Título Original: The Light Behind the Window/ The Lavender Garden
Autor: Lucinda Riley
Editora: ASA
Número de Páginas: 496
Sinopse
Côte d'Azur, 1998.
Émilie lutou sempre contra o seu passado aristocrático. Agora, com a
morte da mãe, é obrigada a confrontá-lo pois é a única herdeira do
imponente castelo da família. Mas com a casa vem uma pesada dívida e
muitas interrogações: qual era a finalidade do quarto secreto que
descobre por baixo da adega? Quem é a misteriosa Sophia, que assina um
comovente caderno de poemas? Quem foram os protagonistas da trágica
paixão que mudou o curso da história da família? Londres, 1943. Em
plena Segunda Guerra Mundial, a inexperiente Constance Carruthers é
recrutada pelos serviços de espionagem britânicos e enviada para Paris.
Um incidente separa-a do seu contacto na Resistência Francesa,
obrigando-a a refugiar-se junto de uma família aristocrata que entretém
membros da elite de Hitler ao mesmo tempo que conspira para libertar o
país. Numa cidade repleta de espiões e no auge da ocupação nazi,
Constance vai ter de decidir a quem confiar o seu coração. Constance e
Émilie estão separadas por meio século mas unidas por laços que
resistiram à força demolidora do tempo. Os segredos que o passado
encerra pulsam ainda em busca de redenção.
Opinião
7*
Aos vinte e quatro anos, Lucinda já era uma estrela. Fosse,
cinema, televisão ou teatro, ela já tinha feito de tudo um pouco, menos pegar
na sua experiência e contá-la e, foi exactamente isso que fez, escreveu um
livro sobre as vicissitudes e brilhos da carreira de actriz. Sob o pseudónimo
de Lucinda Edmonds escreveu vários livros mas foi anos mais tarde como Lucinda
Riley que ficou conhecida. Em 2010 recomeçou a escrever e hoje tem três romances
publicados estando dois deles traduzidos cá.
A inspiração para Uma
Espia no Meu Passado veio enquanto Lucinda estava a trabalhar em A Menina na Falésia. Nessa altura,
estava a regressar à Grã-Bretanha com a família vinda da casa que têm na Côte
d’Azur quando decidiram ficar na Provença por uma noite. Enquanto percorriam as
estradas e pensavam que estavam perdidos, heis que apareceu na sua frente o
mais requintado château que alguma
vez tinham visto. No pátio a beber um copo de rosé com o cheiro da lavanda no
ar e apreciando as enormes e antigas janelas do château, Lucinda compreendeu
que o seu próximo livro iria ser situado ali. Uma Espia no Meu Passado foi publicado em 2012, está traduzido para
oito países e é o mais recente trabalho da autora.
Abre a alta janela e deixa o sol entrar, deixa o doce cheiro
da lavanda pairar no ar. De frente a estante, percorre com os dedos as lombadas
já usadas, acarinhadas pelos anos até chegares lá, ao pequeno caderno amarelado
pelo tempo. Retira-o com cuidado, sopra delicadamente o pó e o esquecimento da
sua capa, senta-te na cadeira almofadada e recosta-te. Abre-o com cuidado,
acaricia as suas páginas antigas e adoradas e prepara-te para uma história
sobre amores proibidos e coragem infinita num tempo onde a Morte caminhava lado
a lado connosco.
Dois destinos entrelaçam-se nas memórias de uma guerra. Um caderno
de poemas esconde vestígios de amores proibidos. Um livro valioso guarda a
amizade e a coragem de tempos de traição, ódio e luta. Numa época de morte, sentimentos
cresceram e perduraram em páginas empoeiradas até que o destino decidisse relembrá-las,
até que a história devesse ser contada.
Depois de A Menina na
Falésia, Lucinda havia arrebatado o meu coração, por isso, as expectativas
para este livro eram bastante elevadas e, mais uma vez, esta autora mostra que
para criar uma boa história, daquelas que somos incapazes de esquecer, é
preciso compreender a alma humana, perceber como os segredos são capazes de nos
corromper, que o passado marca-nos indefinidamente e que o amor não obedece a
quaisquer regras. De uma forma intensa, poderosa, lírica, ela quebra-nos,
arrasa-nos inúmeras vezes, faz-nos gritar contra o silêncio sobre as injustiças
e as dores, faz-nos chorar pelas pequenas réstias de felicidade pura que
podemos vislumbrar, faz-nos quedar em estupefacção e entendimento por gestos
inexplicáveis. Com uma capacidade inata àqueles que olham as recordações através
dos objectos simples que guardam na memória um toque mais cuidadoso, Lucinda leva-nos
através do tempo a uma viagem tão dolorosa quanto sublime.
A família é a
protecção, o amor incondicional, o perdão sempre esperado. É o nosso passado
que devemos cumprir ou com ele aprender, é o nosso presente de lições e
carinhos, é o nosso futuro para empreendermos o que nos foi incutido. É o que
nos torna o que somos, para o bem e para o mal. Aqui compreendemos o
significado das ligações do sangue, o quanto nos podem magoar por amor em
excesso ou por falta de atenção, o quanto nos podem marcar os segredos dos
nossos. Entre duas famílias, unidas num tempo e local, diferentes nos seus
corações, observámos, compreendemos as cicatrizes que o amor e o sangue são
capazes de nos deixar, os sacrifícios que por eles podemos fazer, os medos e os
sonhos aos quais nos condicionam.
Num tempo de horrores, a coragem pode ser gritada ou
silenciosa, pode vir de grandes actos ou de pequenos gestos, pode condenar-nos a
momentos parados no tempo, pode glorificar-nos com a vida marcada por
cicatrizes. Muitos foram os heróis da Segunda Grande Guerra e muitos foram os
esquecidos, entre eles os que tinham de sorrir ao inimigo com o coração cheio
de ódio para salvarem vidas todas as horas e mesmo assim puderem perder as
próprias. Em época de atrocidades e gestos macabros, era manter viva a chama da
esperança que salvava sanidades e aguentava almas atormentadas desejosas de um
fim. A guerra fazia-se por todo o lado, seja em campos sangrentos, banhos de
gás ou salões ricamente ornamentados e, mesmo em tempo de guerra, mesmo sobre a
dor e o ódio, podia florescer o mais delicado dos sentimentos.
Numa narrativa assombrosa, vivemos várias vidas em várias
épocas e locais, deixámo-nos esmagar pela força das emoções, pelas memórias
guardadas e relembradas. Através de um elenco de personagens apaixonantes,
corajosas e vívidas, aprendemos a vida tal como ela foi, como ela é, como ela
poderá ser. Por entre reviravoltas estonteantes, mágoas e sorrisos, somos
arrebatados para uma história que muda a nossa alma desde o fundo mais
recôndito. Com duas mulheres, aprendemos o que é realmente o amor e o
verdadeiro final feliz, aprendemos que a coragem vem tanto de tempos negros
como de necessidades interiores, que lar é mais do que um local, é as pessoas e
as memórias.
Uma Espia no Meu
Passado é feito de objectos esquecidos, memórias escondidas, segredos nunca
revelados. É feito de famílias feitas do amor e não do sangue, de sobreviver a
tudo e fazer tudo para salvar quem amámos, de saudades e caprichos. Mais um
excelente livro de Lucinda, mostrou-me que esta é uma autora que deve-se sempre
recordar e ler quando se pode porque as suas palavras mudam-nos e alcançam-nos
como uma força motriz de beleza etérea e sentimentos feitos de tempestades.
7*
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