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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Opinião - O Medo do Homem Sábio *parte 1*

Título Original: The Wise Man's Fear (#2.1 As Crónicas do Regicida)
Autor: Patrick Rothfuss
Editora: Edições ASA
Número de Páginas: 702

Sinopse
 Agora em O Medo do Homem Sábio, Dia Dois das Crónicas do Regicida, uma rivalidade crescente com um membro da nobreza força Kvothe a deixar a Universidade e a procurar a fortuna longe. À deriva, sem um tostão e sozinho, viaja par Vintas, onde, rapidamente, se vê enredado nas intrigas políticas da corte. Enquanto tenta cair nas boas graças de um poderoso Nobre, Kvothe descobre uma tentativa de assassínio, entra em confronto com um Arcanista rival e lidera um grupo de mercenários, nas terras selvagens, para tentar descobrir quem ou o quê está a eliminar os viajantes na estrada do Rei.
Ao mesmo tempo, Kvothe procura respostas, na tentativa de descobrir a verdade sobre os misteriosos Amyr, os Chandrian e a morte da sua família. Ao longo do caminho Kvothe é levado a julgamento pelos lendários mercenários Adem, é forçado a defender a honra dos Edema Ruh e viaja até ao reino de Fae. Lá encontra Felurian, a mulher fae a que nenhum homem consegue resistir, e a quem nenhum homem sobreviveu… até aparecer Kvothe.
Em O Medo do Homem Sábio, Kvothe dá os primeiros passos no caminho do herói e aprende o quão difícil a vida pode ser quando um homem se torna uma lenda viva.


Opinião
Sete anos. Sete anos das mais variadas experiências, dos estudos mais estranhos, do aprimoramento de certas artes, de novas aventuras foi o que antecedeu a entrada de Patrick na Universidade. Dois anos foi o tempo que demorou a descobrir que ainda não era aquilo que queria na vida mas sim ser professor. Ao total, foram catorze os anos da sua vida dedicados a escrita de um livro, um livro que seria um sucesso e o novo monumento da Fantasia e que acompanhou uma grande fase da sua vida, das indecisões às certezas, do desejo à realização, de um professor a escritor reconhecido.

Actualmente, O Nome do Vento tem 64 edições, já ganhou diversos prémios e os fãs aguardam ansiosamente a publicação de The Doors of Stone, a terceira e última parte da trilogia, que parece ainda vir longe. As Crónicas do Regicida é já uma das obras obrigatórias das listas de livros de fantasia a ler, acompanhando Tolkien, Martin e Robert Jordan, entre tantos outros.
Dez meses depois regressei à Universidade. Voltei a sentar-me na estalagem para continuar a ouvir a história de Kvothe, para me deixar enredar ainda mais na lenda que foi a sua vida, para desejar juntamente com Bast que o estalajadeiro deixe que a chama volte de novo a arder, para que a lenda renasça, para que o ruivo volte a tocar as suas canções. Ler este livro, é exactamente isto, é sentir que estamos lado a lado com as personagens, a partilhar as mesmas histórias, a contar as mesmas piadas, a sentir o mesmo medo pois Rothfuss não é outro senão um bardo dos tempos modernos que nos transporta através da melodia das sensações, que nos leva mais além através da sua escrita encantadora, poderosa e antiga, onde a magia, a coragem e um único homem podem fazer-nos suster a respiração e desejar que esta história nunca acabe.
Quando iniciei esta leitura tinha a sensação que não recordava muito e que me ia sentir perdida quando a começasse mas assim que li as primeiras páginas percebi que a minha mente estava apenas a espera que este regresso se desse. Ao longo da leitura, Patrick vai-nos relembrando personagens, pequenas acções e ligações do livro anterior para que o leitor não se sinta perdido mas perfeitamente coordenado com a história, o que torna esta leitura, tal como a do livro anterior, fluída, envolvente e completamente imparável. Conforme vamos acompanhando Kvothe nas suas novas aventuras, nas suas pequenas vitórias e derrotas difíceis, é fácil nos irmos apaixonando por este ruivo teimoso, de bom coração, de grande lábia e presença pois ele é um símbolo de grandes feitos, de desejos comuns, de heróis e de solitários. Esta personagem é um espelho onde um jovem normal e cheio de força de vontade e poder interior estuda, convive com os amigos, comete pequenos delitos, apaixona-se, comporta-se como um adolescente que do outro lado é um homem que é mais do que qualquer outro, que já tudo viu e venceu, que anos de experiência marcaram e só quer voltar a ser aquele rapaz.
Ao dar-nos o passado e o presente de Kvothe, o autor atraí os nossos sentimentos, puxa a nossa alma de encontro a esta personagem, por um lado tão cheia de vida, por outro já tão cansada de viver, e consegue conquistar-nos e prender-nos de uma maneira que só a ambiguidade desta personagem consegue. Capaz dos momentos mais tolos ou mais enternecedores, de ser tão ruim quanto bom, tão inteligente quanto ignóbil, Kvothe dá-nos uma história sem restrições, recheada de magia, amizade e comandada pelos fios que regem os destinos dos mais audazes. Da Universidade às estalagens e tabernas, das ruas aos recantos escondidos, de dia ou de noite, sozinho ou acompanhado, seja qual for o caminho que seguirá, seja-nos dada uma canção, uma prenda ou um abraço, o leitor será levado a percorrer caminhos nascidos das orbes dos tempos antigos, os caminhos que só as lendas e a imaginação se atreveram a pisar.
Juntem ainda um elenco de personagens tão soberbas quanto complexas, com os seus próprios segredos e demandas, cujos destinos se entrelaçam com o do protagonista mas que não deixam de ter a sua própria personalidade, o seu toque pessoal e o seu próprio destino. Também a magia da escrita de Rothfuss nos deixa ávidos, sequiosos mesmo de saber tudo o que se passa, passou ou deixou de passar na história do Regicida. Chamar bardo ao autor não é um exagero, é uma verdade natural, básica, pois existe musicalidade nas suas expressões, na forma como transforma os momentos, como entrega por inteiro os sentimentos, como consegue conquistar o público com um simples gesto.
Através de um mundo criado para se encaixar na perfeição com esta narrativa tão simples quanto poderosa, vivemos momentos de perigo, momentos de puro riso ou uma intensa fúria. Somos capazes de nos deixar adoçar e perdoar ou somos tentados a endurecer o coração. Percebemos o sentido da amizade, da espera, da ambição. Saboreamos o sabor amargo da derrota, deixamos a frustração domar-nos. Mas mais do que isso, de livre vontade, caímos nesta história, acreditámos e vivemos, somos encantados e enredados nesta narrativa que cheira a trovas e demandas heroicas.
Esta é a trilogia para aqueles que esperam por Martin, que adoram fantasia ou, simplesmente, boas histórias, boas personagens ou grandes livros. Esta é a trilogia que darão aos vossos filhos para ler quando eles acabarem Harry Potter mas ainda não tiverem idade para as Crónicas de Gelo e Fogo. Esta é a trilogia que viverá gerações e que relerá vezes sem fio.

7*

As minhas opiniões da série:
O Nome do Vento

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Opinião - O Nome do Vento

Título Original: The Name of the Wind (#1 The Kingkiller Chronicle)
Autor: Patrick Rothfuss
Editora: Gailivro
Número de Páginas: 966


Sinopse
 Da infância como membro de uma família unida de nómadas Edema Ruh até à provação dos primeiros dias como aluno de magia numa universidade prestigiada, o humilde estalajadeiro Kvothe relata a história de como um rapaz desfavorecido pelo destino se torna um herói, um bardo, um mago e uma lenda. O primeiro romance de Rothfuss lança uma trilogia relatando não apenas a história da Humanidade, mas também a história de um mundo ameaçado por um mal cuja existência nega de forma desesperada. O autor explora o desenvolvimento de uma personalidade enquanto examina a relação entre a lenda e a sua verdade, a verdade que reside no coração das histórias. Contada de forma elegante e enriquecida com vislumbres de histórias futuras, esta "autobiografia" de um herói rica em detalhes é altamente recomendada para bibliotecas de qualquer tamanho.

Opinião

Com quase mil páginas, este é um livro que promete arrebatar-vos através de uma lenda sem precedentes. Considerado “a” bomba lançada no panorama fantástico dos últimos anos, deu ao seu escritor, Patrick Rothfuss, estatuto para ser comparado a grandes nomes da Fantasia como George R. R. Martin. Fala-se em O Senhor dos Anéis e Harry Potter mas a sua premissa por si só, basta para pôr qualquer fã de histórias épicas a “salivar” por mais.
Só há alguns meses é que ouvi falar neste livro e na altura achei que era o tipo de leitura que me ia agradar. Comprei-o, passado pouco tempo mas o seu tamanho e a falta de tempo para ler tal calhamaço fez com que o guardasse para o início deste ano, quando iria ter mais tempo. E assim foi. O problema é que tive um desgosto logo nas primeiras páginas, visto que ao virar uma página ia ficando com ela na mão (as primeiras dez páginas estão meia soltas neste momento) e deparei-me com as tais margens e letra gigante de que todos já se queixaram, o que me pôs logo mal-disposta porque dar vinte euros por um péssimo trabalho não é algo que agrade a ninguém! Portanto, foi meio irritada que me iniciei no relato de Kvothe.
A verdade é que passadas trinta páginas, já nem me lembrava da folha meia solta. Fiquei tão absorvida pelo ritmo cadenciado das palavras do estalajadeiro que só levantei os olhos do livro passadas umas duas horas e só conseguia perguntar a mim mesma como é que este livro se tinha escapado do meu radar durante tanto tempo!
A forma como Rothfuss nos apresenta as Crónicas de Kvothe é a de um contador de histórias que não gosta que nada fique por contar e que pode surpreender-nos a qualquer um momento. Cada aventura, cada desafio, é nos relatado de uma forma musicalmente brilhante que nos deixa rendidos a cada palavra. . Chegar ao fim de quase mil páginas e depararmo-nos com o facto de que ainda falta tanto para descobrir é quase de levar uma pessoa ao desespero.
Acompanharmos o crescimento de Kvothe, passo a passo, por entre as suas vitórias e derrotas, deixando-nos conquistar pelo seu relato e pelos seus momentos de transtorno, ansiando para que ele continue e nos conte mais e mais, é um dos factores que me fez ficar rendida a este livro. O próprio Kvothe é o outro. Tentar discernir como é que o rapaz que conhecemos neste primeiro volume se torna a personagem lendária de que o estalajadeiro fugiu é uma das razões porque somos levados a devorar este enormíssimo calhamaço sem nos cansarmos. Complexo, misterioso, inesperado, são alguns dos adjectivos que pudemos usar para classificar o protagonista deste livro que com uma voz única nos conta a verdadeira versão por trás do mito.
Juntando a isto, uma série de personagens interessantes cheias de segredos e muitos risos, este é um início fabuloso para uma trilogia que já está a dar que falar. Espero que as personagens femininas ganhem mais destaque no próximo livro porque apesar de ter gostado da Denna, gostava de ver um bocado mais da Auri, da Fela ou da Devi. Mas a personagem que me deixou mesmo curiosa foi o Elodin. Ele é completamente insano, o que só nos faz pensar no que será que ele esconde…
Independentemente de como vai isto acabar, uma coisa é certa, Rothfuss tem a voz dos trovadores antigos na sua escrita, das velhas canções, dos contos populares. E apesar de ter achado que estas quase mil páginas nos contaram pouco e que ele podia ter acelerado um bocadinho, posso dizer que foi uma leitura descomunal. E que espero muito mais do próximo.
Resumindo, é a obra que ganha contornos épicos e que promete deixar-nos totalmente rendidos. Se vai ou não ser algo digno das maiores obras da Fantasia, ainda não sei, mas que me enche de satisfação tê-lo lido é uma certeza.

7*