Autor: Joanne Harris
Editora: Edições ASA
Número de Páginas: 504
Sinopse
Sapatos de Rebuçado é mais uma viagem ao mundo encantado de Joanne Harris. Um (esperado) regresso a Chocolate.
Após ter abandonado a aldeia de Lansquenet-sur-Tannes, cenário de Chocolate, Vianne Rocher procura refúgio e anonimato em Paris, onde, juntamente com as suas filhas Anouk e Rosette, vive uma vida pacífica, talvez até mesmo feliz, por cima da sua pequena loja de chocolates. Não há nada fora de comum que as destaque de todos os outros. A tempestade que caracterizava a sua vida parece ter acalmado... Pelo menos até ao momento em que Zozie de l’Alba, a mulher com sapatos de rebuçado, entra de rajada nas suas vidas e tudo começa a mudar…
Mas esta nova amizade não é o que parece ser. Impiedosa, retorcida e sedutora, Zozie de l’Alba tem os seus próprios planos - planos que vão despedaçar o mundo delas. E com tudo o que ama em jogo, Vianne encontra-se perante uma escolha difícil: fugir, tal como fez tantas outras vezes, ou confrontar o seu pior inimigo…
Ela própria.
Opinião
Que Joanne Harris é uma das autoras mais conhecidas e amadas
e a criadora de Chocolate toda a
gente sabe, o que muitos não sabem é que numa festa conheceu Ewan McGregor e o
confundiu com um ex-aluno, que quando jantou com Ray Bradbury esteve 20 minutos
em silêncio até se verter em lágrimas, lê Stephen King no banho e não chora em
filmes excepto na cena da morte de Javert em Os Miseráveis. Viciada em perfume e sapatos, compra blocos mas
raramente os usa, é obcecada por musicais e adora filmes coreanos de terror mas
o mais espantoso é que não gosta de gelado ou bolo de chocolate e num Natal
gravou uma cassete de áudio para a filha do Harry
Potter e o Prisioneiro de Azkaban.
A autora que leu a rainha do crime unicamente em francês já
foi júri nos Whitbread prize e Orange prize, lançou mais um livro de contos o
ano passado e não descarta a ideia de escrever mais um livro com as personagens
de Chocolate, o que deixaria os fãs
mais que felizes. Sapatos de Rebuçado é
a continuação do livro mais aclamado de Joanne, um regresso à envolvência dos
sentidos, um livro que não deixa de cheirar a chocolate.
Quatro anos depois, escondidas e despercebidas em
Montmartre, Vianne e Anouk seguiram com as suas vidas e parece que finalmente
encontraram um lugar para ficar mas a ânsia pelo passado, os segredos que
Vianne quer enterrar, a esperança de Anouk para que tudo volte ao que era, puxa
uma força desconhecida até elas, uma jovem de sapatos cor de rebuçado que trará
com ela todos os seus anseios, tudo o que amaram. Mas por baixo da aparência
esfuziante e das cores doces, Zozie não é o que parece e vai desequilibrar o
pequeno mundo de mãe e filha até levá-lo à ruptura. Entretanto alguém do
passado regressa, alguém que pode mudar tudo trazendo consigo sonhos, memórias
e esperanças obrigando Vianne a escolher entre esconder-se e esquecer ou
enfrentar-se a si própria e aos seus medos.
Joanne Harris é uma mestra no que faz, uma escritora à
parte, alguém que se reinventa em cada livro até neste, uma continuação do seu
livro mais aclamado. Com uma escrita cativante e encantatória, capaz de nos
fazer render à magia e mistério que nele abunda, a autora leva as suas
personagens, bem conhecidas do público, a outro nível, um mais doce e enjoativo
e por vezes, até mais amargo. Tão sensorial quanto o seu antecessor, Sapatos de Rebuçado não é igual a Chocolate, tem uma alma própria, uma
alma mais inquisitiva e menos esperançosa, mais normal e ao mesmo tempo mais
obscura. Um livro sobre escolhas, meios caminhos, magia negra e chocolate,
sempre o chocolate. Contudo, não é um livro que satisfaça, é antes um livro que
nos obriga a pensar em regressar, que nos impele a não desistir, a ansiar pelos
sabores fortes e deliciosos, a dizer adeus à banalidade.
Ao longo da narrativa a autora consegue imprimir não só a
magia e o charme mas também as mudanças de vida, as escolhas que temos de
fazer, o desafio que é sabermos quem somos. Por um lado, temos Anouk, no início
da adolescência, ostracizada na escola, a conhecer o primeiro amor, a precisar
de voltar à vida e ao local onde foi mais feliz, a tentar encontrar-se nas
escolhas impostas pela mãe, a adaptar-se a uma banalidade que há quatro anos não
a satisfaz nem faz feliz. Rapidamente, aquilo que ela é sente-se conquistado
pela sedução de uns sapatos de rebuçado, pela compreensão, por alguém que lhe
faz lembrar o que a mãe foi. A revolta, a ânsia e os sonhos da adolescência são
tão bem retratados nela que quase nos revemos a nós próprios com essa idade,
aquela idade em que nem nós sentimos compreendidos nem conseguimos realmente
compreender.
Quanto a Vianne,
vemos a encruzilhada entre uma vida de liberdade e as obrigações, entre a
mulher e a mãe, entre a apaixonada e recatada. Ao tentar esconder o que foi e o
que ama, Vianne entra numa guerra com ela própria, com a filha, com os
sentimentos e a sua noção de realidade, reinventa-se mas as saudades de uma
outra vida não a deixam ser totalmente feliz. E por fim, temos Zozie, um
mistério, a mulher das 1001 caras que ambiciona o que Vianne é e tem, e que
dará o abanão necessário para ela acordar para a vida. Eu não lhe chamaria a
melhor vilã de Joanne mas é sem dúvida uma personagem marcante que sobre a
aparência de princesa esconde uma faceta terrivelmente maléfica. Tive pena de
ver tão pouco de Roux, faltou qualquer coisa a esta personagem aqui mas por
outro lado, também foi bom ver um lado dele tão diferente.
Como sempre, Joanne surpreende, arrebata e alicia-nos com
uma história única, um conto de fadas moderno, onde não faltam as cartas de
Tarot, a magia do Chocolate e o poder do Dia dos Mortos. Vénia sempre a uma
autora que se inventa em cada livro.
6*
As minhas opiniões da sérieChocolate
