sábado, 27 de outubro de 2012

Opinião - O Messias de Duna

Título Original: Dune Messiah (#2 As Crónicas de Duna)
Autor: Frank Herbert
Editora: Saída de Emergência
Número de Páginas: 283

Sinopse
 Doze anos depois dos eventos descritos em Duna, Paul Atreides governa como Imperador do Universo, tendo dado início a uma Jihad galáctica ao aceitar o papel de Mahdi do povo Fremen. Paul é o mais poderoso Imperador de sempre, mas é incapaz de travar a sangrenta Jihad que já ceifou as vidas de milhões de pessoas e destruiu mundos.

Com a sua visão presciente, Paul vê a Jihad a alastrar-se, mas não pode travá-la face às terríveis alternativas que se podem seguir. Motivado por este conhecimento, decide seguir um plano complexo e perigoso que pode evitar a extinção da Humanidade, uma visão que o atormenta dia e noite.

O que Paul desconhece é que muitos velhos inimigos se reúnem à sombra do Império, preparando uma conspiração para derrubar a Casa Atreides do trono. Mais do que um mero assassinato, preparam-se para fragilizar o Kwisatz-Haderach… Conseguirá Paul estar à altura dos desafios do seu papel como Imperador e evitar os perigos que o rodeiam?


Opinião


Depois de rejeitado por vinte editoras, incluindo um editor que admitiu pensar que estava a cometer o erro da década, Frank Herbert conseguiu finalmente em 1965, editar Duna em dois volumes na revista Analog e nesse ano consegue o Nebula e, no ano seguinte, o Hugo. Primeiro livro de Ficção- Científica ecológico, Duna foi um sucesso no género e marcou uma época e um pensamento, deixando, ainda hoje, incrédulos, aqueles que se atrevem a ler este marco da literatura.
O escritor ainda escreveu mais cinco livros da série, sendo o segundo este O Messias de Duna, e o quarto, As Herdeiras de Duna, foi dedicado a sua esposa que faleceu de cancro em 1984. Já o quinto, Os Hereges de Duna foi lançado no mesmo fatídico ano em que também estreou sobre a realização de David Lynch, o filme da série com a participação de Sting. Frank viria a falecer em 1986, deixando uma obra memorável.
Ler Duna foi como descobrir algo novo, algo que estava debaixo dos meus olhos sem o ver. Uma leitura cheia de significados e simbolismos, uma escrita rica e complexa que converteu esta leiga ao género de que fugia a sete pés, sem saber o que andava a perder. Meses depois, em vez do calhamaço que me conquistou, leio esta segunda parte, com um tamanho mais simpático mas menos satisfatório e uma capa sem o magnetismo da primeira.
Depois de um livro intenso onde um mundo novo foi desbravado pelos leitores com um entusiasmo crescente, onde um jovem que vinga o seu pai e a sua Casa, ascende ao poder terreno como Imperador e ao espiritual enquanto Messias, num panorama que, afinal, não está assim tão longe do passado e onde apenas a geografia e os meios são outros, O Messias de Duna, é um livro mais introspectivo, mais político e filosófico do que intenso, mais um fim que o auge.
Este é um mundo diferente do que conhecemos no primeiro volume, há uma consciência do bem e do mal, do passado e do futuro, da perda e da vitória, mas essa consciência não abrange a todos, nem amigos, nem inimigos, marcando o livro não com a violência física mas psicológica, onde cada palavra é uma arma e onde por trás de cada membro se pode encontrar ódio numa máscara de pacificação. Entre o fervorismo religioso, as intrigas palacianas e a quebra de honra, Paul é o único que tem consciência dos ventos de mudança que agitam o seu Império, apercebendo-se que os seus alicerces estão prestes a desabar graças as conspirações e ambições que os seus inimigos almejam.
Num ambiente de revolta silenciosa e traição, de lealdade ferrada e do medo de represálias, será difícil aos fãs reconhecer neste livro a força esmagadora do primeiro mas ela está lá, escondida, silenciosa, etérea e subjectiva, em cada diálogo de esperança e derrota, em cada visão terrorífica de Paul e Alia, em cada gesto de coragem ou de falsidade. Um volume mais religioso, onde as consequências da posição e hereditariedade de Paul e Alia, seres humanos superiores vistos como deuses, O Messias de Duna mostra à lupa, as suas fraquezas e temores, numa visão grotesca da qual só eles têm noção da dimensão. Numa narrativa, não de ascensão e glória mas de decadência e mudança, encontraremos facilmente uma mentira, um desejo, uma forma de destruição, o que torna este livro uma explosão silenciosa, em que cada acto pode terminar pode terminar em sofrimento, não importa de quem.
Para este ambiente de intriga, política e hierarquias, muito contribuiu o ambiente da corte deste poderoso Império, onde os hábitos estão muito longe do que foram. Enquanto alguns se mantêm fiéis a forma de vida dos Fremen, outros vivem entre os vícios e a opulência, muito longe do espírito de sacrifício que é substituído pelo egoísmo e auto-preservação. A fé tornou-se algo impróprio e destrutivo, a sociedade é representada de uma forma depressiva, com vergonha daquilo em que se transformou, estando longe da elevação espiritual que sentimos no primeiro volume.
A mudança que se sente na narrativa sente-se também nas personagens, principalmente em Paul, em quem o peso dos erros cometidos vai cair, transformando-o em algo ainda mais transcendente e longe da humanidade, chegando ao ponto de nem Alia conseguir ver até onde vai a visão do irmão. Muad’Dib é a força deste mundo, tendo ele o poder absoluto e o único com a noção da causa-consequência dos seus actos. O herdeiro Atrides encerra nele o desejo de voltar atrás e de alterar tudo e, também, a dor da certeza que isso não é possível e terá de enfrentar as maiores derrotas para conseguir alcançar um novo meio de transformação. A forma como Herbert concentra neste personagem, o divino e o humano, o déspota e o libertador,  a imagem do messias em paz ou em terror, é o que torna Paul, uma das personagens de maior ambiguidade e capacidade de sempre.
Mesmo com um tamanho mais pequeno e uma narrativa mais entranhada, O Messias de Duna tem o poder do autor em cada palavra e, em nada falha ao primeiro livro, conseguindo em menos palavras e actos atingir uma perfeição de acção e mensagens não escritas que Duna não consegue pois escrever sobre a vitória é fácil, conseguir abranger a derrota e o errado é muito mais difícil e o autor consegue-o brilhantemente em cada momento mais doloroso.
 Mais uma vez o mundo de Arrakis enredou-me e mais uma vez me mostrou que a Ficção-Científica não é um género a ser esquecido.

7*

As minhas opiniões da série:
Duna

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Picture Puzzle #28





Regras:


  • Escolher um livro;
  • Arranjar imagens representativas das palavras dos títulos (uma imagem por palavra, ignorando os "e, o(s), a(s), de, etc.);
  • Fazer o post e convidar o pessoal a tentar adivinhar o livro;
  • Se estiver a ser difícil podem ser fornecidas pistas mas está ao critério do administrador do blogue;
  • As imagens não têm de literalmente representar o título
Podem consultar a rubrica nos seguintes blogues: Bookeater/Booklover
Puzzle #1

Pistas: título em inglês; romance; editado este ano em Portugal




Puzzle #2

 Pistas: título em inglês



terça-feira, 23 de outubro de 2012

Teaser Tuesday (39)

Regras:

  • Pegar no livro que estamos a ler
  • Abrir numa página à sorte
  • Partilhar duas frases dessa página. Não incluir spoilers!
  • Partilhar o título e o autor do livro



 "Olhou fixamente para as escarpas a sul, que protegiam as terras do norte dos ventos coriolis e questionou-se porque motivo a sua própria paz de espírito não conseguia encontrar uma protecção daquelas."
p. 71, O Messias de Duna, Frank Herbert


Rubrica original do blog Should Be Reading

domingo, 21 de outubro de 2012

Opinião - O Grande Amor da Minha Vida

Título Original: The Bronze Horseman (#1 Tatiana e Alexander)
Autor: Paullina Simons
Editora: ASA
Número de Páginas: 688

Sinopse
 Tatiana vive com a família em Leninegrado. A Rússia foi flagelada pela revolução, mas a cidade mais cosmopolita do país guarda ainda memórias do glamour do passado. Bela e vibrante, Tatiana não deixa que o dramatismo que a rodeia a impeça de sonhar com um futuro melhor. Mas este será o pior e o melhor dia da sua vida. O dia assombroso em que conhece aquele que será o seu grande e único amor. Ameaçados pela implacável máquina de guerra nazi e pelo desumano regime soviético, Tatiana e Alexander são arremessados para o vórtice da História, naquele que será o ponto de viragem do século XX e que moldará o mundo moderno.

Opinião 
 Paullina Simons nasceu em Leninegrado em 1963, em plena União Soviética. Quando tinha 10 anos, mudou-se com a família para os E.U.A e assim que aprendeu inglês começou a dar forma ao seu sonho de ser escritora. Graduou-se em Ciência Política na Universidade do Kansas, trabalhou como jornalista financeira e tradutora e, foi com a publicação do seu primeiro romance Tully que finalmente alcançou o seu sonho de infância.

Entre 8 romances, que estiveram muitas vezes nas listas de bestsellers de vários países como Nova Zelândia e Austrália, e um livro de cozinha baseado na sua trilogia mais conhecida, Tatiana e Alexander. Foi com esta trilogia que Paullina alcançou um êxito imenso e onde a autora pode transmitir a influência das suas origens, as histórias que ouviu dos avós, sobreviventes da época mais pesada do seu país natal e a fuga de um mundo opressor para viver um sonho. Traduzido em mais de 30 países, o primeiro volume da trilogia chega agora a Portugal para levar os seus leitores para o Leste de uma Europa onde o brilho do passado se desfaz nas garras da sobrevivência.
Ao olharmos para o tamanho de meter respeito de O Grande Amor da Minha Vida não imaginámos a sensação avassaladora que nos irá tomar durante a sua leitura, não nos apercebemos que ele está longe de ser o típico romance mas uma jornada de coragem, sofrimento, sacrifício e amor capaz de nos transportar para o frio e desolação de uma Rússia prestes a cair do seu pedestal inabalável para a negritude em que a Europa está submersa. Através da sua escrita intensa e sensível, Paullina proporciona-nos um contraste entre o frio e o calor, entre o dia e a noite, a paz e a guerra. Tanto capaz de nos descrever os acontecimentos mais cruéis como os mais doces, a autora permite-nos sonhar e acreditar num momento e retira-nos toda a esperança no outro para depois nos relembrar que o ser humano tem uma força inesperada que desconhece.
Com um início arrebatador este livro agarrou-me desde a primeira página até a última, num relato onde as emoções estão a flor da pele, onde sentimos cada perda e cada sorriso de uma forma tão absoluta que parece que estamos dentro do livro lado a lado com as personagens. A história de amor de Tatiana e Alexander está recheada de momentos intensos, onde sentimos cada palavra, cada gesto como se nos fossem dirigidas. Sentimo-nos assolados pelos seus sentimentos, pela forma como se amam, como lutam um pelo outro, como são capazes de se afastarem sem olharem para trás para protegerem a pessoa que mais amam. Toda a beleza e sentimento desta relação irão acompanhar-nos em cada página em que acreditámos e sofremos com eles, naquela que é, provavelmente, uma das maiores histórias de amor que já li. Não há palavras para descrever a entrega e o sacrifício que marcam esta união do destino, a forma como este amor cresce como uma flor no meio de tanta atrocidade e dor arrepia-nos e transcende-nos de uma forma tão soberba que é difícil explicar tudo aquilo que passámos ao longo desta leitura.
Mas mais do que um romance, este livro é um relato histórico do dia-a-dia de um povo em guerra que se achava protegido, o mais forte de todos, inquebrável. Acompanhar cada acontecimento do bloqueio de Leninegrado leva qualquer leitor ao sentimento de impotência, às lágrimas de frustração e sofrimento e, depois, a consternação e a aceitação das maiores atrocidades que se podem imaginar. O rigor histórico com que autora marcou esta narrativa deu-lhe vida, sobriedade, um espírito único que torna este livro inesquecível. Muitos dos momentos que acompanhámos durante a leitura deste livro nunca mais nos abandonarão pois é impossível esquecer as tantas vítimas desta guerra. Aquilo que senti ao longo desta leitura deixou-me assoberbada, revoltada, desejosa de evitar toda a dor, de estar ao lado das personagens a dizer-lhes para não desistirem, mesmo que não fosse preciso.
Se esta história tem um poder inigualável, as suas personagens são inesquecíveis. Dotadas de uma beleza tão crua quanto as paisagens brancas da Rússia, todas elas são exemplos perfeitos de um povo cuja força era maior do que alguma vez se podia crer. Cheios de força e de um espírito de entrega, é bastante fácil apaixonarmo-nos pelo casal Tatiana e Alexander. Ela é alma benfeitora que dentro de um corpo fraco enfrentará todas as adversidades, será capaz de tudo pelos que mais ama, será protagonista dos momentos mais sentimentais deste livro mesmo sendo apenas uma ingénua menina de 17 anos, ela é a prova que o coração tem forças que até o próprio desconhece. Já Alexander é um misto do poder masculino com a sensibilidade e fará os corações disparar em cada momento pela sua entrega, pela sua honra e confiança, pela sua comiseração e por ser capaz de tudo por Tatiana. As restantes personagens são também elas cheias de humanidade, desde os maiores defeitos às qualidades, desde as suas fraquezas aos seus desejos e irão estar tão presentes nesta leitura como o casal protagonista.
As relações entre as várias personagens protagonizam momentos de uma soberba qualidade onde o ser humano se ultrapassa, podendo tanto fazer-nos odiar como chorar de pena ou, então, sorrir que nem tontos, colocar expressões de escárnio nos nossos rostos ou apertar-nos o coração de tanta dor. Esta é uma leitura onde se vive, se cresce e aprende, onde cada momento deixará uma marca em nós.
Um dos livros mais belos do ano, convido todos os leitores a ganharem coragem para enfrentarem as 688 páginas deste livro pois nunca se irão arrepender de ler cada uma delas. Preparem-se para uma das viagens mais belas e românticas da vossa vida porque este livro é muito mais do que podem imaginar.

7*

Opinião - O Rei do Inverno

Título Original: The Winter King (#1 O Senhor da Guerra)
Autor: Bernard Cornwell
Editora: Planeta Editora
Número de Páginas: 440

Sinopse
 O REI DO INVERNO conta a mais fiel história de Artur, sem os exageros míticos de outras publicações. A partir de fatos, este romance genial retrata o maior de todos os heróis como um poderoso guerreiro britânico, que luta contra os saxões para manter unida a Britânia, no século V, após a saída dos romanos. "O livro traz religião, política, traição, tudo o que mais me interessa," explica Cornwell, que usa a voz ficcional do soldado raso Derfel para ilustrar a vida de Artur. O valoroso soldado cresce dentro do exército do rei e dentro da narrativa de Corwell até se tornar o melhor amigo e conselheiro de Artur na paz e na guerra.

Opinião 
 Bernard Cornwell nasceu em 1944, filho de uma enfermeira inglesa e de um aviador canadiano, foi adoptado por uma família pertencente aos Peculiar People, um grupo de protestantes que aboliram todo o tipo de frivolidades e medicina. Criado no Essex, Bernard foi enviado para o Monkton Comb School e depois entrou para a Universidade de Londres, deixou de ter contacto com as pessoas que o criaram e adoptou o nome do meio da mãe, Cornwell.

Trabalhou como professor, na BBC’s Nationwide e foi editor da Thames News. Tentou alistar-se no exército britânico três vezes sem sucesso devido ao grau elevado da sua miopia. Quando casou com uma americana em 1980 foi viver para os Estados Unidos da América e começou a escrever livros, tendo sido a sua maior influência o escritor C.S. Forrester, cujos livros lia em criança. A série Sharpe começou em 1981 e após estarem oito livros publicados a série foi adapatada na televisão com Sean Bean no papel de Sharpe. Apesar de todas as séries que escreveu foi esta e a do Senhor da Guerra que lhe deram o reconhecimento.
Quando ouço falar em Cornwell, ouço falar numa série de livros que ficou conhecida pela sua qualidade histórica em relação ao ciclo arturiano e que muitos elogiam sem cessar. Apesar de não ter muita sorte com os livros sobre o género, quando o ano passado estudei o tema decidi que era desta que iria ler a famosa trilogia, nem que fosse para ficar a conhecer uma versão mais realista sobre a personagem que a literatura ocidental não abandona desde há séculos.
O relato de Cornwell é preenchido por uma escrita crua, realista e o mais verídica possível com a época em que situa o seu livro, não falo em historicamente bem feito porque o autor baseia-se numa das muitas teorias existentes sobre o Artur histórico, não lendário. Sendo a mais provável, estamos perante uma narrativa que foge do imaginário, da feitiçaria e da lenda, em que muitos poderão não reconhecer tudo aquilo que ouviram falar sobre este leque de personagens em que se basearam tantas outras da literatura ocidental mas onde poderão sentir-se satisfeitos por conhecer uma vertente mais realista da história.
Situado no século V d.C. o Rei do Inverno fala-nos sobre os vários reinos e territórios bretões, em guerra entre eles, com os saxões e já longe da influência romana que espreita de tempos a tempos, fala-nos de uma batalha religiosa onde cristãos lutam contra as raízes celtas, onde bispos tentam combater a força dos druidas. Uma guerra em momento de mudança, entre o antigo e o novo, este é um livro de guerra, de atrocidades, de forças humanas em batalha sobre a égide de chefes e deuses, em que tudo passa e nada termina. Neste aspecto histórico, o livro está bem conseguido e apresenta coerência a chamada Idade das Trevas da Grã-Bretanha, de que pouco ou nada se conhece e onde podemos encontrar várias ligações, teorias e factos desta época obscura.
Apesar de me ter sentido satisfeita neste prisma, tenho de confessar que não me vão ver a ler Cornwell pelos próximos tempos, o que deve deixar quem me conhece um pouco pasmados. A verdade é que coerência histórica não chega para adorarmos um livro e eu senti-me longe desta narrativa ao longo da leitura. A forma como o autor expõe a história deixou-me insatisfeita pois senti-me longe das personagens principais do livro e não consegui criar ligação com o narrador, mesmo sendo uma das melhores personagens do livro. Estando longe da lenda, penso que devia existir uma maior proximidade então com o grandes protagonistas e não com uma personagem que não me disse nada.
O meu problema com o livro foi a falta de ligação às personagens, não tendo simpatizando com nenhuma em especial, tendo ficado com a sensação de que não fiquei a conhecer as pessoas por trás da lenda mas uma versão dura, cruel e demasiado distante pois não consegui fazer a ponta entre a personagem lendária e a provavelmente histórica. A ajudar, as personagens que mais queremos ver, só se dão a conhecer a meio ou mais para o fim do livro e quando finalmente aparecem não correspondem as expectativas e, por isso, fiquei com um grande ar de desilusão. Queria mais daquelas personagens, muito mais. O Artur, Senhor da Guerra, não tem a presença poderosa que esperamos, Morgana praticamente nem se vê e desaparece a dada altura, Merlim aparece no fim, e desculpem a expressão, é intragável e quanto a Lancelot, não comento. A única personagem que gostei de ver longe da donzela dedicada e doce foi Guinevere mas que está longe de ser simpática.
Já as descrições são brilhantes mas lá está, a maior parte da acção está afastada do centro da narrativa e só queria andar para a frente para ver o que se passava com as outras personagens. Aquela que foi para mim a parte interessante foi a perspectiva entre aquele que conheceu Artur contra a perspectiva já lendária de Artur, as opiniões divergentes, a influência do conto oral, a vontade de criar um herói perfeito que, na realidade, não o era assim tanto. Tinha as expectativas demasiado elevadas e não foi o que esperava, para grande tristeza minha.
Cornwell é um contador de histórias que não está aqui para romancear mas sente-se o seu cunho pessoal, a sua visão de uma lenda que irá perseguir a Ocidentalidade por muitos e muitos séculos e a sua coragem em contar a sua versão da história a que ser elogiada.
Para quem gosta do ciclo arturiano, da parte mais bélica e espera uma versão longe de magia, e incredulidade, aconselho o livro mas atento que não se pode falar em versão histórica mas em uma das teorias da suposta existência de Artur. Para quem quiser situar-se melhor, aconselho Artur, Rei dos Bretões de Daniel Mersey para ficarem a conhecer todas as vertentes, hipóteses, teorias e curiosidades.

4*

Quem Faz Anos Hoje?

Nascida no ano em que o Mundo passou do brilho e do encanto para uma década que antecederia as maiores mudanças do mundo moderno, esta autora foi galardoada com 5 prémios Hugo, 5 prémios Nébula, entre outros tantos, e é reconhecida como uma das maiores autoras da Ficção Científica na sua vertente ecológica.
Hoje chega a idade de 83 anos e os fãs irão adorá-la durante muito, muito tempo.
Os nossos Parabéns a...

Ursula K. Le Guin


Biografia
Nasceu neste dia do ano de 1929 no estado da Califórnia, em Berkeley, e era filha de um antropólogos mais eminentes da época, Alfred L. Kroeber e da sua esposa, também antropóloga e escritora, Theodora Kracaw Kroeber Quinn. A carreira dos pais irá influenciá-la para o resto da vida, desde o seu interesse desde pequena por mitos e lendas como nas temáticas dos seus livros.
Precoce na escrita, aos 11 anos enviou o seu primeiro conto para a Astounding Science Fiction, tendo sido recusado. 
Em 1951 graduou-se em Radcliffe e no ano seguinte especializou-se em línguas latinas na Universidade de Columbia. Quando foi estudar para França conheceu o historiador Charles Le Guin com quem casou em 1953 e teria tanta influência nas suas obras como os seus pais. Ursula ligaria para sempre as suas obras ao social, à humanidade e a todos os factores ligados a ela.
A autora nunca desistiu da escrita e o seu interesse crescente por esse género efervescente que começava a invadir as prateleiras das livrarias, a Ficção-Científica, deu-lhe o empurrão que faltava e na década de 60 o seu trabalho já era publicado regularmente e na década seguinte, seria finalmente reconhecida ao receber o Hugo e o Nébula por A Mão Esquerda das Trevas
Regressou aos E.U.A onde ensinou francês em várias universidades até se dedicar apenas à escrita. Vive em Portland, no estado de Oregon, desde 1958, onde criou os seus três filhos e hoje é a avó orgulhosa de quatro netos.
Para além dos seus livros, contribuiu com vários contos em revistas e antologias, escreveu livros de não-ficção e fez trabalhos de tradução.


Bibliografia

Série Hainish
Planeta do Exílio 1966
O Mundo de Rocannon 1966
A Cidade das Ilusões 1967
A Mão Esquerda das Trevas 1969
Os Despojados - vol. I e II 1974
Floresta é o Nome do Mundo 1976
O Dia do Perdão 1995
Worlds of Exile and Illusion  1996
The Telling 2000

O Ciclo de Terramar
O Feiticeiro de Terramar 1968
Os Túmulos de Atuan 1970
O Outro Lado do Mundo 1972
Tehanu, o Nome da Estrela 1990
Num Vento Diferente 2001
Tales from Earthsea 2001


O Tormento das Trevas 1971

 Tembreabrezi - o Lugar do Início 1980
Lavínia 2008

Não traduzidas para português existem mais 4 séries (Adventures in Kroy, Catwings, Chronicles of the Western Shore e Unreal and the Real), 7 livros independentes, entre tantos outros trabalhos

Eu e as suas Obras
Comecei a ler Ursula Le Guin este ano no mês de Março com as edições da Argonauta dos primeiros três livros de Terramar e foi uma das experiências literárias mais maravilhosas por que passei. Livros cheios de ambiguidade e mensagens que eu não teria entendido aos 12, 13 anos quando lia a colecção Estrela do Mar da Presença, por isso, não me posso arrepender de ter lido os livros da autora tão tarde nesta minha vida de leitora.
Tenho neste momento em casa mais dois livros de autora e estou desesperada para ler Lavínia, que me cheira ser uma adaptação de qualidade da história da Eneida
Ursula deu-me a Ficção-Científica, esse género de que fugi tantos anos, de uma forma soberba e brilhante que poucos puderam igualar.

Opinião Feiticeiro de Terramar
Opinião Os Túmulos de Atuan
Opinião Do Outro Lado do Mundo 

 
 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Opinião - Trocada

Título Original: Switched (#1 Saga Trylle)
Autor: Amanda Hocking
Editora: Edições ASA
Número de Páginas: 272

Sinopse
 Aos seis anos Wendy escapa à morte quase por milagre - e quem a tenta matar é a própria mãe, acha que a filha não é sua, mas sim uma intrusa, trocada à nascença no hospital. Onze anos mais tarde, a estranha adolescente, de cabelos negros, começa a suspeitar de que a mãe, se calhar, até tinha razão. Na nova escola, mais uma entre tantas, ela sente-se posta à parte por todos. Menos por Finn Holmes, um rapaz silencioso e sombrio que se limita a olhá-la fixamente - e lhe desperta sentimentos contraditórios, um medo enorme, e uma irresistível atração. Finn é um Achador, que a procura há anos. E agora que a encontrou, quer levá-la para casa, para o reino dos Trylle, onde Wendy vai descobrir o que sempre suspeitou - ela é mesmo diferente, e tem poderes mentais muito mais poderosos do alguma vez imaginara. Primeira romance da Saga Trylle, Trocada é um fenómeno editorial sem precedentes. A autora foi rejeitada por dezenas de editores. Até que um dia decidiu publicar os seus livros sozinha, e vendê-los em sites, para pagar uma viagem a Chicago. O sucesso foi imediato, vendeu mais de dois milhões de exemplares. "Os seus livros provocaram um frenesim que já não se sentia desde Stephenie Meyer ou até mesmo J.K. Rowling." >The New York Times.

Opinião 
 Amanda Hocking terminou o seu primeiro romance aos 17 anos e contactou mais de 50 editoras mas nenhuma quis comprar os seus romances, e a jovem decidiu vendê-los online em formato digital, tendo-se tornado a primeira autora bestseller do Kindle que não tinha qualquer contracto com uma editora. O sucesso foi tal que a jovem escritora começou a receber propostas milionárias pelos seus livros, recebendo dois milhões de dólares pelos dois volumes da trilogia Trylle, cujos direitos também já foram vendidos para o cinema.

A história de trolls de Amanda já esteve no New York Times Bestseller e a autora já tem 13 livros publicados estando o segundo da série Watersong pronto a ser publicado e com data já definida. Por cá, o segundo volume de Trylle saiu este mês com o título Dividida.
Este livro foi um daqueles casos não muito comuns em que eu me apaixonei literalmente pela capa e, sim, eu comprei-o por causa dela, não pela sinopse que sendo parecida com tantas outras mas por esta capa simplesmente maravilhosa. A segunda razão foi que não havia vampiros, anjos ou lobisomens mas trolls, que quando aparecem são uns tipos muito maus, broncos e feios, excepto neste livro, onde são trylle, perfeitos, lindos e com poderes especiais. A terceira e última razão foi porque li algures que o livro fazia lembrar o Diário da Princesa da Meg Cabot, livros que li na minha adolescência.
Quando comecei esta leitura, queria mesmo muito gostar do livro e, no início, ainda acreditei que fosse possível mas rapidamente deu para perceber que por muito grande fosse a minha vontade, ele não iria fazer parte dos livros que adoro. O começo é tal como tantos outros livros do género mas sendo a premissa tão promissora, estava disposta a deixar passar o início repetitivo e estava desejosa de chegar a parte em que conhecia os trylle propriamente ditos, o que sendo um livro pequeno, chegou rapidamente mas não chegou para eu gostar do livro.
Trocada tem uma escrita fácil, básica e que entretém, isso não há dúvidas, não há cá malabarismos e invenções, permitindo uma leitura rápida com uma catapulta de acontecimentos que não deixam pousar o livro mas a história em si, não é suficientemente boa e as expectativas criadas à volta do livro podem levar a que não exista uma satisfação latente com a leitura e isso começa com o tema. Quando imagino trolls, imagino os dos contos de fadas e das lendas, ligados a natureza, feios, brutos, egoístas e os trylle não são nada disso mas pessoas bonitas com poderes especiais ligados a natureza, ou nem por isso, não sendo suficientemente brutais mas demasiado doces e delicados para o que se poderia esperar. Por isso mesmo, não consigo associar as acções ou as personagens a esse povo do folclore, mais parecem bruxas e feiticeiros que outra coisa e tudo o que aparece relacionado com os trolls como a troca de crianças a nascença, não parece plausível na explicação dada mas antes um acto de vigaristas e a falta de justificação para este tipo de actos acaba por afastar o leitor e o resultado é a falha na parte original da história que afinal não é.
A narrativa em si, por exemplo, apesar de ser até fluída nos acontecimentos e diálogos tem um problema que conseguiu tornar a leitura cansativa e dar-me cabo dos nervos, que é a repetição excessiva de expressões. Em mais de metade do livro se refere ao facto da Wendy ser uma princesa, que mais tarde se vai explicar o que determinada coisa quer dizer ou que a Wendy não fez nada de mal e mais umas quantas coisas, o que conseguiu tirar-me do sério porque uma dessas expressões provoca no leitor o mesmo desconhecimento que o da personagem principal em relação à sociedade dos trylle, as suas normas e regras, que suspeito seriam a melhor parte do livro se tivessem existido. O que aprendemos dos trylle é que eles são como as pessoas que vivem nos Hamptons, por exemplo, e mais nada, o que leva a pergunta do “Afinal o livro é sobre o quê?”.
Isto leva-nos as personagens, sem as quais não há história ou verdadeiro prazer na leitura e, espantem-se, houve algumas de que eu consegui gostar como a verdadeira mãe da Wendy que se aproxima em personalidade daquilo que eu imagino dos trolls e que achei a melhor personagem do livro, gostei do irmão mais velho muito protector e do Rhys que tem imensa piada, para além de ser um querido. As restantes, para além do casalinho, tenho só a referir a miúda convencida que me fez lembrar as gémeas da Casa da Noite da P. C. Cast e que de cada vez que aparecia me fazia pensarem “Socorro!” porque de resto, as outras passaram-me um bocado ao lado.
O casalinho, bem, não é nada de impressionante. Ele é perfeito, perfeito, perfeito e enjoativo e ela devia ser um perigo mas mete-se em situações que não lembram a ninguém apesar de até se notar uma personalidade que pode vir a ser mais forte, veremos. Acho que o meu azar com eles foi aquele amor supersónico e mal estruturado porque até havia uma esperança para ter corrido melhor já que este livro deve ser dos poucos em que o casal tem uma cena mais ousada e que foi, admito, o meu ponto alto do livro e me fez pensar que a autora pode ter feito melhor que isto.
Para romance de estreia, não se pode dizer que Amanda Hocking é má escritora, aliás, não ponho de parte ler outros livros dela mas esta trilogia para mim está arrumada pois não fiquei curiosa de saber mais e tinha demasiadas expectativas que não se cumpriram.

3*