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quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Opinião - A Luz das Runas

Título Original: Runelight (#2 Crónicas das Runas)
Autor: Joanne Harris
Editora: ASA
Número de Páginas: 608


Sinopse
 Três anos após o Fim do Mundo, o silêncio reina ainda nas Catacumbas… Após a queda da Ordem, o mundo está a voltar lentamente à vida. Maddy sente-se finalmente em paz, agora que está livre das regras brutais da organização. Mas para Maggie, nascida e criada no seio da Ordem, este é um tempo de caos e desolação. Maddy e Maggie vivem a mil quilómetros de distância uma da outra mas têm uma coisa em comum: ambas nasceram com a marca das runas na pele. Um símbolo que remonta ao tempo em que o mundo era governado por deuses que habitavam Asgard. Asgard está agora em ruínas, e o poder dos deuses foi há muito destruído. Pelo menos, é o que todos pensam… Mas nada se perde para sempre. Os deuses ainda não desistiram. Eles cobiçam o poder das runas que as duas jovens detêm. Maddy e Maggie rapidamente se veem envolvidas numa luta sem tréguas que as aproximará uma da outra e na qual os seus limites serão postos à prova e as suas lealdades testadas ao limite. MAIS UMA APAIXONANTE VIAGEM AO CORAÇÃO DAS LENDAS NÓRDICAS.


Opinião


  Quando tinha dezanove anos, Joanne escreveu uma história sobre magia, deuses e demandas, uma história guardada na gaveta chamada Witchlight que foi recusado pelos editores até a autora a tornar uma história de mãe e filha, algo privado entre ambas e até imaginada por ambas até que Anouchka achou que outras pessoas deviam conhecer a história de que ela tanto gostava e convenceu a mãe a voltar a mostrá-la aos editores e, desta vez, renascida como Crónicas das Runas, a história viu a luz.

  Publicado em 2011, A Luz das Runas foi traduzido para dez línguas e é para já o fim das Crónicas das Runas até a autora cumprir a promessa de regressar a este mundo e terminar a história de Maggie.

  Três anos depois, o Caos instalou-se e Maggie perdeu tudo o que tinha: a sua casa, a sua família, o seu mundo. Mas um encontro inesperado coloca-a no meio de uma profecia que revela estranhos factos sobre si própria e a meio caminho de conhecer a sua verdadeira família, os demónios que odeiam profundamente. O Fim dos Mundos aproxima-se e o tique-taque do relógio não perdoa. Sem o General, os deuses sentem-se perdidos mas Maddy é mais uma vez chave mas será preciso mais que força de vontade para reerguer Asgard.

  A Marca das Runas surpreendeu por mostrar uma faceta mais divertida e sonhadora de Joanne Harris e este livro segue o mesmo caminho que o anterior apesar de por vezes ter um lado mais sombrio, condizente com o que é habitual na escrita da autora. De uma forma criativa e imaginativa, Joanne escreveu um conto familiar que dá uma nova vida e um lado mais hilariante e humano às lendas nórdicas. Numa demanda de magia, astúcia e coragem o fim depende das escolhas, do esquecimento das diferenças e da união pelo mesmo objectivo mas principalmente pela capacidade de sonhar e acreditar. Uma história de aventuras, este livro mantém mesmo assim a complexidade e algo do lado mais negro da autora bem como a sua ironia sempre patente e a divisão entre o bem e o mal, a magia e a religião, a sanidade e a loucura.

  Como um conto de fadas moderno, uma fábula de aprendizagem, esta narrativa é pautada por uma demanda onde profecias têm de ser cumpridas e provas são colocadas aos heróis para que estes demonstrem se são merecedores do prémio final mas onde o Bem e o Mal não são tão lineares nem assim tão diferentes e apenas se distinguem pela sua perspectiva e desejos, pela forma como os levam a cabo.  Parece uma história fácil, quase de crianças, ingénua e espirituosa mas nas entrelinhas quase se consegue sentir a densidade por trás de gestos que parecem tão simples e de palavras quase inocentes. É preciso talento para construir algo assim, colorido, extremamente divertido e doce e mesmo assim manter a escuridão da alma humana e os grandes dilemas que nos assombram.

  Apesar do tamanho, esta é uma história que fluí sem quase darmos por ela e muitas são as gargalhadas que nos arranca. Cheia de peripécias, mistérios e muitas surpresas, reflecte sobre a família, as nossas origens, o futuro e as esperanças de que vivemos diariamente, num ambiente fantástico onde os deuses não são perfeitos e poderosos mas muitas vezes trapalhões e ingénuos. É óbvio que não apresenta o suspense de que estamos habituados por parte da autora mas o seu talento para criar situações que não são o que parecem ou tornar o improvável bastante óbvio está bem latente nas reviravoltas do enredo. Também a dualidade é aqui representada, quer por Maggie e Maddy, quer pela Ordem e o Caos, a racionalidade ou a loucura. Tudo tem dois lados, duas versões, duas maneiras de se ver ou se pensar, não existindo uma verdade ou um bem absoluto.

  Se a história em si é algo de mágico acabam por ser as personagens o verdadeiro encanto desta demanda. Cheias de graça e sabedoria, trapaceiras ou inocentes, loucas ou racionais, todas elas nos enchem de afeição e nos conquistam cada uma à sua maneira. Loki, uma personagem bem Harris, seduz-nos, irrita-nos, nunca nos deixa indiferentes. Já as gémeas, tão iguais e tão opostas, são como dois lados de uma moeda, e cada uma à sua maneira tem um encanto próprio que deixa o leitor do seu lado. Mas para mim, a personagem mais fantástica foi Nan Tonta, a velha louca que é muito mais do que aparenta.

  Um ciclo que se fecha e que nos faz desejar uma continuação, A Luz das Runas pode não ser um grande livro mas é sem dúvida uma história que se partilha, que nos permite viajar por outros mundos, que traz a criança que há em nós ao de cima. E, é sem dúvida a prova, de que seja o que for que escreva, Joanne Harris é uma escritora genial.

6*
 
As minhas opiniões da série

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Opinião - A Marca das Runas

Título Original: Runemarks (#1 Crónicas das Runas)
Autor: Joanne Harris
Editora: Edições ASA
Número de Páginas: 528
Sinopse
 Maddy Smith nasceu com uma marca que ditou o seu destino. A runa inscrita na sua pele é um símbolo dos Antigos Deuses, uma marca mágica. E perigosa. Na pequena aldeia onde vive todos a receiam e excluem. Mas Maddy não renega a sua sorte. Pelo contrário, ela adora magia. Mesmo que isso a condene à solidão. Quinhentos anos passaram desde Ragnarók - o flagelo que marcou o Fim dos Tempos -, e a Nova Ordem impôs regras que ditam o aniquilamento do Caos, da Magia, dos Sonhos e da Imaginação. À medida que os seus feitiços ficam cada vez mais fortes, Maddy sabe que será apenas uma questão de tempo até os Examinadores da Ordem a identificarem e perseguirem. E tempo é algo que o Mundo não tem... agora que a ameaça de destruição é cada vez mais real. Isolada, Maddy pode apenas contar com o ancião seu mentor, que lhe dá a conhecer as lendas nórdicas, com os seus deuses e criaturas maravilhosas. Invisível para a maioria das pessoas, este Mundo Subterrâneo encerra a chave do seu passado. Dela depende o destino do Mundo, mais uma vez...

Opinião
   Nos primeiros dez anos da sua vida, Joanne refugiou-se na leitura, nos dez anos seguintes escreveu histórias a imitar as dos seus autores preferidos e depois, finalmente, começou a escrever as suas próprias histórias mas houve uma história, escrita durante os seus dezanove anos que a autora acabou por recuperar, uma história inspirada pelo seu amor à mitologia nórdica, originalmente chamada Witchlight e que foi recusada pelos editores devido ao seu tamanho, complexidade e obscuridade. Esta história um dia saiu da gaveta e tornou-se uma história de mãe para filha, uma história que Joanne lia e adaptava para a sua filha Anouchka, uma história divertida e privada até a filha de Harris a convencer a publicá-la e assim nasceu A Marca das Runas

  Publicado em 2007, e reeditado agora pela ASA, editora da autora em Portugal, este é o primeiro volume da duologia de fantasia da autora de Chocolate, uma série juvenil que não deixa de apresentar a profundidade sombria de Joanne mas que contém diversão, mitologia e aventura e, mais uma vez, o combate entre magia e religião.

  Maddy nunca foi uma menina como as outras. Renegada desde a nascença por causa da marca que apresenta na pele, Maddy é uma estranha na sua própria casa, olhada de lado pelos que a viram crescer, diferente em todos os aspectos, ela sonha com outro mundo, onde não seja uma estranha, um símbolo de algo que é temido e há muito esquecido… mal Maddy sabe que algo está mudar, que o que está adormecido voltará, que a magia está mais entranhada nela do que alguma vez ela pode supor e que está na hora de ela cumprir a sua parte nos desígnios do destino. Encarregada de uma missão, ela parte para o desconhecido e descobre que as fábulas que o seu mentor lhe contava são mais reais e perigosas, que existe um inimigo que está prestes a torná-las nada até ao esquecimento absoluto, que ela própria é muito mais do que aparenta. Numa guerra onde o Caos e a Ordem se enfrentam mais uma vez, inimigos tornam-se amigos, aliados mudam de lado e uma Nova Era pode morrer antes de puder crescer.

  Autora que brilha em livros esotéricos de alguma estranheza e muita complexidade, Joanne dá-nos este A Marca das Runas, um livro juvenil de fantasia, muito diferente do seu estilo habitual mas que não deixa de surpreender, nem que seja pelo lado refrescante e divertido, jovem e espirituoso, uma faceta desconhecida da autora, cujos livros pontuam, por regra,  pela densidade e obscuridade. Numa linha mais simples mas com a mesma escrita envolvente que perde o seu lado tentador pra um mais ingénuo e satírico, a autora de Chocolate mostra que quando se nasce com um dom se pode escrever qualquer coisa, até uma fábula de aventuras, demandas e objectos mágicos. 

  Mas desenganem-se se pensam que este livro é uma leitura básica e banal, muito pelo contrário, está repleta de segredos, profecias e ligações obscuras que se unem numa narrativa de  acção rápida e momentos únicos que nos levam a ler a toda a velocidade. Onde as gargalhadas são sempre bem-vindas, o inesperado acontece nos momentos menos propícios e o coração se aperta quando só queremos que tudo acabe bem, a mitologia nórdica ganha outra graça e dimensão, uma versão mais colorida, trapaceira e trapalhona que nos faz voltar à idade em que acreditávamos em tudo e em que o entusiasmo era quase infantil e extravagante. Mesmo assim, como sempre, a autora não nos deixa de espantar com a forma como o Bem e o Mal são uma única e só moeda, como ambos os conceitos se entrelaçam e desmontam dependendo da perspectiva de cada lado, mostrando que por baixo da cor e risada há uma mensagem mais profunda do que transparece a um primeiro olhar.
Também este livro é marcado pelos temas habituais. O conflito entre a religião e a magia, a fábula e a realidade, a ordem e o caos, pautam toda a narrativa, onde as coisas não são tão lineares quanto aparentam e que são apresentadas de uma forma tão imaginativa pela autora, que cada descrição nos faz viver os acontecimentos, deixando a nossa mente voar mais longe pelas páginas ao encontro das milésimas tarefas que Maddy e companhia cumprem ao longo da sua jornada. Em cada momento nota-se que este é um livro feito por diversão, um livro para extravasar ideias, para fazer rir e abrir os olhos mas com a certeza que respiraremos de alívio no fim, pelo menos até ao próximo livro. 
 
  As próprias personagens são tal como a narrativa em que se inserem. Ingénuas, rezingonas, irónicas e divertidas, um grupo para nos animar e enternecer que colocarão até ao fim da leitura a visão Marvel longe das nossas mentes. Desde os deuses aos habitantes da aldeia, cada um apresenta um conjunto de características que nos impedem de odiar profundamente e apelam ao perdão e isto, sendo um factor que algumas personagens de Joanne chegam a apresentar em outros livros, acaba por ter a sua certa ironia porque estas personagens são tão menos pesadas e intricadas que apelam desde logo ao nosso lado bom. 

  Sem deixar de ter aquela marca inimitável de Joanne, A Marca das Runas é um conto para a família, um livro em que podemos voltar atrás no tempo, sozinhos ou acompanhados mesmo dos mais novos. Sem a complexidade e mistério mais envolvente típicos, este livro é para se desfrutar, para descansar a mente das coisas tristes, para ler sempre com um sorriso. Uma leitura pitoresca e colorida que mesmo não atingindo a soberba dos outros romances de Joanne traz, sem dúvida, uma inocência e doçura que se deve recuperar, mesmo de vez em quando.

6*
 
Podem encontrá-lo aqui em formato livro e ebook 
Mais uma aposta ASA na autora de Chocolate