segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Opinião - Herdeiros do Ódio

Título Original: Flowers in the Attic (#1 Dollanganger)
Autor: V.C. Andrews
Editora: Quinta Essência
Número de Páginas: 400


Sinopse
Os quatro filhos da família Dollanganger levavam vidas perfeitas - uma bela mãe, um pai amoroso e dedicado, uma linda casa. De repente, o pai morre num acidente de viação e a mãe fica endividada e não possui qualificações para ganhar a vida e sustentar a família. Assim, decide escrever aos pais - os seus pais milionários, dos quais as crianças nunca tinham ouvido falar.
A mãe fala-lhes dos avós ricos, de como Chris, Cathy e os gémeos irão levar vidas de príncipes e princesas na luxuosa mansão dos avós. As crianças deleitam-se com as perspetivas da nova vida, até descobrirem que existem algumas coisas que a mãe nunca lhes contou. Nunca lhes contou que eram consideradas pelos avós «filhos do demónio» e que nunca deviam ter nascido. Não lhes conta que é obrigada a ocultá-las do avô porque deseja herdar a fortuna dele. Não lhes conta que devem permanecer trancadas numa ala isolada da casa, tendo apenas o sótão escuro e abafado onde brincar. Prometeu-lhes, porém, que seriam apenas alguns dias... Contudo, os dias transformaram-se em meses, os meses em anos. Desesperadamente isolados, aterrorizados pela avó, Chris e Cathy tornam-se tudo um para o outro e para os gémeos. Agarram-se ao amor mútuo como última esperança, única força sólida - uma força quase mais poderosa que a morte. Herdeiros do Ódio é um romance de terror, traição e salvação através do amor.


Biografia
  Virginia Cleo Andrews nasceu em 1923, em Portsmouth, Virginia. Segunda filha e única rapariga, Virginia teve um acidente na adolescência, que a levou a precisar de muletas e cadeira de rodas para o resto da vida. Distinguiu-se na escola, tendo até ganhou uma bolsa de estudo, e fez um curso de artes por correspondência. O seu sucesso enquanto pintora permitiu-lhe sustentar a mãe após a morte do pai mas, a falta de criatividade, levou-a a dedicar-se a escrita, publicando o primeiro livro em 1972. Foi a série Dollanganger que lhe granjeou a fama como autora, aliás, foi tal o sucesso, que após a sua morte em 1986, continuaram-se a publicar livros da série, escritos por um ghost writer, mas que ostentavam o nome da autora na capa.

  Publicado em 1979, Herdeiros do Ódio é o primeiro volume da série Dollanganger. Está traduzido em treze línguas e foi adaptado ao cinema em 1987 e, novamente, em filme de televisão este ano, tendo Heather Graham como Corrine, Ellen Burstyn como Avó e Kiernan Shipka como Cathy.


Opinião
  Há livros que nos arrepiam. Arrepiam-nos pela aparente normalidade com que se apresentam para depois, rostos santos, belos e cândidos, revelarem almas podres e sinistras, capazes de gestos de fria e cruel indiferença. Gestos a que chamam sacrifício ou justiça. Estes livros, não precisam de derramamento de sangue ou loucos esquemas, precisam apenas de perfeição. Cruel, insana, extremista, perfeição. Herdeiros do Ódio choca-nos. Provoca-nos sentimentos com os quais preferíamos não lidar. E, bizarramente, também nos fascina. V.C. Andrews apresenta-nos um espetáculo de horrores, um retrato doentio de uma família marcada pelo preconceito, pelo extremismo religioso e pelo ódio. E, em momento algum, somos poupados à doença que consume esta familia. A autora agride-nos com força, com uma escrita brutalmente honesta que vai deixar as suas cicatrizes.

  Página a página, somos confrontados com temas, que habitualmente, varremos para debaixo do tapete, porque nos embaraçam, porque nos assustam. Temas tabus que nos são apresentados dentro daquele que devia ser o mais puro dos núcleos: a família. Afinal, é inconcebível uma mãe ter ciúmes da filha, é inconcebível irmãos sentirem-se atraídos um pelo outro, é inconcebível uma mãe prender os filhos num quarto durante anos e anos. Mas não impossível. E, por isso, ao dar-nos dar um quadro tão assustador daquele que devia ser o nosso porto de abrigo, este livro dilacera-nos. É um ciclo de más decisões, de castigos e ciúmes, vis consequências que resultaram de décadas de ódio e incompreensão. Numa narrativa crua, cruel e devastadora, assistimos impotentes à destruição da inocência, à morte lenta, vagarosa de crianças que esqueceram o mundo, que desaprenderam a sonhar, que deixaram de crescer.

  Esta é a verdadeira história de terror. É a casa de chocolate, não dos contos dos irmãos Grimm, mas a da realidade. Quando o mal vem das mãos que nos aconchegaram, do sorriso que nos curou, do sangue que é o nosso. Esse é o verdadeiro monstro que se esconde debaixo das nossas camas, porque só o vemos como tal quando já é tarde demais, quando já perdoamos de mais. Porque os piores monstros são os que amámos. E, é por isso, que esta leitura é uma avalanche de emoções impossíveis de deter ou classificar. Porque o horror vem de uma realidade que conhecemos. Porque aqui não existem bruxas, mas a mãe e a avó. Não existem príncipes encantados, mas o irmão. Não existe um castelo, mas sim um sótão. E, é tal o horror e a mágoa que esta história nos provoca que, damos por nos a perdoar o impensável, por ser fruto de um mal maior. Damos por nos a escolhermos um crime menor no meio de tantos. De todos os pecados, acabamos por ficar cegos a algum.

  Tal como a sua história, as personagens provocam-nos sentimentos difíceis de conter ou explicar. Nunca, nunca odiei tanto uma personagem como Corrine. A raiva que sinto por ela é tal que vem do fundo das entranhas e sobe-me como bílis à boca. Ela é a prova que uma boneca, debaixo da sua perfeição, pode esconder uma alma tão negra como o mais perverso dos demónios. Já a avó, sim, odiei-a, mas também senti pena dela, e pergunto-me como seria se não tivesse desperdiçado uma vida inteira à Bíblia e ao ódio. E depois há as quatro crianças que são o centro do universo durante esta leitura. Eu sei que podia ter vontade de calar Carrie, de não gostar de Cathy, adorar Cory e respeitar Chris, mas isso seria noutra vida. Nesta, sinto um desejo de vingança que só parara quando cumprido. Nesta, respeito Cathy, tento compreender Chris, gosto tanto de Carrie como de Cory. Nesta, se pudesse, dava-lhes o ar, o sol, a vida. Como não posso, perdoo os pecados que não teriam cometido.

  Herdeiros do Ódio abre-nos os olhos de maneiras que gostávamos de voltar a esquecer. E ensina-nos uma lição que nunca devíamos sobrevalorizar: que, por vezes, são as flores mais belas que têm os espinhos mais aguçados.


2 comentários:

  1. Há um filme sobre este livro, certo?? Tinha quase a certeza que já tinha ouvido esta história, todo o ambiente parecia-me familiar, e quando li a parte do amor mútuo entre os irmãos fiquei com a certeza. Já agora gostei muito da tua opinião. Bjs;-)

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    1. Certo!!=D Esteve a dar na Fox Life há pouco tempo.

      Obrigada!!

      beijinhos e boas leituras!

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