Autor: Bernard Cornwell
Editora: Planeta Editora
Número de Páginas: 440
Sinopse
O REI DO INVERNO conta a mais fiel história de Artur, sem os exageros míticos de outras publicações. A partir de fatos, este romance genial retrata o maior de todos os heróis como um poderoso guerreiro britânico, que luta contra os saxões para manter unida a Britânia, no século V, após a saída dos romanos. "O livro traz religião, política, traição, tudo o que mais me interessa," explica Cornwell, que usa a voz ficcional do soldado raso Derfel para ilustrar a vida de Artur. O valoroso soldado cresce dentro do exército do rei e dentro da narrativa de Corwell até se tornar o melhor amigo e conselheiro de Artur na paz e na guerra.
Opinião
Bernard Cornwell nasceu em 1944, filho de uma enfermeira
inglesa e de um aviador canadiano, foi adoptado por uma família pertencente aos
Peculiar People, um grupo de protestantes que aboliram todo o tipo de
frivolidades e medicina. Criado no Essex, Bernard foi enviado para o Monkton Comb
School e depois entrou para a Universidade de Londres, deixou de ter contacto
com as pessoas que o criaram e adoptou o nome do meio da mãe, Cornwell.
Trabalhou como professor, na BBC’s Nationwide e foi editor
da Thames News. Tentou alistar-se no exército britânico três vezes sem sucesso
devido ao grau elevado da sua miopia. Quando casou com uma americana em 1980
foi viver para os Estados Unidos da América e começou a escrever livros, tendo
sido a sua maior influência o escritor C.S. Forrester, cujos livros lia em
criança. A série Sharpe começou em
1981 e após estarem oito livros publicados a série foi adapatada na televisão
com Sean Bean no papel de Sharpe. Apesar de todas as séries que escreveu foi
esta e a do Senhor da Guerra que lhe
deram o reconhecimento.
Quando ouço falar em Cornwell, ouço falar numa série de
livros que ficou conhecida pela sua qualidade histórica em relação ao ciclo
arturiano e que muitos elogiam sem cessar. Apesar de não ter muita sorte com os
livros sobre o género, quando o ano passado estudei o tema decidi que era desta
que iria ler a famosa trilogia, nem que fosse para ficar a conhecer uma versão
mais realista sobre a personagem que a literatura ocidental não abandona desde
há séculos.
O relato de Cornwell é preenchido por uma escrita crua,
realista e o mais verídica possível com a época em que situa o seu livro, não
falo em historicamente bem feito porque o autor baseia-se numa das muitas
teorias existentes sobre o Artur histórico, não lendário. Sendo a mais provável,
estamos perante uma narrativa que foge do imaginário, da feitiçaria e da lenda,
em que muitos poderão não reconhecer tudo aquilo que ouviram falar sobre este
leque de personagens em que se basearam tantas outras da literatura ocidental
mas onde poderão sentir-se satisfeitos por conhecer uma vertente mais realista
da história.
Situado no século V d.C. o Rei do Inverno fala-nos sobre os vários reinos e territórios
bretões, em guerra entre eles, com os saxões e já longe da influência romana que
espreita de tempos a tempos, fala-nos de uma batalha religiosa onde cristãos
lutam contra as raízes celtas, onde bispos tentam combater a força dos druidas.
Uma guerra em momento de mudança, entre o antigo e o novo, este é um livro de
guerra, de atrocidades, de forças humanas em batalha sobre a égide de chefes e
deuses, em que tudo passa e nada termina. Neste aspecto histórico, o livro está
bem conseguido e apresenta coerência a chamada Idade das Trevas da
Grã-Bretanha, de que pouco ou nada se conhece e onde podemos encontrar várias ligações,
teorias e factos desta época obscura.
Apesar de me ter sentido satisfeita neste prisma, tenho de
confessar que não me vão ver a ler Cornwell pelos próximos tempos, o que deve
deixar quem me conhece um pouco pasmados. A verdade é que coerência histórica
não chega para adorarmos um livro e eu senti-me longe desta narrativa ao longo
da leitura. A forma como o autor expõe a história deixou-me insatisfeita pois
senti-me longe das personagens principais do livro e não consegui criar ligação
com o narrador, mesmo sendo uma das melhores personagens do livro. Estando longe
da lenda, penso que devia existir uma maior proximidade então com o grandes
protagonistas e não com uma personagem que não me disse nada.
O meu problema com o livro foi a falta de ligação às
personagens, não tendo simpatizando com nenhuma em especial, tendo ficado com a
sensação de que não fiquei a conhecer as pessoas por trás da lenda mas uma
versão dura, cruel e demasiado distante pois não consegui fazer a ponta entre a
personagem lendária e a provavelmente histórica. A ajudar, as personagens que
mais queremos ver, só se dão a conhecer a meio ou mais para o fim do livro e
quando finalmente aparecem não correspondem as expectativas e, por isso, fiquei
com um grande ar de desilusão. Queria mais daquelas personagens, muito mais. O Artur,
Senhor da Guerra, não tem a presença poderosa que esperamos, Morgana
praticamente nem se vê e desaparece a dada altura, Merlim aparece no fim, e
desculpem a expressão, é intragável e quanto a Lancelot, não comento. A única
personagem que gostei de ver longe da donzela dedicada e doce foi Guinevere mas
que está longe de ser simpática.
Já as descrições são brilhantes mas lá está, a maior parte
da acção está afastada do centro da narrativa e só queria andar para a frente
para ver o que se passava com as outras personagens. Aquela que foi para mim a
parte interessante foi a perspectiva entre aquele que conheceu Artur contra a
perspectiva já lendária de Artur, as opiniões divergentes, a influência do
conto oral, a vontade de criar um herói perfeito que, na realidade, não o era
assim tanto. Tinha as expectativas demasiado elevadas e não foi o que esperava,
para grande tristeza minha.
Cornwell é um contador de histórias que não está aqui para
romancear mas sente-se o seu cunho pessoal, a sua visão de uma lenda que irá
perseguir a Ocidentalidade por muitos e muitos séculos e a sua coragem em
contar a sua versão da história a que ser elogiada.
Para quem gosta do ciclo arturiano, da parte mais bélica e
espera uma versão longe de magia, e incredulidade, aconselho o livro mas atento
que não se pode falar em versão histórica mas em uma das teorias da suposta
existência de Artur. Para quem quiser situar-se melhor, aconselho Artur, Rei dos Bretões de Daniel Mersey
para ficarem a conhecer todas as vertentes, hipóteses, teorias e curiosidades.
4*
