sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Opinião - Winterspell

Título Original: Winterspell
Autor: Claire Legrand
Editora: Simon & Schuster
Número de Páginas: 464


Sinopse
Darkly romantic and entirely enchanting, this reimagining of The Nutcracker from Claire Legrand brims with magic, love, and intrigue. New York Times bestselling author Marissa Meyer (Cinder) says “this is not your grandmother’s Nutcracker tale.”

After her mother is brutally murdered, seventeen-year-old Clara Stole is determined to find out what happened to her. Her father, a powerful man with little integrity, is a notorious New York City gang lord in the syndicate-turned-empire called Concordia. And he isn’t much help.

But there is something even darker than Concordia's corruption brewing under the surface of the city, something full of vengeance and magic, like the stories Clara's godfather used to tell her when she was a little girl. Then her father is abducted and her little sister's life is threatened, and Clara accidentally frees Nicholas from a statue that has been his prison for years. Nicholas is the rightful prince of Cane, a wintry kingdom that exists beyond the city Clara has known her whole life.

When Nicholas and Clara journey together to Cane to retrieve her father, Clara encounters Anise, the queen of the faeries, who has ousted the royal family in favor of her own totalitarian, anti-human regime. Clara finds that this new world is not as foreign as she feared, but time is running out for her family, and there is only so much magic can do...


Biografia
  Claire Legrand costumava ser música até ter percebido que não conseguia parar de pensar nas histórias que lhe preenchiam a mente. Agora escritora, Claire pode ser encontrada frequentemente a escrever no computador, a menos que esteja perdida na sua biblioteca local ou em aventuras por terras desconhecidas. Foi bibliotecária, tem uma obsessão por ver a parte dos comentários dos DVD’s e gosta de dar longos passeios. Vive em New Jersey, mas tem saudades da sua casa no Texas.

  Publicou o seu primeiro livro em 2012, The Cavendish Home for Boys and Girls. Winterspell é o seu terceiro livro, publicado este ano e é um retelling de O Quebra-Nozes.


Opinião
  Há muito, muito tempo, houve um conto chamado Quebra-Nozes. Era um conto sobre ratos malvados e brinquedos aterrorizados, princesas de mau carácter e príncipes amaldiçoados. Uma história que nunca mais irão ver da mesma maneira. Winterspell não é a história que conhecem. Claire Legrand não se limitou a recontar o conto. Reinventou-o, levou-o de volta aos tempos em que os finais felizes demoravam décadas, aos tempos em que custavam sangue derramado e inocência perdida. Dotada de uma escrita elegante e sombria, Claire pegou nos alicerces da história de Hoffmann de 1816, e escreveu outra sobre vingança, preconceito e perda, construída sobre feitiços, inverno e mecânica, uma história que anseia por esperança e nos toma de surpresa.

  Nas primeiras páginas deste livro senti-me perdida, desapegada à história. É, o único defeito que tenho a apontar a Winterspell, o tempo que demorei a entrar na história, o tempo que perdi sem perceber afinal, o que Claire nos iria contar. Mas, de um momento para o outro, algo aconteceu e, de repente, dei por mim embrenhada num conto tão cruel quanto belo, um conto feito de lágrimas e erros, um conto que supera, em muito, aquele em que foi inspirado. Numa narrativa feita de complexas teias de sentimentos, segredos e passados, somos despedaçados, enfeitiçados, tentados. Estamos perante uma história afogada em mágoas, onde a vingança é um doce desejo e, a esperança, há muito se desvaneceu. Marcada por traições, pela guerra e pelo desespero, esta história é um ciclo de ódio, de frio e sombras, mas é nestes alicerces de malvadez e ressentimento que surge um amor incondicional à terra, ao povo, ao outro. 

  Este é um mundo destruído por sonhos impossíveis de se realizar, por um desejo de pertença imposto à força pelo ressentimento e a vergonha. Foi outrora, um mundo belo e encantador que escondia nos seus calabouços um ódio que marcou gerações e que, agora, o demonstra num inverno permanente. Esta história, fala-nos pois, de um ciclo vicioso que ninguém tem a coragem de terminar, a menos que se aprenda a perdoar, a menos que se aprenda a esticar a mão em nome da paz. Isso leva-nos a acompanhar uma possibilidade de escolhas, que ora podem fazer cair as personagens numa escuridão sem fim, ora podem trazê-las para a luz. Essa é uma lição que vemos imensas vezes ao longo desta leitura, que temos a capacidade de escolher um caminho diferente daquele que nos impuseram ou que nos foi ensinado. Podemos ser vítimas ou podemos ser donos do nosso destino, podemos odiar ou podemos amar, podemos castigar ou perdoar. 

  Por isto tudo, esta é uma leitura que nos devora. Somos arrastados num enredo onde não falta acção e romance, reviravoltas, segredos e traições. Somos enfeitiçados pela magia misturada com mecânica, pelas criaturas malévolas que habitam este mundo. E assistimos ao despertar de um mundo e de uma rapariga. De um mundo, para aquilo que ele poderia ser, para aquilo que ele tem deixado escapar, para aquilo que perdeu. De uma rapariga, para o amor, para a sexualidade, para quem ela pode ser, se deixar de ter medo. 

  Não estámos perante um conto de fadas normal e, se não bastar a história para o demonstrar, rapidamente o percebemos pelas personagens. Elas têm defeitos, muitos. Elas cometem erros, muitos. Têm preconceitos, dores, ressentimentos. Umas nunca aprendem, outras florescem ao longo do livro. Esse é o caso de Clara, a protagonista. No início do livro temos uma menina cheia de medos, que se sente culpada por tudo o que existe de mau na sua vida, uma menina incapaz de sonhar e querer algo para si. E depois ela cresce, aprende, e torna-se uma guerreira, uma mulher capaz de perceber que o perdão só se dá a quem aceita mudar. Ela é o elo de ligação entre Nicholas e Anise e, se com Nicholas tem uma relação de, primeiro, amor infantil, e depois de primeiro amor, com Anise, tem uma relação de igualdade, de desejo, uma relação que me faz lembrar a de Lestat e de Louis de A Entrevista com o Vampiro. São eles três que reflectem o simbolismo desta história, e é através deles que aprendemos a conhecer este mundo.

  Winterspell é uma história que não agradará a todos, verdade. Mas para mim, fez algo impensável: foi melhor que o conto que lhe deu vida. Incentivou-me a conhecer melhor Quebra-Nozes e fê-lo cair do pedestal. Claire Legrand dá-nos um chocolate, negro e denso, e desafia-nos a degustá-lo, a apreciá-lo. A verdade, é que o chocolate preto sempre foi o meu preferido.


3 comentários:

  1. Nunca tinha lido nada sobre este livro, para já a capa e a sinopse são super interessantes e a história fascinou-me! beijinhos
    http://diariosdeumadesconhecidacomilona.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Este livro saiu o mês passado. Para quem gosta de retellings mais sombrios, é o ideal =D

      Boas leituras!

      Eliminar