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terça-feira, 2 de abril de 2013

Opinião - Delírio

Título Original: Fever (#2 O Jardim Químico)
Autor: Lauren DeStefano
Editora: Planeta Manuscrito
Número de Páginas: 232

Sinopse
 Rhine e Gabriel fugiram da mansão, mas o perigo nunca ficou para trás.
Para Rhine de dezassete anos, a arriscada fuga do casamento polígamo parece ser o princípio do fim. A evasão leva Rhine e Gabriel a uma armadilha sob a forma de uma feira popular, cuja dona mantém várias raparigas prisioneiras, Rhine acaba de fugir de uma prisão dourada para se meter noutra ainda pior.
A jovem acaba por percorrer um cenário tão sombrio como o que deixou há um ano - que reflecte os seus sentimentos de medo, desespero e desesperança.
Com Gabriel a seu lado está decidida a chegar a Manhattan para se encontrarem com Rowan, o irmão gémeo, mas a viagem é longa e perigosa e o que Rhine espera que seja uma segurança relativa revelar-se-á muito diferente.
Num mundo onde as raparigas só vivem até aos vinte anos e os rapazes até aos vinte e cinco, o tempo é precioso e Rhine não tem como escapar nem iludir o excêntrico sogro Vaughn, que está determinado a levá-la de novo para a mansão... a todo o custo.
Nesta sequela de Raptada, a heroína tem de decidir se a liberdade vale a pena, pois tem mais a perder do que nunca.


Opinião

O seu primeiro manuscrito foi escrito a caneta vermelha num papel amarelo e era sobre uma concha assombrada que comia crianças. Hoje, Lauren escreve ficção para jovens adultos, acabou de concluir a sua primeira trilogia e já está a trabalhar num novo livro, o que é caso para dizer que ainda bem que todos os seus outros trabalhos falharam e que ela decidiu dedicar-se à escrita. A miúda que começou a escrever histórias nos versos dos menus dos restaurantes virou escritora a sério e o seu trabalho já conta com traduções em mais de vinte países.

Pensar que podíamos nunca ter lido este livro parece irrisório mas Raptada viu a rejeição 140 vezes até ter sido aceite numa editora. Hoje, a trilogia já está terminada e Delírio, o segundo volume, chega agora a Portugal.

A liberdade é um bem precioso, algo que nos preocupa, pelo qual ansiámos mais do que conforto, luxo ou amor, é algo inerente ao ser e num mundo onde nada nos pertence, onde tudo está fadado, respirar a liberdade, mesmo a suja e decadente é como a primeira inalação de ar, algo puro e que nos devolve a esperança, que nos diz que o destino ainda é nosso para escrever.

Rhine deixou a vida perfeita, uma vida de beleza etérea, uma vida que podia ter tornado a sua futura morte mais suave mas os segredos que se escondem nela, os horrores que ela descobriu, as sensações que se permitiu sentir, quem ela é, não a deixa ficar e fá-la partir para onde sempre pertenceu. De uma prisão de gaiola dourada e sedas para um submundo de decadências e desespero, Rhine e Gabriel descobrem o pior, os horrores e a desistência de quem sabe que não há mais nada senão aceita e viver cada dia até ao último. Ao longo de perdas e sentimentos de revolta, eles têm de fugir e esconder-se, de crescer e decidir se a liberdade vale mais do que qualquer outra coisa pois ela pode ser ilusória, uma miragem que acaba numa casa queimada e nos sorrisos tristes, acaba onde a esperança é um mal, acaba quando as sombras envolvem e apertam cada vez mais o cerco à sua volta.

Lauren arrasou comigo no seu primeiro livro. A sua escrita tão simples e profunda, a complexidade por trás de pequenos gestos e palavras, a forma como ela deixa a nu cada personagem é um chamamento a que me foi impossível resistir e eu tinha, tinha de ler este livro assim que lhe peguei. Este segundo volume vai mais longe, liberta-nos e larga-nos num espaço desfeito, quebrado, onde a luz e as cores há muito desapareceram, onde a sobrevivência é a única razão de viver, onde as regras e o poder são símbolos de outras eras, onde a esperança tem de ser calada para se poder morrer em paz, onde a integridade, o respeito, a caridade são luxos com os quais já ninguém se importa. Por entre espaços decrépitos, escuros e desesperados, vamos percebendo o que a evolução fez à humanidade, as repercussões de se perder os filhos e filhas num sopro do vento, o que significa cada escolha e como cada um vive a morte diariamente porque, a verdade, é que a morte agora é uma companhia e a vida já está morta antes do primeiro grito de um bebé recém-nascido.

Se em Raptada vivíamos no meio da beleza fingida por entre amarras de cetim e sorrisos acabados, aqui temos o outro lado da moeda, o lugar de quem não pode facilitar a vida que leva, o lugar de quem tem de se sujeitar para viver, o lugar dos abandonados e dos esquecidos. Cada paragem é uma realidade, cada realidade é mais dura e desfeita que a anterior, cada uma delas mostra o degredo, a sujidade, a depressão em que cada pessoa vive, o que a perda da juventude pode fazer a uma sociedade. Os acontecimentos deste livro, recheados de dúvidas, expectativas e planos, são duros, caprichosos, fazem-nos devorar cada página com uma ansiedade que quase nos para o coração.

Enquanto vemos a relação de Rhine e Gabriel crescer de uma forma intensa e próxima psicologicamente, vemos a inocente Rhine ganhar aspereza, vemos Gabriel ganhar força, vemos a frieza e a objectividade envolvê-los, vemos o amor e a crença em cada gesto de apoio e confiança mas também sentimos os perigos, também percebemos a proximidade do mal, sabemos que fugir nem sempre é fácil e vencer não é simples. Às vezes o símbolo de conforto e carinho pode ser uma arma para nos prender, às vezes os nossos olhos mostram demais e deixam tudo a descoberto, às vezes a nossa alma é tão, tão transparente e o inimigo é mais poderoso, tem mais armas de que se servir.

As reviravoltas que antecedem o fim são explosivas, parece que o fim está tão perto e o sonho tão inalcançável, parece que desistir é a única forma de parar os pesadelos, as alucinações, parece que tudo à volta de Rhine se desmorona, que cada toque seu, é como uma condenação para uma existência precária. A forma como as personagens crescem neste livro arrepia-nos pois já não são mais inocentes à espera do matadouro mas guerreiros que vestem as dores e os erros, que se armam com coragem e esperança contra a Natureza, contra a evolução, contra a morte precoce. Vamos rever personagens, conhecer outras e cada uma vai ensinar-nos algo, cada uma tem o seu destino e a sua história, cada uma vai ganhar um pedaço da nossa pena e fé.

Surpreendente, assustador, brilhante, Delírio é a sequela que não desilude, que nos agarra e leva numa viagem onde a pureza é oprimida, onde a juventude nunca existe e a cura pode ser um mal destruidor. 
6*

As minhas opiniões da série:
Raptada

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Opinião - Raptada

Título Original: Wither (#1 O Jardim Químico)
Autor: Lauren DeStefano
Editora: Planeta Manuscrito
Número de Páginas: 256

Sinopse
 Graças à ciência moderna, todos os recém-nascidos são bombas-relógio genéticas - os homens só vivem até aos vinte e cinco anos e as mulheres até aos vinte. Neste cenário desolador, as raparigas são raptadas e forçadas a casamentos polígamos para que a raça humana não desapareça. Levada pelos Colectores para se casar à força, Rhine Ellery, uma rapariga de dezasseis anos entra num mundo de riqueza e privilégio. Apesar do amor genuíno do marido Linden e da amizade relativa das suas irmãs-esposas, Rhine só pensa numa coisa: fugir, encontrar o irmão gémeo e voltar para casa.

Mas a liberdade não é o único problema. O excêntrico pai de Linden está decidido a encontrar um antídoto para o vírus genético que está prestes a levar-lhe o filho e usa cadáveres nas suas experiências. Com a ajuda de um criado, Gabriel, pelo qual se sente perigosamente atraída, Rhine tenta fugir no limitado tempo que lhe resta.


Opinião 
 Começou por escrever pequenas coisas nos menus infantis dos restaurantes, que guardava na mala da mãe para nunca perder as pequenas histórias que escrevi quando estava entediada. Mais tarde, uma professora entusiasmou-a a pensar numa carreira literária. Estava no quinto ano. Lauren DeStefano sabia que queria escrever, que contar histórias não era um hobbie mas algo para a vida e isso levou a tirar um curso de Escrita Criativa e a terminar o seu primeiro manuscrito completo, que depois de 140 rejeições, foi aceite numa editora e em 2011, o primeiro livro de Lauren era uma realidade.

Raptada surgiu do nada, de uma notícia vista na televisão sobre alterações genéticas, do fascínio da autora pelo pensamento da Natureza poder ser alterada e do que aí poderia advir, da imaginação de uma rapariga curiosa, até se tornar numa das distopias mais faladas do momento. Nomeado para o prémio ALA Teen’s Top Tem Award 2012, foi receptor de várias críticas positivas, incluindo da autora de Floresta de Mãos e Dentes e já foi traduzido para 26 línguas.
Esta não é uma obra-prima, nem me parece que vá causar o caos como outras séries deste género mas é um livro que os fãs das distopias vão saborear se o lerem de mente aberta e sem ânimo leve, pois esta é uma caixinha de surpresas não muito espalhafatosa, antes uma leitura que se entranha e se espalha pela nossa mente, pelo nosso coração, que nos faz reflectir e sentir em grandes medidas. Este livro tem uma escrita simples, todo ele é tal e qual o mundo que autora criou, a própria escrita dela reflecte o que é este novo mundo, do que foi ele construído, quais são os seus alicerces. Parecer-vos-á muitas vezes superficial, antagónico, cruel, e aí está a essência que torna este livro algo muito maior do que eu estava a espera. A história que irão ler, está inscrita no world building, nas personagens, nas descrições, nos próprios sentimentos que a leitura transmite, tudo isto transmite e é sinónimo daquilo que Raptada realmente é.
A ideia da vida acabar quando para nós mal começa, devido à ambição humana de se tornar perfeita, é uma ideia cruel e dolorosa e enquanto o leitor se revolta contra esta ideia, se enfurece contra um destino provindo da nossa superioridade científica, assistirá à aceitação das personagens que a sua vida é curta, que em pleno auge da beleza, rapazes e raparigas murcharão, que crianças serão criadas sozinhas, abandonadas, compradas, que a sua realidade rapidamente terminará e que cedo, muito cedo, se tornam demasiado maturas para encararem este mundo tão superficial, tão belo, tão cruel. Tudo isto é nos transmitido sem grandes arrebatamentos de fúria mas antes como algo que faz parte da realidade das personagens pois elas apenas conhecem este mundo, esta forma de vida e o nosso mundo é um sonho, histórias irreais para serem contadas à noite aos filhos. Assustará por vezes, assistir a crueza desta rotina, à forma como o ser humano é capaz de se adaptar a formas de vida antes impensáveis, como aceita o seu curto destino sem se atrever a acreditar, a ter esperança, conceito este que morreu há tanto tempo que já nem se sabe o que significa.
Através da evolução científica, a autora toca noutros temas como a poligamia, o culto, o tráfico humano, a disparidade entre classes sociais, a liberdade, unindo todos estes pontos de forma a criar uma trama credível, que dentro de um único espaço, se vai desenvolvendo a nossa volta, dando-nos novas perspectivas sobre estes temas, criadas conforme esta história se vai abrindo e alcançando-nos. Tudo nos parecerá falso, artificial, demasiado perfeito, quase como uma casa de bonecas, onde todas são lindas, exóticas e diferentes, quase como dondocas sem nada para fazer sem ser ler, conviver e ir a festas enquanto por dentro exasperam, desejam mais, querem mais.
Ninguém poderá entender este livro sem olhar para as suas personagens, estas quatro raparigas tão diferentes que partilham um destino e um marido. Cada uma delas representa uma visão, uma forma de estar e todas se complementam. São quatro raparigas em fases diferentes da idade, umas mais perto e outras mais longe da morte mas todas a olharem para essa meta como uma bomba-relógio. Por trás das faces de bonecas, escondem-se desejos, lutas, passados, entes queridos, verdades escondidas e mentiras descaradas, todas provêm de situações sociais diferentes e cada uma delas tem uma maneira de conviver com a sua nova vida. Rhyne é uma protagonista e uma narradora à altura, cheia de defeitos, sem a doçura e a sensibilidade mas uma vontade louca de ser mais, de ser feliz pelo tempo que lhe resta. Não é crédula mas no meio de toda a sua dureza, a inocência de quem sempre viveu à parte consegue conquistar-nos, pois ela é uma ponte entre dois extremos que tentará de tudo para não ruir.
Sendo um livro juvenil, também este tem um casal e uma história de amor mas esta é diferente de tudo o que leram no género, primeiro porque é algo de secundário na narrativa e por vezes chega a soar a lago forçado, o que é desculpável por ser o primeiro livro da autora, e segundo porque este é um amor diferente dos outros, inocente, doce, insuspeito, feito de pequenos gestos e atitudes, quase como um namoro à antiga mas no futuro. É um romance que nos faz torcer pelas personagens mas que não vai tirar a nossa atenção do resto do enredo nem monopolizar-nos ao longo da leitura, é mais um acessório necessário ao próximo livro.
Confesso que aguardo o próximo livro com expectativa, quero ver até onde Rhyne irá, se haverá antídoto, como é o resto deste mundo artificial, quero saber mais, pronto. Fiquei curiosa, enternecida, enfurecida. Li o livro rapidamente e senti-me satisfeita no fim da leitura e isso é sempre o que importa. Este pode não ser um livro brilhante mas é um livro que merece ser lido e apreciado, quer pelos fãs de distopias, quer pelos de ficção-científica que não se importem de ler algo mais leve, quer por qualquer um que goste de livros juvenis. 

6*