Enquanto leitora tenho assistido ao longo dos anos àquilo a que se pode chamar snobismo literário ou elitismo da parte de algumas críticas, revistas e leitores quanto à géneros como a Fantasia e a Ficção Científica. A verdade, é que não noto tanto ataque e acho que hoje em dia estes dois géneros têm uma grande preferência por parte dos leitores, pelo menos nos meios por onde ando, mas isso não quer dizer que já não exista. Quantos de vocês já não terão ouvido que lêem demasiada literatura comercial, "livros com coisas estranhas" e que vivem no mundo da fantasia quando deviam ler livros "a sério"? Quantos de vocês já não o disseram?

Eu já ouvi coisas como "por leres demasiado livros
desses vives num conto de fadas e não sabes o que é a realidade". Isto é ridículo até porque leio de tudo um pouco mesmo que ache que não vá gostar. Uns dias até tenho sorte e gosto mesmo. No fundo, apesar de me ter iniciado nos clássicos como Alexandre Dumas, Walter Scott, Leo Tolstoi ou Victor Hugo, a minha passagem para a Fantasia como
Harry Potter ou Philip Pullman, deu-se de uma forma natural e nada problemática e, talvez, seja por isso que eu não entendo este snobismo que muitos têm contra alguns géneros. O livro serve para desanuviar, para nos transportar para outros mundos, para nos fazer pensar, sonhar e acreditar. Serve para nos ensinar, também. Mas como é que se pode colocar limitações a algo que é infinito em toda a sua sabedoria?
A verdade, é que depois de ver o
The Jane Austen Book Club, este tem sido um tópico que me tem dado que pensar já que o filme fala sobre duas das minhas escritoras preferidas: Jane Austen e Ursula Le Guin. Continuo sem perceber como é que se pode dizer que uma melhor que a outra? Eu não consigo. Se Jane têm um senso intransponível, uma forma de criar personagens únicas e de a partir de histórias simples nos dar algo complexo que puxa por tudo aquilo que forma um ser humano, Ursula cria mundos únicos a partir de problemas actuais e cria algo de único. São ambas diferentes, logo não se podem comparar.
Por exemplo, se me pedissem para escolher entre
Duna e
Guerra e Paz, eu ficava com os dois. Não existe leitura apropriada e um clássico não é diferente de um clássico de FC, se são ambos assim considerados é porque ambos são bons livros, apenas não se podem comparar porque são de géneros diferentes. Um escritor de Fantasia não é menor que um escritor de Literatura Contemporânea, até porque o primeiro tem de criar todo um mundo novo e o segundo tem de aproveitar o mundo real para criar algo mais. No meu ver, não é assim que se distinguem os bons escritores dos maus.
Existe um clássico que é um bom exemplo de que o "anti-natural" sempre existiu na chamada Literatura Apropriada. O que é
Alice no País das Maravilhas senão um livro de fantasia muito pouco infantil? A
Ilíada pode mesmo ser considerada hoje em dia a primeira obra de Fantasia, o que não deixa de ser engraçado, uma vez que é a maior obra da Literatura Ocidental E a primeira.
Pergunto-vos, será um leitor de Fantasia menos do que um leitor de literatura contemporânea ou dos clássicos? Não é, lamento informar-vos, até porque se fosse eu própria estava numa crise existencial. Há clássicos soberbos e há os medíocres, há obras de fantasia magníficas e há outras que estão boas para o lixo. Isto é igual em todos os géneros, há coisas que não são comparáveis. Cada género tem os seus bons e maus mas entre eles não é possível comparar porque cada género tem as suas especificidades e características.
Mas isto é apenas a minha modesta opinião, de uma jovem cujos livros preferidos são
O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas e a Trilogia das Jóias Negras de Anne Bishop.