Título Original: Blood Red Road (#1 Dust Lands)
Autor: Moira Young
Editora: Editorial Presença
Número de Páginas: 336
Sinopse
Estrada Vermelha,
Estrada de Sangue é um thriller futurista, uma aventura épica que se
passa num período pós-apocalíptico e extremamente violento. Saba, a
protagonista, é uma jovem que viveu sempre em Silverlake, numa zona
remota, inóspita e quase deserta, até ao dia em que uma tempestade de
areia traz consigo um bando de terríveis criminosos que lhe matam o pai e
levam consigo Lugh, o irmão gémeo que ela adora. Sozinha com Emmi, a
irmã mais nova, Saba vai investir toda a sua coragem e o seu espírito
combativo na busca do irmão, numa demanda perigosíssima e empolgante,
através de intermináveis extensões desérticas e violentas intempéries,
que culminará numa apoteose de pura adrenalina.
Opinião
Nasceu no Canadá mas foi em Bath que encontrou o seu último
refúgio. Foi actriz, bailarina e cantora de ópera, uma mulher das artes da
música e da dança mas o seu coração sempre pertenceu aos livros. Como não havia
tanta escolha na sua adolescência como existe hoje, Moira leu os clássicos das
irmãs Brönte, Dickens e Eliot mas como preferidos, são ainda hoje, A Ilha do Tesouro e The Secret Garden. Em 2011 viu o seu primeiro livro ser publicado e
conquistar alguns dos prémios mais desejados do Reino Unido. O seu sucesso foi
tal que chega a ser comparado à trilogia de Os
Jogos da Fome.
Estrada Vermelha,
Estrada de Sangue saiu da mente de alguém que viveu na propaganda e
histerismo da Guerra Fria e de uma iminente catástrofe nuclear para uma geração
que hoje vive os problemas de um planeta sobrelotado, de alterações climáticas
que podem ser catastróficas. Foi assim que surgiu a ideia deste livro mas
coloca-lo em papel custou um pouco mais. Cinco anos depois de uma luta
estrangulada, Moira descobriu como dar voz a este livro, como dar voz a Saba e
a partir daí surgiu este sucesso, hoje traduzido para trinta países, com os
direitos vendidos para cinema e com a sua conclusão a menos de um ano de chegar
às livrarias.
No céu, as estrelas brilham. Contam histórias, decidem
destinos, guardam vidas. Na terra, a areia é vermelha, quente e densa. Esconde,
fortalece. Saba é guardada pelas estrelas, foi criada pelo deserto e é mais do
que ela própria imagina. Dentro dela há uma vontade férrea, uma certeza
inabalável, um amor destruidor. Pela sua metade, a sua metade iluminada, ela é
capaz de tudo, até arriscar a sua vida até ao limite. Levada pelo desespero e
pela vontade, ela percorre caminhos que nunca viu, torna-se uma heroína da
arena, transforma-se numa guia para os que lutam. O caminho que trilha não é
fácil mas traz surpresas e desilusões. Traz a vontade do seu coração e a do seu
ser. E Saba tem de ser suficientemente dura, suficientemente forte para travar
uma demanda que já não é só dela.
Moira entra no mercado literário com mais uma distopia mas
esta não é uma distopia qualquer. Através de uma linguagem que reflecte bem
quem é a personagem principal e qual a sua história, Moira dá-nos uma história
crua, dura e viciante, uma narrativa tão seca quanto um deserto e ao mesmo
tempo tão admirável que é impossível não corrermos as suas páginas com uma
vontade sobrenatural de querer saber mais. Utilizando as emoções mais puras do
ser humano, a autora leva-nos ao limite da agressividade, da decadência e da
coragem sem nunca nos deixar de espantar com a forma como retrata uma sociedade
acabada, perdida na ignorância e na pobreza cujos costumes remetem para uma
sociedade antiga, onde vícios e poder caminham de mãos dadas.
Através de uma viagem cheia de perigos, enganos e desvios,
Saba entrega-se de uma forma feroz ao seu objectivo. Custe o que custar, doa a
quem doer, ela só deseja uma coisa mas o destino e uma pedra estão prestes a
ensiná-la que o mundo e a vida têm muito mais para dar, muito para ensinar e
que talvez tudo o que ela pense saber não está assim tão certo. Num cenário
onde primitividade e resquícios do tempo presente se misturam de uma forma
quase perfeita, somos transportados para uma luta pela vida, pela salvação, por
um refúgio. Todo este livro é primitivo, quer em sensações, quer em
personagens, quer no cenário em que se passa. Este é o homem que esquece a
racionalidade por tudo, que mata sem peso de consciência, que traí pelo seu
bem, que engana pelos seus objectivos. Aqui nada é bonito tirando o mais
importante. A forma como cada personagem se entrega à outra, a forma intensa e
quase cega como gosta, a forma como se rende quando fica claro que isso é o
necessário.
Este mundo é construído em memórias passadas, decadência,
tristeza e envolve em sim factores de hoje e do passado. É uma conjugação audaz
de intensidade e ferocidade que nos prende e deixa maravilhados. Do deserto e
cidades destruídas passámos para uma arena, daí para um cenário quase luxuoso
de França do século XVII com plantações colombianas. Neste livro tudo se
conjuga e cria assim uma história fantástica onde os corações são bem guardados
por trás de olhares ferozes e bocas franzidas. Aqui sente-se com tal entrega
que nos deixa assoberbados mas fisicamente nunca se transparece, tal é a
necessidade de ser o mais forte.
Saba é uma protagonista que nos surpreende, que nos força a
olhar para o nosso interior, que nos marca pelo seu fervor e garra. Teimosa, feroz,
ela subjuga-nos com a sua força, com a sua personalidade dura, com a forma como
encara tudo a direito. Marcante, ela é uma daquelas protagonistas que nos fazem
ler um livro só para a conhecer melhor. À sua volta temos personagens marcadas
pela dureza da vida, personagens enigmáticas, corajosas, loucas até. Elas
formam um grupo formidável que irá marcar o leitor pela entrega, devoção e
destreza com que sobrevivem, se ajudam, se encaixam uns nos outros.
Um livro cuja continuação espero ansiosamente, Estrada Vermelha, Estrada de Sangue superou
todas as expectativas e demonstra que a distopia cada vez se singra mais pela qualidade,
diversidade e originalidade que trouxe ao palco literário. Uma estreia soberba
por parte de Moira, este livro vai deixar-vos assolapados.
6*
