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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Opinião - Chocolate

Título Original: Chocolat (#1 Trilogia de Chocolate)
Autor: Joanne Harris
Editora: Edições ASA
Número de Páginas: 264

Sinopse
 A aldeia de Lansquenet-sur-Tannes tem duas novas moradores: Vianne Rocher, jovem mãe solteira, e a sua filha Anouk. Ambas correram mundo e querem agora estabelecer-se, pelo que Vianne pensa montar um negócio. Um negócio aromático e guloso mas, naquelas paragens, pouco comum: uma chocolataria com o nome de "La Céleste Praline".
Para a aldeia, "La Céleste Praline" e a sua encantadora proprietária são um sopro de ar fresco frente à tirania de Francis Reynaud, um jovem padre de uma austeridade a raiar o fanatismo, que não oculta o seu desagrado por um comércio demasiado sofisticado e "tentador", e que vê em Vianne um desafio à sua autoridade. Frente a ele, a jovem Vianne só pode apelar à alegria de viver das gentes de Lansquenet...
Chocolate é um repertório de sabores, descritos de uma maneira tão viva que quase se sentem; é também uma galeria de personagens ternos e cruéis, amáveis e odiosos, sempre intensos e credíveis. Mas é sobretudo um romance tão ameno, tão rico e variado, que deixará nos seus leitores uma impressão imorredoira.


Opinião 
Filha de mãe francesa e pai inglês, Joanne nasceu em Barnsley no ano de 1964. Depois de estudar Línguas Modernas e Medievais em Cambridge, Joanne foi professora durante quinze anos e foi durante esse tempo que começou a escrever os seus livros, tendo publicado o seu primeiro livro em 1989. Entre 14 romances, um livro de contos e dois de cozinha, a autora já foi traduzida para mais de 40 línguas e os seus livros ganharam vários prémios, ingleses e internacionais.

Chocolate foi publicado em 1999 e em 2000, o realizador sueco Lasse Hallström realizou um filme baseado no livro, contando com estrelas como Johnny Deep, Juliette Binoche, Judy Dench, Lena Olin e Alfred Molina. O sucesso foi tal, quer nas prateleiras das livrarias como na tela do cinema, que a carreira de Joanne para sempre estará ligada a este livro, considerado o melhor da autora e o verdadeiro início da sua fama.
Espantem-se mas, apesar de Joanne ser uma das minhas autoras preferidas, só agora, anos depois de ter lido o primeiro livro desta autora e de ter visto o filme fantástico baseado neste livro, é que eu li Chocolate. Pode se dizer que a culpa será da minha mania de não ler os livros depois de ver os filmes mas eu lá ganhei juízo e como não vejo o filme há algum tempo achei que esta era a altura certa para regressar a Lansquenet-sur-Tannes e voltar a deliciar-me com algo que eu adoro, o chocolate, o qual Vianne transforma em algo ainda mais delicioso.
Neste livro, tal como nos outros, o que nos apanha desde a primeira linha é a escrita sensorial, mágica e envolvente tão típica da autora que se evidencia ainda mais pela simplicidade desta narrativa, tão longe de livros como Valete de Copas, Dama de Espadas ou O Rapaz de Olhos Azuis. A versatilidade da autora, capaz de escrever sobre qualquer coisa ou em qualquer época, destaca-se ainda mais neste livro, pelo simples facto de ser um livro fácil, com um enredo linear e nada complicado onde se evidenciam as sensações e ligações, sendo fácil ao leitor perceber a história do livro e acompanhar com a mente limpa, o dia-a-dia desta vila pacata e pitoresca mas tão fechada que será revolucionada por uma mãe solteira e a sua filha e uma chocolaterie.
Tal como a vila onde vivem, as personagens deste livro são um conjunto pitoresco e encantador, cheio dos hábitos típicos de um local onde todos se conhecem e todos sabem tudo sobre todos. Mesmo com as características clichés de quem vive num sítio pequeno, os habitantes de Lansquenet-sur-Tannes foram criados por uma mente que entende os anseios e os pensamentos das gentes em quem se inspirou, transpondo para as páginas cada uma das suas questões e problemas sem nunca abandonar a alegria e a esperança com que guardam os seus pequenos tesouros, os seus segredos, os seus sonhos. A chegada de Vianne vai despoletar uma guerra aberta à mudança, à alegria e à diferença, tornando o chocolate produzido por ela, um inimigo dos santos e bons costumes desta pobre gente simples que não entende os citadinos.
Este é um livro sobre a vida, sobre as mudanças que ocorrem num segundo e tudo alteram, sobre decisões, continuidade e morte. Disfarçado pelo senso de humor malicioso e charmoso da autora, o enredo enaltece o destino, a forma como a decisão de um pode mudar a vida de outro, como quem somos pode limitar o que fazemos ou o que queremos ou como a liberdade maior se pode tornar uma prisão sem saída. Aparentando uma história simples em que acompanhámos a vida diária de uma vila antiquada de província e os seus habitantes fechados mas desejosos de saber o que se encontra lá fora, em que acompanhamos os seus amores e zangas, os seus ódios de estimação, as amizades antigas e crescentes, num rol de tradições e vivências conjuntas partilhadas por várias gerações, Chocolate é um livro para pensar, para saborear como um chocolate que se derrete na boca, sentindo primeiro o sabor do chocolate que rodeia um recheio cheio de texturas, um conjunto de sabores que nos delicia e satisfaz e faz desejar ainda mais.
Através das características e vidas das suas personagens, de descrições tão sensoriais que fazem o leitor ver e sentir o que está a ler, e o seu já habitual timing perfeito para revelar informações chocantes, Harris criou algo de encantador e mágico, que raia a perfeição pela sua simplicidade e descomplexidade. Numa guerra entre o mundano e o religioso, temos o nascimento da amizade, a força da luta, a capacidade de criar sonhos numa cozinha, de partilhar alegrias e tristezas ao balcão acompanhados com uma bebida feita de chocolate.
Esta é uma daquelas escritoras raras que não precisa de criar finais felizes para ser lida, basta-nos a expectativa do que aí virá, basta-nos podermos nós leitores, imaginar e escolher o final para as nossas personagens preferidas. Também é uma escritora que não precisa de grandes descrições, apenas precisamos de ler entrelinhas, de sentir cada emoção e toque que extrapolam das páginas numa mera palavra. E, para além disso, não cria vilões mas personagens que necessitam de um pequeno empurrão, de uma pequena ajuda e algum apoio e compaixão. Nenhuma personagem é perfeita, nenhuma tem um papel determinante, elas são o que nos quisermos que elas sejam.
Mais uma vez, uma leitura maravilhosa de uma autora que adoro e que me surpreende em cada livro com aquilo que é capaz de fazer. Agora estou com vontade de rever o filme e regressar à Céleste Praline.

7*

sábado, 9 de junho de 2012

Opinião - Cinco Quartos de Laranja

Título Original: Five Quarters of the Orange
Autor: Joanne Harris
Editora: ASA
Número de Páginas: 320

Sinopse
 Framboise regressa à pequena cidade onde nasceu, na província francesa, e abre aí um restaurante que rapidamente se torna famoso, graças às receitas de um velho caderno que pertencera à sua mãe. Essa espécie de diário contém igualmente uns estranhos apontamentos cuja decifração lançará uma nova luz sobre os dramáticos acontecimentos que marcaram a infância da protagonista nos dias já longínquos da ocupação nazi.
Framboise recorda os sabores e os sentimentos da sua infância, numa França marcada pela dor e pela penúria da guerra, e muito especialmente um episódio que marcou a vida da família e constitui, para ela, a perda definitiva da inocência. Agora, já no Outono da vida, chegou a hora de enfrentar a difícil verdade.


Opinião 
 Publicada em mais de 40 países, vencedora de vários prémios, Joanne Harris é um dos nomes mais amados da literatura. Com fama granjeada graças à brilhante produção cinematográfica de Chocolate, são os seus livros que nos arrebatam a cada página, seja qual for a história que nos decida contar.
Com diversos temas e épocas, os seus livros podem conquistar qualquer tipo de leitor, mas tem sido os seus livros baseados na gastronomia, no ingrediente “secreto”, que mais têm deliciado os seus fãs. Cinco Quartos de Laranja faz parte dessa temática, de como certos alimentos e receitas podem influenciar a nossa vida de forma drástica. Da Trilogia da Comida que a autora iniciou com o célebre Chocolate e terminou com este livro, temos histórias díspares, protagonistas antagónicas e um elemento gastronómico muito especial.
Joanne Harris é uma das minhas autoras de eleição e tenho aproveitado para finalmente juntar todos os seus livros e ler aqueles que me têm escapado ao longo dos anos. Quem olha para as capas ou sinopses dos seus livros, não imagina o que eles podem conter, o quanto uma história sua é capaz de nos arrepiar, levar ao extremo da sanidade ou do emocional, a menos que tal como eu, seja uma leitora ávida dos seus livros que se apaixonou pelo primeiro que leu.
Este livro é uma daquelas obras-primas disfarçadas por uma capa simples e uma sinopse que nada nos diz e que guarda uma das suas melhores histórias. De uma forma inocentemente macabra, a autora transporta-nos para um local na França onde a II Grande Guerra quase passa ao lado mas que vai marcar uma família e uma vila de uma forma que ninguém irá esquecer. Através de um relato cheio de sombras e segredos, conhecemos a mesma pessoa em duas fases da sua vida, e em cada relato essa pessoa é nos revelada de diferentes formas e perspectivas, demonstrando-nos que a experiência e a vida podem marcar um indivíduo e mudá-lo para toda a vida.
Numa história chocante que nos enche de perplexidade e impotência, no seu habitual estilo único e marcante, Joanne mostra-nos que não há inocentes que os culpados muitas vezes não o são. Que no fundo, uma criança inocente, no meio dos seus medos infantis, na sua forma clara de ver a vida, pode causar a tormenta e a dor a todos os que a rodeiam.
Mais uma vez, senti-me puxada para o meio de uma história típica de Harris. Voraz, pensada, bela e irónica, onde cada acção e momento podem marcar toda uma vida, onde um simples erro pode condenar e alterar todo um destino. A forma como a autora nos leva em cada encruzilhada, sem temer o que iremos pensar, é brilhante e humana, onde a mente pode tomar decisões de forma tão pesada quanto o coração.
Com um leque de personagens simples, onde nada é o que parece, Joanne consegue transpor o que de mais cruel e mais benevolente o ser humano pode ter. Cada personagem sua é uma surpresa, cada uma delas na sua simples mortalidade pode impressionar-nos ou levar ao horror de um acto impensado. De todas as personagens da escritora, estas foram as que mais me chocaram, pela sua história dramática, pela crueldade da insensatez e da busca da independência ou do amor. Cada vez mais, fico espantada pela forma como a cada livro que leio desta escritora, fico a gostar ainda mais dela.
Com um plano histórico pouco habitual da época, longe da guerra e dos grandes ataques, longe das atrocidades e dos actos macabros que se viveram, a autora consegue com que sintamos como até no local mais remoto e longínquo, esse espírito de sobrevivência passou para todos os que viveram sobre o jugo nazi. É revoltante e chocante pensar quantos vidas se perderam por bugigangas e futilidades, é atroz como uma criança por amor e incompreensão pode provocar actos de tal crueldade.
Brilhante e antagónico, leva um leitor a extremos impensados, causando um tumulto de sensações que provoca uma leitura voraz. Cinco Quartos de Laranja é, talvez, um dos melhores livros de Joanne Harris e para mim, um marco do seu génio enquanto escritora.

7*

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Opinião - O Rapaz de Olhos Azuis

Título Original: Blue Eyed Boy
Autor: Joanne Harris
Editora: Edições ASA
Nº de Páginas: 432

Sinopse
 Ele conhece-a há uma eternidade e, contudo, ela nunca o viu. É como se fosse invisível para a mulher que ama. Mas ele vê-a a ela: o cabelo; a boca; o rosto pequeno e pálido; o casaco vermelho-vivo na neblina matinal, como algo saído de um conto de fadas.
Até agora, ele nunca se apaixonou. Assusta-o um pouco: a intensidade dessa emoção, a maneira como o rosto dela se intromete nos seus pensamentos, a maneira como os seus dedos traçam o nome dela, a maneira como tudo, de algum modo, conspira para que ela nunca lhe saia da cabeça…
Ela não sabe de nada, claro. Tem um ar muito inocente, com o seu casaco vermelho e o seu cesto. Mas por vezes os maus não se vestem de preto e por vezes uma menina perdida na floresta é bem capaz de fazer frente ao lobo mau…


Opinião 
 Muitos de vocês conhecem-na por Chocolate quer em livro, quer em filme. É autora bestseller e este livro recebeu um dos mais aclamados prémios de literatura inglesa. Escreve livros que são êxitos internacionais e tem milhares de cópias vendidas. Para mim, é uma das escritoras importantes da minha estante.
Ler um livro de Joanne Harris é como regressar a um local sobejamente bem conhecido mas que a cada regresso nos dá uma novidade como uma prenda de boas-vindas a casa.     Há anos que me apaixonei por esta escritora e pela sua escrita através de um livro que ainda hoje é um dos livros da minha vida e, apesar de à alguns anos não ler nada seu e ainda não ter lido tudo o que se encontra publicado, sinto que é uma forma de eu saber que sempre que precisar posso comprar um livro seu e voltar a sentir esta sensação de redescoberta. E, finalmente, deu-me uma dessas vontades de ler um livro dela que, como sempre, não me desiludiu.
Uma das coisas que eu venero em Joanne é a sua escrita. A forma como nos confunde para depois nos dar a luz, como as palavras parecem que escorrem pelos nossos olhos, pela maneira como nos descreve as mais variadas situações sem nunca nos dar um vilão e um herói mas sim emoções e sentimentos, o caos e a glória quer da maneira mais lunática, quer da maneira mais racional. Depois são as suas histórias. Não é para todos aquilo que ela faz, de nos contar uma história e a virar do avesso e não há ninguém que use as aparências e os espelhos como ela, de tal maneira que é sempre capaz de surpreender e no último minuto dar-nos a maior reviravolta. Para isso constrói personagens enigmáticas e misteriosas que são tudo menos o que aparentam ser.
O Rapaz de Olhos Azuis tem todos os ingredientes típicos de um livro desta escritora: o suspense, as mentiras e um grande segredo obscuro por trás de uma aparência polida. Não é um dos meus preferidos mas não deixa de ser excepcional. Não sei se foi por estar à muito sem ler nada desta escritora mas este livro agarrou-me de uma forma viciante em que eu não descansei até saber o desenrolar da história toda e, mais uma vez, foi apanhada de surpresa.
Com uma história diferente das que estou habituada desta escritora, este livro tem um conjunto de ingredientes explosivos que o tornam um dos que tem o rumo mais surpreendente. Através das reviravoltas mais inesperadas e com temas tão diversificados como o voyeurismo, a violência doméstica, o que se esconde por trás da Internet, Harris dá-nos uma obra mais forte e pode se dizer, mais obscura. Os seus livros já são por norma intensos e dramáticos mas este forma-se de uma maneira tão insuspeita que cada momento nos arrebata e deixa de queixo caído, tendo vários clímaxes que acabam num dos melhores finais que eu já li.
A juntar a um cenário inesperado temos personagens extremistas com demasiados segredos e vícios e uma personalidade nada evidente que aos poucos vai saltando cá para fora. Tenho a sensação que neste livro se juntou o grupo das personagens mais escuras que saíram da imaginação da escritora e também das mais frágeis, o que nos leva a querer deslindar as razões porque cometem certo tipo de acções e que relações existem entre elas.
Fiquei com a sensação que este livro tinha demasiada informação e que muita coisa pode ter passado ao lado dos leitores mais desatentos já que temos um enredo que contém subterfúgios dentro de subterfúgios dentro de subterfúgios. Mas apesar de um enredo mais complicado, Joanne continua a deter um timming perfeito.
Como disse não é um dos meus livros preferidos mas mantém o estilo inconfundível da escritora para além de ter uma das capas mais bonitas da editora. Permitiu-me passar umas horas de extrema concentração e foi uma leitura que me deixou mais que satisfeita.
Agora pergunto-vos: Ainda não leram Joanne Harris? Vão já arranjar um livro dela! Eu se calhar vou ver o Chocolate


6*