Título Original: Runelight (#2 Crónicas das Runas)
Autor: Joanne Harris
Editora: ASA
Número de Páginas: 608
Sinopse
Três anos após o Fim do
Mundo, o silêncio reina ainda nas Catacumbas… Após a queda da Ordem, o
mundo está a voltar lentamente à vida. Maddy sente-se finalmente em paz,
agora que está livre das regras brutais da organização. Mas para
Maggie, nascida e criada no seio da Ordem, este é um tempo de caos e
desolação. Maddy e Maggie vivem a mil quilómetros de distância uma da
outra mas têm uma coisa em comum: ambas nasceram com a marca das runas
na pele. Um símbolo que remonta ao tempo em que o mundo era governado
por deuses que habitavam Asgard. Asgard está agora em ruínas, e o poder
dos deuses foi há muito destruído. Pelo menos, é o que todos pensam… Mas
nada se perde para sempre. Os deuses ainda não desistiram. Eles cobiçam
o poder das runas que as duas jovens detêm. Maddy e Maggie rapidamente
se veem envolvidas numa luta sem tréguas que as aproximará uma da outra e
na qual os seus limites serão postos à prova e as suas lealdades
testadas ao limite. MAIS UMA APAIXONANTE VIAGEM AO CORAÇÃO DAS LENDAS
NÓRDICAS.
Opinião
Quando tinha dezanove anos, Joanne escreveu uma história
sobre magia, deuses e demandas, uma história guardada na gaveta chamada Witchlight que foi recusado pelos
editores até a autora a tornar uma história de mãe e filha, algo privado entre
ambas e até imaginada por ambas até que Anouchka achou que outras pessoas
deviam conhecer a história de que ela tanto gostava e convenceu a mãe a voltar
a mostrá-la aos editores e, desta vez, renascida como Crónicas das Runas, a história viu a luz.
Publicado em 2011, A
Luz das Runas foi traduzido para dez línguas e é para já o fim das Crónicas das Runas até a autora cumprir
a promessa de regressar a este mundo e terminar a história de Maggie.
Três anos depois, o Caos instalou-se e Maggie perdeu tudo o
que tinha: a sua casa, a sua família, o seu mundo. Mas um encontro inesperado
coloca-a no meio de uma profecia que revela estranhos factos sobre si própria e
a meio caminho de conhecer a sua verdadeira família, os demónios que odeiam
profundamente. O Fim dos Mundos aproxima-se e o tique-taque do relógio não perdoa.
Sem o General, os deuses sentem-se perdidos mas Maddy é mais uma vez chave mas
será preciso mais que força de vontade para reerguer Asgard.
A Marca das Runas surpreendeu
por mostrar uma faceta mais divertida e sonhadora de Joanne Harris e este livro
segue o mesmo caminho que o anterior apesar de por vezes ter um lado mais
sombrio, condizente com o que é habitual na escrita da autora. De uma forma criativa
e imaginativa, Joanne escreveu um conto familiar que dá uma nova vida e um lado
mais hilariante e humano às lendas nórdicas. Numa demanda de magia, astúcia e
coragem o fim depende das escolhas, do esquecimento das diferenças e da união
pelo mesmo objectivo mas principalmente pela capacidade de sonhar e acreditar. Uma
história de aventuras, este livro mantém mesmo assim a complexidade e algo do
lado mais negro da autora bem como a sua ironia sempre patente e a divisão
entre o bem e o mal, a magia e a religião, a sanidade e a loucura.
Como um conto de fadas moderno, uma fábula de aprendizagem,
esta narrativa é pautada por uma demanda onde profecias têm de ser cumpridas e
provas são colocadas aos heróis para que estes demonstrem se são merecedores do
prémio final mas onde o Bem e o Mal não são tão lineares nem assim tão diferentes
e apenas se distinguem pela sua perspectiva e desejos, pela forma como os levam
a cabo. Parece uma história fácil, quase
de crianças, ingénua e espirituosa mas nas entrelinhas quase se consegue sentir
a densidade por trás de gestos que parecem tão simples e de palavras quase
inocentes. É preciso talento para construir algo assim, colorido, extremamente
divertido e doce e mesmo assim manter a escuridão da alma humana e os grandes
dilemas que nos assombram.
Apesar do tamanho, esta é uma história que fluí sem quase
darmos por ela e muitas são as gargalhadas que nos arranca. Cheia de
peripécias, mistérios e muitas surpresas, reflecte sobre a família, as nossas
origens, o futuro e as esperanças de que vivemos diariamente, num ambiente
fantástico onde os deuses não são perfeitos e poderosos mas muitas vezes trapalhões
e ingénuos. É óbvio que não apresenta o suspense de que estamos habituados por parte
da autora mas o seu talento para criar situações que não são o que parecem ou
tornar o improvável bastante óbvio está bem latente nas reviravoltas do enredo.
Também a dualidade é aqui representada, quer por Maggie e Maddy, quer pela
Ordem e o Caos, a racionalidade ou a loucura. Tudo tem dois lados, duas
versões, duas maneiras de se ver ou se pensar, não existindo uma verdade ou um
bem absoluto.
Se a história em si é algo de mágico acabam por ser as personagens
o verdadeiro encanto desta demanda. Cheias de graça e sabedoria, trapaceiras ou
inocentes, loucas ou racionais, todas elas nos enchem de afeição e nos
conquistam cada uma à sua maneira. Loki, uma personagem bem Harris, seduz-nos,
irrita-nos, nunca nos deixa indiferentes. Já as gémeas, tão iguais e tão
opostas, são como dois lados de uma moeda, e cada uma à sua maneira tem um
encanto próprio que deixa o leitor do seu lado. Mas para mim, a personagem mais
fantástica foi Nan Tonta, a velha louca que é muito mais do que aparenta.
Um ciclo que se fecha e que nos faz desejar uma continuação,
A Luz das Runas pode não ser um
grande livro mas é sem dúvida uma história que se partilha, que nos permite
viajar por outros mundos, que traz a criança que há em nós ao de cima. E, é sem
dúvida a prova, de que seja o que for que escreva, Joanne Harris é uma
escritora genial.
6*
As minhas opiniões da série


