quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Opinião - A Long Long Sleep

Título Original: A Long Long Sleep (#1 UniCorp)
Autor: Anna Sheehan
Editora: Candlewick Press
Número de Páginas: 342


Sinopse
It should have been a short suspended-animation sleep. But this time Rose wakes up to find her past is long gone-- and her future full of peril.

Rosalinda Fitzroy has been asleep for sixty-two years when she is woken by a kiss. Locked away in the chemically induced slumber of a stasis tube in a forgotten subbasement, sixteen-year-old Rose slept straight through the Dark Times that killed millions and utterly changed the world she knew. Now, her parents and her first love are long gone, and Rose-- hailed upon her awakening as the long-lost heir to an interplanetary empire-- is thrust alone into a future in which she is viewed as either a freak or a threat. Desperate to put the past behind her and adapt to her new world, Rose finds herself drawn to the boy who kissed her awake, hoping that he can help her to start fresh. But when a deadly danger jeopardizes her fragile new existence, Rose must face the ghosts of her past with open eyes-- or be left without any future at all.


Biografia
  Anna Sheehan foi concebida no norte do Alaska, filha de uma veterinária boémia. Passou por vários anos infernais na escolha mas já conseguiu perdoar todos os seus professores e as pobres crianças que nunca aprenderam a lidar consigo.

  Em vez de uma vida social, dedicou-se antes aos livros, tendo-se tornado uma devota leitora de Diana Wynne Jones e de Douglas Adams. Estudou teatro e Shakespeare com os Young Shakespeare Players de Madison, Wisconsin, algo que criou um grande impacto na sua vida. Depois descobriu a encenação histórica. Vive num pequeno rancho no estado de Oregon com a mãe, a filha e os dois cães.

  A Long Long Sleep foi o primeiro livro da autora. Publicado em 2011, está traduzido para cinco línguas e ganhou o Golden Duck Award for Hal Clement Award for Young Adult de 2012. A continuação, No Life But this, será publicada em Dezembro deste ano mas não pela Candlewick. Será a Gollancz, a editora britânica a fazê-lo.


Opinião
  Por vezes comprámos livros por impulso. Não é que estejámos desejosos de o ler, não é que tenhámos lido todas as críticas ao livro e a sinopse até à exautão. É porque ele tem uma capa deslumbrante, porque pertence a géneros que lemos, porque até encaixa nuns desafios que queremos fazer... Basicamente, comprámos o livro porque sim. Eu comprei A Long Long Sleep porque sim. Foi uma compra impulsiva e seria uma leitura quase sem importância da qual não tinha expectativas se, se ele não se tivesse revelado uma das grandes surpresas deste ano. Anna Sheehan fia devagar e pacientemente os fios desta trama página a página para, inesperadamente, quase no fim, nos deslumbrar com uma complexa trama psicológica. Lírica por vezes, enganadoramente fútil, profundamente triste e desesperante, A Long Long Sleep não é um conto de fadas. É sim, uma história que desfaz os seus leitores, que os fará pensar e, sem dúvida, os marcará profundamente.

  O encanto deste livro não está no mundo em que a história se passa. É, aliás, a única coisa quase em estado bruto aqui e, consequentemente, a única falha de Anna. Mas, se o mundo é simples e, apesar de futurista e pós-apocáliptico, até tosco, no final vai ser a coisa que menos importará. Porque esta história não é sobre uma sociedade, é sobre valores morais. É sobre família, amor e amizade. É sobre uma rapariga que abriu os olhos mas permaneceu adormecida para a vida. É sobre uma princesa que acordou com um beijo mas só despertou quando a ilusão do seu mundo desabou perante a crueldade da verdade que julgava perfeita. Numa narrativa que começa como a sua protagonista, dormente, apática, de luto, há pequenas pistas em palavras subtilmente escondidas, anos propositadamente esquecidos, caras envelhecidas. Pistas que escondem segredos de desapego, de intolerância e abandono por baixo de uma superfície polida e perfeita.

  Ao longo de uma trama marcada pela tristeza, apercebemo-nos de uma dormência que impera em gestos torpos, palavras delicadas sempre ditas em voz baixa, em apegos sedentos de amor. Atitudes que levarão à curiosidade e, então, à exposição de uma realidade que se adequa tão bem aos dias de hoje. E é essa realidade que nos chocará, pois fala-nos de falsa protecção, amor ilusório, dedicação mentirosa. Mostra-nos em palavras e atitudes, o cinismo e o egoísmo, que levam à um abuso para lá de imaginável. Pinta-nos um quadro aterrorizador de até onde pode ir a negligência, o quanto se pode roubar a uma criança inocente sem que ela se aperceba. E o que acontece quando ela finalmente se apercebe que a sua inocência ficou há muito, muito tempo para trás, é um vil acordar que desencadeará uma série de revelações inesperadas e a descoberta que o seu mundo, o seu tempo, correu, correu, correu , enquanto ela estagnou. E que a morte, por vezes, é mais doce e menos cruel que a vida.

  Enquanto o enredo subtilmente muda e se transforma num rodopio de emoções intoleráveis, Rose muda com ele. De princesinha de vidro, sem emoções e sem personalidade, Rose, passo a passo, à custa da destruição das ilusões que lhe restaram, cresce e revolta-se, sente e grita. É com o desabamento das ruínas do seu mundo que ela se fortalece, demonstrando que a sua fragilidade foi imposta e não escolhida, mostrando que a rosa de plástico afinal tem espinhos e sabe como usá-los. É nela, principalmente,que nos apercebemos do talento extraordinário da autora para criar personagens psicologicamente espantosas, ou melhor, humanamente reais. E, é também, na forma como Rose se liga às personagens à sua volta, como as suas emoções mudam de personagem para personagem, de acontecimento para acontecimento, que nos apercebemos como Anna Sheehan entende as múltiplas facetas dos sentimentos, mesmo quando estes são transmitidos por uma personagem como Otto que não pode usar a voz para se fazer ouvir.

  Inconvencional, original, extraordinário. A Long Long Sleep é daqueles livros que nos surpreendem exactamente porque não lhe esperámos encontrar tal efervescência de carácter. Ainda bem que, por vezes, nos deixámos levar pelos impulsos.

Sem comentários:

Enviar um comentário