Título Original: The Aftermath
Autor: Rhidian Brook
Editora: ASA
Número de Páginas: 328
Sinopse
Em 1945, enquanto o
mundo celebra a vitória sobre o exército nazi, a Alemanha derrotada é
dividida. De um lado, a União Soviética. Do outro, os Estados Unidos, a
Grã-Bretanha e a França. A Guerra Fria está prestes a começar. Em
Hamburgo, grupos de crianças esfomeadas vasculham os destroços em busca
de alimentos, famílias desalojadas lutam por abrigos imundos. É nesta
cidade arruinada que o coronel Lewis Morgan é encarregado de repor a
paz. O governo inglês requisita uma casa para o acolher a ele e à
família. Aos proprietários da mansão resta a indigência. É então que o
coronel propõe uma solução inédita: a partilha do espaço. Mas ao
contrário do que coronel espera, este pacto vai ser explosivo. A sua
mulher, Rachel, vive fechada em si própria. O filho de ambos, Edmund,
debate-se com uma solidão extrema. A alemã Freda é a adolescente
rebelde, filha de Herr Lubert, um homem de elite inconformado com a
submissão que lhe é imposta. Entre segredos e traições, a vida na casa é
uma bomba-relógio que uma paixão proibida ameaça ativar.. Baseado no
extraordinário ato de bondade do avô do autor, O Despertar do Mundo
pinta um retrato único da guerra vista do lado dos perdedores.
Opinião
Impedido de trabalhar por dois anos, Rhidian começou a
escrever algumas histórias quando se sentia com energia e, quando ganhou um
concurso de contos na Time Out em 1991, ganhou confiança para escrever mais
ainda. Mesmo quando ficou melhor e voltou ao trabalho, continuou a escrever, publicou
mais uma série de contos em diversas revistas e iniciou o seu primeiro livro, que
viria a ser publicado em 1997. Depois de ter lançado o seu segundo romance,
dois anos depois, Rhidian pensou em dedicar-se por completo à escrita mas não
conseguiu escrever um terceiro livro e dedicou-se a escrever guiões para a BBC.
Escreveu um livro sobre a pandemia das DST no Exército da
Salvação depois de uma viagem de nove meses por África, Índia e China, durante
a qual fez transmissões para a BBC World Service e para a Radio 4. Continuou a escrever
guiões e um deles tornou-se no seu terceiro muito desejado romance, uma
história baseada nas experiências do seu avô na Alemanha pós-Segunda Guerra.
O Despertar do Mundo foi
publicado o ano passado e os seus direitos já foram comprados para vinte e três
países.
À primeira vista, este poderia ser mais um livro sobre a II
Guerra Mundial mas, surpreendentemente, O
Despertar do Mundo revelou-se um relato único sobre a perda da Alemanha e a
sua divisão pelos vencedores. Através de uma escrita emotiva, extremamente
transparente e delicadamente forte, Brook apresenta um quadro triste de um povo
condenado pelas acções de alguns, de um país destruído e desprovido da sua
identidade, de um grupo de heróis que marcado pelas imagens de terror tanto se
deixou levar pelo ódio como conseguiu ver mais do que um símbolo ou partido. Uma
história que vai mais além, este livro é marcante e numa tão vasta colecção de
livros sobre este tema, marca a diferença, não só por ser baseado em factos
verídicos como pela mensagem que transmite.
Ao longo de uma leitura que nos impede de largar o livro,
somos tocados pelas fortes emoções, tanto de vencedores como de perdedores,
separados por uma linha ténue e unidos pelas perdas, pelo sofrimento e pela
crença de que o seu mundo mudou totalmente. Somos atacados pelas imagens da
fome, do desprezo, da revolução e do medo através das várias descrições, cruas
e tristes, emocionalmente pesadas, em que podemos ver o quão pouco separava os
ocupados dos ocupadores. Numa Alemanha sem comida, sem tecto e arrancada da sua
nacionalidade à força dos crimes dos seus maiores, vemos como ingleses,
marcados pela morte, pela destruição e horrorizados pela crueldade de um homem,
ocuparam, tomaram e desprezaram, pessoas que sofreram tanto como eles apenas
porque estes partilhavam um país com aqueles que aterrorizaram o mundo.
Mas, numa obra tão triste, há uma réstia de luz, uma
esperança nascida da bondade e da coragem de alguns, aqueles que deram a mão,
que lutaram pela despenalização daqueles que perderam não a guerra, mas o seu
mundo. A amizade, a compreensão, a aceitação e, até um amor proibido, dão asas
a relações marcadas não pelo ódio e temor, mas pela dor comum da perda dos
seus, da destruição das suas casas, das suas vidas, do tempo perdido em fugas e
combates, das memórias conjuntas que se desfizeram ou nunca se realizaram. Esta
é uma leitura que nos ensina que nada é preto e branco apenas, que numa guerra
nunca há vencedores, que cores e partidos, sotaques e artistas, não separam a
Humanidade, mas sim o preconceito, a fome voraz de ambição de poucos e a
incompreensão.
Num enredo tão forte em emoções, são as personagens que lhe
dão vida, que o transformam em histórias humanas e cheias de sentimentos. Cada personagem
tem uma história a contar, cada uma delas tem algo a aprender, a ensinar, a
superar ou a esquecer. Sejam os meninos órfãos cheios de fome que trocam
cigarros pelo que puderem, seja a criança esquecida em prol da perda do irmão
mais velho, seja o soldado que viu demasiado e não sabe recuperar a família,
seja a mãe cheia de ódio que perdeu o filho e descobre o perdão e o amor onde
menos esperava, seja o homem que perdeu a mulher e precisa de amar novamente,
seja a menina que se está a tornar mulher num mundo que já não é o seu… Todos
eles, têm algo em comum, todos eles nos tocam de maneiras indefiníveis.
Uma poderosa narrativa, um relato maior, O Despertar do Mundo é uma história
feita de histórias, de acções, de consequências, uma história da Humanidade
perdida num novo mundo frio e desprovido de compreensão. É uma lição de vida
que jamais esqueceremos.

