domingo, 28 de setembro de 2014

Opinião - Flashman, a Odisseia de um Cobarde

Título Original: Flashman (#1 Flashman Papers)
Autor: George MacDonald Fraser
Editora: Saída de Emergência
Número de Páginas: 256


Sinopse
Ele é um mentiroso, ele é um cobarde, ele seduziu a amante do próprio
pai. Ele é Harry Flashman e esta é a sua deliciosa odisseia. Dos salões
vitorianos de Londres às fronteiras exóticas do Império, prepare-se para conhecer o maior herói do Império Britânico. Pode um homem que foi expulso da escola por andar sempre bêbado, que seduziu a amante do próprio pai, que mente com quantos dentes tem e é um cobarde desavergonhado no campo de batalha, protagonizar uma série de triunfantes aventuras na era vitoriana? A escandalosa saga de Flashman, herói e soldado, mulherengo e agente secreto relutante, emerge numa série de memórias campeãs de vendas em que o herói gingão revê, na segurança da velhice, as suas proezas na cama e no campo de batalha.


Biografia
  George MacDonald Fraser nasceu em Inglaterra mas a sua família era escocesa. Durante a II Guerra Mundial serviu num regimento escocês na Índia e na Birmânia. Trabalhou durante mais de vinte anos como jornalista no The Herald, onde chegou a ser vice-editor. Para além disso, foi escritor e roteirista. Entre os seus guiões de cinema, o mais famoso foi o de James Bond – A Operação Tentáculo.

  Quanto aos seus livros, escreveu vários romances e memórias sobre o tempo que esteve no exército mas foram os livros sobre o anti-herói, Sir Harry Flashman, que lhe granjearam uma enorme popularidade. 

  George faleceu em 2008.

  Flashman foi o primeiro dos doze livros da série Flashman Papers, tendo sido publicado em 1969. Está traduzido para quatro línguas. Em Portugal, só o primeiro e o segundo estão traduzidos.


Opinião
  Há muitos anos que ouço falar de Flashy, um moço cheio de particularidades desagradáveis mas que parece ter um charme inesperado, e que é protagonista deste livro, que muitos afiançaram ser uma leitura obrigatória e impossível de se detestar. Flashman é o início das aventuras, peripécias e muitos não merecidos golpes de sorte, do maior cobarde de terras de Sua Majestade: Sir Harry Flashman, detentor de todos os defeitos existentes à face da Terra. E não, não é exagero. George MacDonald Fraser traz-nos, uma autêntica feira de vaidades, pautada com muitas aparências mas que apresenta, com uma sinceridade brutal, as asneiras e erros dos homens que levaram um Império ora à glória, ora à derrota. Com uma escrita muito cavalheiresca que pode tender para o burgessa, George dá-nos uma comédia de valores, que por mais que se deteste, não deixa ninguém indiferente.

  Poucos irão dar-nos uma visão tão sincera e brutal dos regimentos britânicos no Médio Oriente no século XIX como este autor o faz. Em poucas páginas, o essencial é dado a conhecer ao leitor, sem superficialidades e valores ilusórios a disfarçar, de uma forma concisa e, se por vezes hilariante, sem deixar de ter um tom desiludido que reflecte o quanto a expressão oficial e cavalheiro era uma miragem propagandeada com poucos representantes reais. Preconceito, orgulho, vingança e ambição, são nos apresentados como os verdadeiros valores que moviam a maioria dos que procuravam a fama no exército, principalmente, os cargos superiores, onde a inteligência e estratégia se perdeu algures no caminho de Inglaterra até ao Afeganistão… ou, possivelmente, muito antes, nos respectivos úteros. 

  Para ajudar, temos o anti-herói máximo, o desprezível Flashy, tão cheio de si e de todos os defeitos, que apenas guarda uma qualidade: uma sinceridade quase inocente, tão estranhamente pouco condizente com o seu comportamento debochado. É fácil detestá-lo, mas há uma parte ridícula de nós que tanto lhe deseja todo o mal do mundo, como até se alegra com os seus golpes de sorte. Porquê? Possivelmente porque há uma parte de nós que lhe inveja essa maldita sorte que ele não merece nem um bocadinho. E depois há outra parte que se rejubila com os seus problemas e reza pelo momento em que ele irá ser descoberto e, esperámos nós, ser espezinhado e açoitado em público. Sim, Flashy traz o pior do ser humano ao de cima, e é o maior parasita que alguma vez conhecerão. Por isso, ele dividi-me e há uma parte de mim que sente manipulada ao longo do livro para gostar dele. Eu não gosto dele. Nem um bocadinho. É das personagens que mais detesto e alguma vez detestarei.

  Com pormenores históricos incríveis, Flashman é uma aventura vitoriana que merece, admito, os largos elogios que tem recebido. É uma comédia de valores que faz um melhor trabalho como feira das vaidades do que um certo clássico. Mas tem como defeito o seu maior trunfo, o protagonista. Porque Flashman não é só um sacana. É um sacana sem charme ou inteligência com uma sorte descomunal, como o facto de não haver uma personagem tão interessante e complexa como ele. É um desastre rodeado de desastres ainda maiores. De patéticos e vergonhosos homens, de mulheres fúteis e superficiais, que apenas enaltecem o único que não finge sequer ter honra, ele próprio, Flashy. Ele que é uma crítica assaz inteligente e pertinente ao homem comum que se glorificou através dos azares dos outros.

  Flashman é uma leitura de variados sabores. É aquela que me permite ver um retrato brilhante da realidade ridícula das mais altas patentes, uma crítica inteligente a um Império escondido por valores não existentes. É também aquela, que me fez desprezar cada personagem. É uma leitura que me divide, que tanto me agrada como me irrita. É um bico de obra, verdade seja dita!

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