferença, não só por ser baseado em factos verídicos como pela mensagem que transmite.

  Ao longo de uma leitura que nos impede de largar o livro, somos tocados pelas fortes emoções, tanto de vencedores como de perdedores, separados por uma linha ténue e unidos pelas perdas, pelo sofrimento e pela crença de que o seu mundo mudou totalmente. Somos atacados pelas imagens da fome, do desprezo, da revolução e do medo através das várias descrições, cruas e tristes, emocionalmente pesadas, em que podemos ver o quão pouco separava os ocupados dos ocupadores. Numa Alemanha sem comida, sem tecto e arrancada da sua nacionalidade à força dos crimes dos seus maiores, vemos como ingleses, marcados pela morte, pela destruição e horrorizados pela crueldade de um homem, ocuparam, tomaram e desprezaram, pessoas que sofreram tanto como eles apenas porque estes partilhavam um país com aqueles que aterrorizaram o mundo.

  Mas, numa obra tão triste, há uma réstia de luz, uma esperança nascida da bondade e da coragem de alguns, aqueles que deram a mão, que lutaram pela despenalização daqueles que perderam não a guerra, mas o seu mundo. A amizade, a compreensão, a aceitação e, até um amor proibido, dão asas a relações marcadas não pelo ódio e temor, mas pela dor comum da perda dos seus, da destruição das suas casas, das suas vidas, do tempo perdido em fugas e combates, das memórias conjuntas que se desfizeram ou nunca se realizaram. Esta é uma leitura que nos ensina que nada é preto e branco apenas, que numa guerra nunca há vencedores, que cores e partidos, sotaques e artistas, não separam a Humanidade, mas sim o preconceito, a fome voraz de ambição de poucos e a incompreensão.

  Num enredo tão forte em emoções, são as personagens que lhe dão vida, que o transformam em histórias humanas e cheias de sentimentos. Cada personagem tem uma história a contar, cada uma delas tem algo a aprender, a ensinar, a superar ou a esquecer. Sejam os meninos órfãos cheios de fome que trocam cigarros pelo que puderem, seja a criança esquecida em prol da perda do irmão mais velho, seja o soldado que viu demasiado e não sabe recuperar a família, seja a mãe cheia de ódio que perdeu o filho e descobre o perdão e o amor onde menos esperava, seja o homem que perdeu a mulher e precisa de amar novamente, seja a menina que se está a tornar mulher num mundo que já não é o seu… Todos eles, têm algo em comum, todos eles nos tocam de maneiras indefiníveis.

  Uma poderosa narrativa, um relato maior, O Despertar do Mundo é uma história feita de histórias, de acções, de consequências, uma história da Humanidade perdida num novo mundo frio e desprovido de compreensão. É uma lição de vida que jamais esqueceremos.

2 comentários:

  1. Quando li a sinopse, não o quis ler, com receio de que fosse uma leitura triste, mas agora interessou-me! :)
    Ass: Mistery

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    1. É triste por um lado, mas tão interessante e cheia de esperança por outro! Também estava de pé atrás, mas ainda bem que o li.

      Boas Leituras

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