Autor: Joanne Harris
Editora: Edições ASA
Número de Páginas: 264
Sinopse
A aldeia de Lansquenet-sur-Tannes tem duas novas moradores: Vianne Rocher, jovem mãe solteira, e a sua filha Anouk. Ambas correram mundo e querem agora estabelecer-se, pelo que Vianne pensa montar um negócio. Um negócio aromático e guloso mas, naquelas paragens, pouco comum: uma chocolataria com o nome de "La Céleste Praline".
Para a aldeia, "La Céleste Praline" e a sua encantadora proprietária são um sopro de ar fresco frente à tirania de Francis Reynaud, um jovem padre de uma austeridade a raiar o fanatismo, que não oculta o seu desagrado por um comércio demasiado sofisticado e "tentador", e que vê em Vianne um desafio à sua autoridade. Frente a ele, a jovem Vianne só pode apelar à alegria de viver das gentes de Lansquenet...
Chocolate é um repertório de sabores, descritos de uma maneira tão viva que quase se sentem; é também uma galeria de personagens ternos e cruéis, amáveis e odiosos, sempre intensos e credíveis. Mas é sobretudo um romance tão ameno, tão rico e variado, que deixará nos seus leitores uma impressão imorredoira.
Opinião
Filha de mãe francesa e pai inglês, Joanne nasceu em
Barnsley no ano de 1964. Depois de estudar Línguas Modernas e Medievais em
Cambridge, Joanne foi professora durante quinze anos e foi durante esse tempo
que começou a escrever os seus livros, tendo publicado o seu primeiro livro em
1989. Entre 14 romances, um livro de contos e dois de cozinha, a autora já foi
traduzida para mais de 40 línguas e os seus livros ganharam vários prémios,
ingleses e internacionais.
Chocolate foi publicado
em 1999 e em 2000, o realizador sueco Lasse Hallström realizou um filme baseado
no livro, contando com estrelas como Johnny Deep, Juliette Binoche, Judy Dench,
Lena Olin e Alfred Molina. O sucesso foi tal, quer nas prateleiras das
livrarias como na tela do cinema, que a carreira de Joanne para sempre estará
ligada a este livro, considerado o melhor da autora e o verdadeiro início da
sua fama.
Espantem-se mas, apesar de Joanne ser uma das minhas autoras
preferidas, só agora, anos depois de ter lido o primeiro livro desta autora e
de ter visto o filme fantástico baseado neste livro, é que eu li Chocolate. Pode se dizer que a culpa
será da minha mania de não ler os livros depois de ver os filmes mas eu lá
ganhei juízo e como não vejo o filme há algum tempo achei que esta era a altura
certa para regressar a Lansquenet-sur-Tannes e voltar a deliciar-me com algo
que eu adoro, o chocolate, o qual Vianne transforma em algo ainda mais
delicioso.
Neste livro, tal como nos outros, o que nos apanha desde a
primeira linha é a escrita sensorial, mágica e envolvente tão típica da autora
que se evidencia ainda mais pela simplicidade desta narrativa, tão longe de
livros como Valete de Copas, Dama de
Espadas ou O Rapaz de Olhos Azuis.
A versatilidade da autora, capaz de escrever sobre qualquer coisa ou em
qualquer época, destaca-se ainda mais neste livro, pelo simples facto de ser um
livro fácil, com um enredo linear e nada complicado onde se evidenciam as sensações
e ligações, sendo fácil ao leitor perceber a história do livro e acompanhar com
a mente limpa, o dia-a-dia desta vila pacata e pitoresca mas tão fechada que
será revolucionada por uma mãe solteira e a sua filha e uma chocolaterie.
Tal como a vila onde vivem, as personagens deste livro são
um conjunto pitoresco e encantador, cheio dos hábitos típicos de um local onde
todos se conhecem e todos sabem tudo sobre todos. Mesmo com as características clichés de quem vive num sítio pequeno,
os habitantes de Lansquenet-sur-Tannes foram criados por uma mente que entende
os anseios e os pensamentos das gentes em quem se inspirou, transpondo para as páginas
cada uma das suas questões e problemas sem nunca abandonar a alegria e a
esperança com que guardam os seus pequenos tesouros, os seus segredos, os seus
sonhos. A chegada de Vianne vai despoletar uma guerra aberta à mudança, à alegria
e à diferença, tornando o chocolate produzido por ela, um inimigo dos santos e
bons costumes desta pobre gente simples que não entende os citadinos.
Este é um livro sobre a vida, sobre as mudanças que ocorrem
num segundo e tudo alteram, sobre decisões, continuidade e morte. Disfarçado pelo
senso de humor malicioso e charmoso da autora, o enredo enaltece o destino, a
forma como a decisão de um pode mudar a vida de outro, como quem somos pode
limitar o que fazemos ou o que queremos ou como a liberdade maior se pode
tornar uma prisão sem saída. Aparentando uma história simples em que
acompanhámos a vida diária de uma vila antiquada de província e os seus
habitantes fechados mas desejosos de saber o que se encontra lá fora, em que
acompanhamos os seus amores e zangas, os seus ódios de estimação, as amizades
antigas e crescentes, num rol de tradições e vivências conjuntas partilhadas
por várias gerações, Chocolate é um
livro para pensar, para saborear como um chocolate que se derrete na boca, sentindo
primeiro o sabor do chocolate que rodeia um recheio cheio de texturas, um
conjunto de sabores que nos delicia e satisfaz e faz desejar ainda mais.
Através das características e vidas das suas personagens, de
descrições tão sensoriais que fazem o leitor ver e sentir o que está a ler, e o
seu já habitual timing perfeito para
revelar informações chocantes, Harris criou algo de encantador e mágico, que
raia a perfeição pela sua simplicidade e descomplexidade. Numa guerra entre o
mundano e o religioso, temos o nascimento da amizade, a força da luta, a
capacidade de criar sonhos numa cozinha, de partilhar alegrias e tristezas ao
balcão acompanhados com uma bebida feita de chocolate.
Esta é uma daquelas escritoras raras que não precisa de
criar finais felizes para ser lida, basta-nos a expectativa do que aí virá,
basta-nos podermos nós leitores, imaginar e escolher o final para as nossas
personagens preferidas. Também é uma escritora que não precisa de grandes descrições,
apenas precisamos de ler entrelinhas, de sentir cada emoção e toque que
extrapolam das páginas numa mera palavra. E, para além disso, não cria vilões mas
personagens que necessitam de um pequeno empurrão, de uma pequena ajuda e algum
apoio e compaixão. Nenhuma personagem é perfeita, nenhuma tem um papel
determinante, elas são o que nos quisermos que elas sejam.
Mais uma vez, uma leitura maravilhosa de uma autora que
adoro e que me surpreende em cada livro com aquilo que é capaz de fazer. Agora estou
com vontade de rever o filme e regressar à Céleste
Praline.
7*


