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sexta-feira, 19 de abril de 2013

Opinião - A Rapariga Que Roubava Livros

Título Original: The Book Thief
Autor: Markus Zusak
Editora: Editorial Presença
Número de Páginas: 463

Sinopse
 Molching, um pequeno subúrbio de Munique, durante a Segunda Guerra Mundial. Na Rua Himmel as pessoas vivem sob o peso da suástica e dos bombardeamentos cada vez mais frequentes, mas não deixaram de sonhar. A Morte é a narradora omnipresente e omnisciente e através do seu olhar intemporal, é-nos contada a história da pequena Liesel e dos seus pais adoptivos, Hans, o pintor acordeonista, e Rosa, a mulher com cara de cartão amarrotado, do pequeno Rudy, assim como de outros moradores da Rua Himmel, e também a história da existência ainda mais precária de Max, o pugilista judeu, que um dia veio esconder-se na cave da família Hubermann. Um livro sobre uma época em que as palavras eram desmedidamente importantes no seu poder de destruir ou de salvar. Um livro luminoso e leve como um poema, que se lê com deslumbramento e emoção.

Opinião
  Filho de pai austríaco e mãe alemã, Markus cresceu a ouvir histórias da Alemanha Nazi, compreendendo o poder das palavras e dos símbolos e sabendo que a visão da Nação unida era tão real quanto a presença das pessoas que à sua maneira se debateram contra as amarras de um líder, de uma guerra e de um povo.


  Nasceu em Sidney, é o mais novo de quatro irmãos e aos trinta anos afirmou-se como um dos romancistas mais aclamados dos nossos dias mas não deixou de ser surfista nem de ver filmes. Pai de uma menina, Markus escreve livros para jovens e já foi galardoado com vários prémios.


  A Rapariga que Roubava Livros é o sexto trabalho de Markus e um fenómeno literário a escala mundial. Vencedor de quase dez prémios literários e nomeado para outros tantos, este é daqueles livros que ficará para a posterioridade, um futuro clássico que será lido por gerações. Neste momento a ser adaptado para cinema, deverá estrear no próximo ano e conta Geoffrey Rush e Emily Watson para o elenco.


  Para os amantes de livros, para os que apreciam a História da Segunda Guerra Mundial, para os que compreendem o conceito de amizade, honra e família, e para tudo o outro tipo de leitores, este é o livro que os irá inspirar.


  Esta é a história de uma rapariga que roubou um livro antes de saber ler. Esta é a história de uma rapariga que roubava livros em vez de comida. Esta é a história da rapariga que enfrentou a Morte e a inspirou.


  Na Alemanha Nazi havia mais do que o Partido e os seus longos braços. Existiam os Judeus. Existiam as classes baixas. Os que trabalhavam, morriam, os que tinham medo de levantar a voz. A raça perfeita também tinha imperfeições e este livro é a voz que lhes faltou. A voz dos que tinham fome, dos oprimidos, dos sacrificados, contada por aquela que foi a maior arma do Führer. A Morte. A bela, a brilhante, a sublime. É ela que nos conta o outro lado da História dos que se achavam vencedores e acabaram vencidos. É a sua voz que nos embala e aconchega aqui.


  Markus brilha neste livro com uma luz imensa, uma luz que se transcende nas suas palavras, que nos alcança a alma e se fixa nos nossos corações. De uma forma magistral, ele conta-nos uma história que podia ser igual a tantas outras mas que na sua inocência em tempos de crueldade nos arrebata como nenhuma outra, mesmo que saibamos que o Fim é certo e que ao virar de cada página podemos perder alguém de quem aprendemos a gostar e a admirar. 


  Este livro é sobre palavras, sobre o seu poder, e ninguém seria melhor para as usar pois Zusak compreende o seu âmago, dá-lhes vida, entrelaça-as com magia, transmitindo com elas sensações e sentimentos de uma forma tão sublime que não podemos, não devemos, deixar de nos enternecer, de chorar ou quebrar pela história destas palavras, destes livros, desta rapariga. A verdade, é que ele é o mestre e esta a sua obra-prima. 


  Com um ritmo cadenciado, pautado por verdades, fábulas e vozes sussurradas e um grito de revolta, este livro leva-nos a ver uma Alemanha vista pelos olhos das crianças. Produtos de uma educação, de um regime, de um tempo, elas viram, compreenderam e à sua maneira também mostraram o seu desagrado, também sussurraram, também esconderam, também tremeram. Nos seus corpos, os de Liesel e Rudy, sentimos as amarras do Nazismo, o medo, a incompreensão. Pelos seus olhos, vemos o lado dos que apoiavam, o dos que temiam, o dos que enfrentaram. Olhámos pelo olhar dos inocentes que à sua forma a despiram para envergar a casaca da mudança e da esperança. Vemos pelos seus olhos e pelos da Sábia quão efémera, suspensa e inacreditável é a vida.


  Nesta história sobre histórias e vidas, há duas personagens que se destacam. A protagonista, Liesel, a rapariga que roubava livros e a narradora, a Morte, a própria. Na primeira encontrámos as marcas de uma época negra e a força de uma educação pobre, por um lado doce, por outro mais bruta dígamos assim, mas onde o amor, a justiça, a compreensão e a lealdade existem mesmo que tenham de tremer por trás dos sorrisos. Enquanto a vida e a guerra passam por ela, Liesel enfrenta a Morte, lê e rouba livros, aprende na cave o que o mundo não lhe pode ensinar. Ela é o exemplo de uma inocência não desaparecida mas endurecida, de quem perde mas não desiste. Ela é a inspiração e o mote para a vida de muitos, até para a Morte. 


  Nesta história, a Morte é desmistificada. A Morte acompanha-te. Está ao teu lado, leva os teus, espera por ti. Neste livro ela é a narradora. Não, mais do que isso. Ela é A narradora, é o espírito, a transportadora das palavras, a arma do Mal que embala as almas no seu colo e lhes beija a testa. Por ela, sorrirão, segurarão o livro com mais força. Por ela, amarão ainda mais a rapariga que roubava livros. A Morte é a razão da magistralidade deste livro, é por ela, mais por ela, que o autor merece uma ovação pois a forma magistral como ele lhe dá vida, como ele a humaniza é de um talento sem igual porque depois de a conhecerem, nenhum outro narrador poderá ofuscá-la.


  Por entre personagens únicas e vidas ímpares, vivesse uma atmosfera de calma antes da tempestade. Cada um deles simboliza algo, vos dirá algo. Todos terão algo para vos contar e ensinar neste livro, nesta obra-prima que viverá gerações. 


  Um clássico da actualidade, um clássico que durará vidas, A Rapariga Que Roubava Livros é uma obra que palavra nenhuma pode descrever mas onde todas as palavras ganham vida.

7*