Autor: Frank Herbert
Editora: Saída de Emergência
Número de Páginas: 283
Sinopse
Doze anos depois dos eventos descritos em Duna, Paul Atreides governa como Imperador do Universo, tendo dado início a uma Jihad galáctica ao aceitar o papel de Mahdi do povo Fremen. Paul é o mais poderoso Imperador de sempre, mas é incapaz de travar a sangrenta Jihad que já ceifou as vidas de milhões de pessoas e destruiu mundos.
Com a sua visão presciente, Paul vê a Jihad a alastrar-se, mas não pode travá-la face às terríveis alternativas que se podem seguir. Motivado por este conhecimento, decide seguir um plano complexo e perigoso que pode evitar a extinção da Humanidade, uma visão que o atormenta dia e noite.
O que Paul desconhece é que muitos velhos inimigos se reúnem à sombra do Império, preparando uma conspiração para derrubar a Casa Atreides do trono. Mais do que um mero assassinato, preparam-se para fragilizar o Kwisatz-Haderach… Conseguirá Paul estar à altura dos desafios do seu papel como Imperador e evitar os perigos que o rodeiam?
Opinião
Depois de rejeitado por vinte editoras, incluindo um editor
que admitiu pensar que estava a cometer o erro da década, Frank Herbert
conseguiu finalmente em 1965, editar Duna
em dois volumes na revista Analog
e nesse ano consegue o Nebula e, no ano seguinte, o Hugo. Primeiro livro de
Ficção- Científica ecológico, Duna foi
um sucesso no género e marcou uma época e um pensamento, deixando, ainda hoje,
incrédulos, aqueles que se atrevem a ler este marco da literatura.
O escritor ainda escreveu mais cinco livros da série, sendo
o segundo este O Messias de Duna, e o
quarto, As Herdeiras de Duna, foi dedicado
a sua esposa que faleceu de cancro em 1984. Já o quinto, Os Hereges de Duna foi lançado no mesmo fatídico ano em que também
estreou sobre a realização de David Lynch, o filme da série com a participação
de Sting. Frank viria a falecer em 1986, deixando uma obra memorável.
Ler Duna foi como
descobrir algo novo, algo que estava debaixo dos meus olhos sem o ver. Uma leitura
cheia de significados e simbolismos, uma escrita rica e complexa que converteu
esta leiga ao género de que fugia a sete pés, sem saber o que andava a perder. Meses
depois, em vez do calhamaço que me conquistou, leio esta segunda parte, com um
tamanho mais simpático mas menos satisfatório e uma capa sem o magnetismo da
primeira.
Depois de um livro intenso onde um mundo novo foi desbravado
pelos leitores com um entusiasmo crescente, onde um jovem que vinga o seu pai e
a sua Casa, ascende ao poder terreno como Imperador e ao espiritual enquanto
Messias, num panorama que, afinal, não está assim tão longe do passado e onde
apenas a geografia e os meios são outros, O
Messias de Duna, é um livro mais introspectivo, mais político e filosófico
do que intenso, mais um fim que o auge.
Este é um mundo diferente do que conhecemos no primeiro
volume, há uma consciência do bem e do mal, do passado e do futuro, da perda e
da vitória, mas essa consciência não abrange a todos, nem amigos, nem inimigos,
marcando o livro não com a violência física mas psicológica, onde cada palavra
é uma arma e onde por trás de cada membro se pode encontrar ódio numa máscara
de pacificação. Entre o fervorismo religioso, as intrigas palacianas e a quebra
de honra, Paul é o único que tem consciência dos ventos de mudança que agitam o
seu Império, apercebendo-se que os seus alicerces estão prestes a desabar
graças as conspirações e ambições que os seus inimigos almejam.
Num ambiente de revolta silenciosa e traição, de lealdade
ferrada e do medo de represálias, será difícil aos fãs reconhecer neste livro a
força esmagadora do primeiro mas ela está lá, escondida, silenciosa, etérea e
subjectiva, em cada diálogo de esperança e derrota, em cada visão terrorífica
de Paul e Alia, em cada gesto de coragem ou de falsidade. Um volume mais
religioso, onde as consequências da posição e hereditariedade de Paul e Alia,
seres humanos superiores vistos como deuses, O Messias de Duna mostra à lupa, as suas fraquezas e temores, numa
visão grotesca da qual só eles têm noção da dimensão. Numa narrativa, não de
ascensão e glória mas de decadência e mudança, encontraremos facilmente uma
mentira, um desejo, uma forma de destruição, o que torna este livro uma
explosão silenciosa, em que cada acto pode terminar pode terminar em
sofrimento, não importa de quem.
Para este ambiente de intriga, política e hierarquias, muito
contribuiu o ambiente da corte deste poderoso Império, onde os hábitos estão
muito longe do que foram. Enquanto alguns se mantêm fiéis a forma de vida dos
Fremen, outros vivem entre os vícios e a opulência, muito longe do espírito de
sacrifício que é substituído pelo egoísmo e auto-preservação. A fé tornou-se
algo impróprio e destrutivo, a sociedade é representada de uma forma
depressiva, com vergonha daquilo em que se transformou, estando longe da
elevação espiritual que sentimos no primeiro volume.
A mudança que se sente na narrativa sente-se também nas
personagens, principalmente em Paul, em quem o peso dos erros cometidos vai cair,
transformando-o em algo ainda mais transcendente e longe da humanidade,
chegando ao ponto de nem Alia conseguir ver até onde vai a visão do irmão. Muad’Dib
é a força deste mundo, tendo ele o poder absoluto e o único com a noção da
causa-consequência dos seus actos. O herdeiro Atrides encerra nele o desejo de
voltar atrás e de alterar tudo e, também, a dor da certeza que isso não é
possível e terá de enfrentar as maiores derrotas para conseguir alcançar um
novo meio de transformação. A forma como Herbert concentra neste personagem, o
divino e o humano, o déspota e o libertador, a imagem do messias em paz ou em terror, é o
que torna Paul, uma das personagens de maior ambiguidade e capacidade de
sempre.
Mesmo com um tamanho mais pequeno e uma narrativa mais
entranhada, O Messias de Duna tem o
poder do autor em cada palavra e, em nada falha ao primeiro livro, conseguindo
em menos palavras e actos atingir uma perfeição de acção e mensagens não escritas
que Duna não consegue pois escrever
sobre a vitória é fácil, conseguir abranger a derrota e o errado é muito mais
difícil e o autor consegue-o brilhantemente em cada momento mais doloroso.
Mais uma vez o mundo
de Arrakis enredou-me e mais uma vez me mostrou que a Ficção-Científica não é
um género a ser esquecido.
7*
As minhas opiniões da série:
Duna













