terça-feira, 12 de agosto de 2014

Opinião - Alias Hook

Título Original: Alias Hook
Autor: Lisa Jensen
Editora: Thomas Dunne Books
Número de Páginas: 368


Sinopse

"Every child knows how the story ends. The wicked pirate captain is flung overboard, caught in the jaws of the monster crocodile who drags him down to a watery grave. But it was not yet my time to die. It's my fate to be trapped here forever, in a nightmare of childhood fancy, with that infernal, eternal boy."

Meet Captain James Benjamin Hook, a witty, educated Restoration-era privateer cursed to play villain to a pack of malicious little boys in a pointless war that never ends. But everything changes when Stella Parrish, a forbidden grown woman, dreams her way to the Neverland in defiance of Pan’s rules. From the glamour of the Fairy Revels, to the secret ceremonies of the First Tribes, to the mysterious underwater temple beneath the Mermaid Lagoon, the magical forces of the Neverland open up for Stella as they never have for Hook. And in the pirate captain himself, she begins to see someone far more complex than the storybook villain. 

With Stella’s knowledge of folk and fairy tales, she might be Hook’s last chance for redemption and release if they can break his curse before Pan and his warrior boys hunt her down and drag Hook back to their neverending game. Alias Hook by Lisa Jensen is a beautifully and romantically written adult fairy tale.



Biografia
  Durante treze anos, Lisa Jensen criticou livros para o San Fransciso Chronicle, onde a sua especialidade era ficção histórica e ficção feminina. Para além disso, é crítica de cinema desde que os dinossauros pisaram a terra (segundo ela) e foi pirata noutra vida. Ou então viu demasiados com o Errol Flynn.

  Publicou o seu primeiro livro, The Witch from the Sea, em 2001, um romance histórico pirata que planeava ser o primeiro de uma trilogia. Treze anos depois, chega Alias Hook, um retelling de Peter Pan contado do ponto de vista do Capitão Gancho.


Opinião
  É sobre uma perspectiva sombria e adulta que Lisa se debruça sobre um dos maiores clássicos infantis de sempre, aquele sobre nunca crescer, sobre uma Terra onde as crianças vivem livremente e vencem os seus maiores medos. Desde pequena, foi com medo e fascínio que olhei para esta história e, finalmente, encontro um livro que a vê como eu a vejo: encantadora e sinistra ao mesmo tempo. Alias Hook é mais do que a verdade do vilão, é uma visão, não da destruição da Terra do Nunca, mas das suas falhas, dos seus horrores, das suas mentiras. Com uma escrita elaborada e floreada, bonita mas por vezes exagerada, Lisa Jensen leva-nos como adultos para o mundo das crianças, mostra-nos qual o segredo do pó de fada, os medos de Peter Pan e a história por trás do Capitão Gancho.

  Por vezes parada, até mesmo aborrecida, esta não é uma leitura fácil de começar. Entre Neverland e o passado longínquo de Hook, somos levados do passado ao presente de uma forma abrupta, o que não permite ao leitor concentrar-se ou mesmo deliciar-se com esta história no seu início. Não que os momentos do passado não sejam interessantes, afinal são eles que nos explicam quem foi James Benjamim Hookbridge e como ele se tornou no Capitão Hook, mas acabam por interromper a já de si lenta narrativa em Neverland. A autora demora a entrar na história, a explicar e apresentar este mundo tão igual e tão diferente aquele que conhecemos, por vezes floreando demais e perdendo-se em descrições, e a organização entre passado e presente não consegue equilibrar a narrativa mas só destabilizá-la ainda mais.

  Quando finalmente conseguimos entrar na história, aí sim nos apercebemos da beleza dela e, finalmente, é nos permitido maravilhar-nos com ela. É numa Neverland tirana e sombria, uma espécie de Purgatório, que Hook é condenado a passar a eternidade, para sempre a ser derrotado, para sempre a perder os seus, para sempre a nunca encontrar a Morte. É numa paisagem verde e castanha, nunca colorida, que percebemos que ao permitir as crianças sonhar e ter um refúgio, podemos trazer o pior delas ao de cima, e quão tiranas e cruéis, os nossos pequenos eus podem ser sem regras, sem pais, sem crescerem. E é num barco condenado a nunca mais navegar que compreendemos que um adulto pode nunca crescer, nunca assumir responsabilidades, nunca encontrar o caminho, se enveredar pela vingança e ódio, se nunca encontrar a paz. E como realmente só crescemos quando amámos, quando perdoámos, quando aprendemos a sacrificar.

  Como na história de Barrie, há fadas, índios e sereias. Crianças voam. Crocodilos esperam pacientemente. Mas esta magia não é inocente e o tic tac do relógio não simboliza a aproximação do inimigo mas o tempo que nunca passa nem muda. Aqui a magia não transborda das páginas mas mostra quão presa, quão subjugada Neverland e os seus povos estão à vontade de Peter. Peter, que mostra como uma criança é capaz de temer o desconhecido ao ponto de querer destruir tudo o que não seja à sua maneira, Peter que quer brincar e vencer sempre, não se importando com os sentimentos de ninguém, Peter que quer uma mãe só para fazer o que ele quer. Um Peter que parece demasiado real para o nosso bem. Meninos Perdidos e Wendys vão e vêm conforme a sua vontade mas se há uma coisa que Peter não compreende nem pode derrotar é o amor, a união de duas almas unidas pelos temores passados e a esperança futura, o sentimento que nos faz crescer e aprender.

  Hook acaba por dominar a história e, se por um lado nos enclausura na sua depressão, também nos deixa fascinar por quem ele foi e quem ele é. Afinal ele foi um rapaz orgulho e sedutor. Foi um homem sonhador e ambicioso. Um pirata cruel e sedento de vingança. Um capitão que sofre cada morte e cada ferimento como seus. Sim, por vezes desprazamo-lo. Por vezes deixámo-nos seduzir por ele. É normal, ele fascina-nos em todas as suas facetas. 

  Alias Hook não é uma leitura fácil, de todo. E também não é uma visão bonita dos sonhos infantis. Mas é uma história sobre redenção e esperança, que dá vida a uma das personagens mais vis e fascinantes do nosso imaginário e permite ao adulto em nós regressar à Terra do Nunca e finalmente descobrir o que é realmente crescer.

Sem comentários:

Enviar um comentário