sexta-feira, 26 de abril de 2013

Opinião - A Cidade dos Ossos

Título Original: City of Bones (#1 Caçadores de Sombras
Autor: Cassandra Clare
Editora: Planeta
Número de Páginas: 415

Sinopse
 No Pandemonium, a discoteca da moda de Nova Iorque, Clary segue um rapaz muito giro de cabelo azul até que assiste à sua morte às mãos de três jovens cobertos de estranhas tatuagens.
Desde essa noite, o seu destino une-se ao dos três Caçadores de Sombras e, sobretudo, ao de Jace, um rapaz com cara de anjo mas com tendência a agir como um idiota...

Opinião
  Filha de pais americanos, Cassandra, ou melhor, Judith Rumelt, nasceu em Teerão, no Irão. Ao longo da sua vida viveu em vários países, conheceu vastas culturas e apenas quando começou o secundário é que assentou de vez em Los Angeles até se mudar para Nova Iorque e, foi também nessa época que começou a escrever algumas histórias, tendo a sua adaptação de um conto de Jane Austen dado origem ao nome pelo qual é conhecida. Depois de anos a trabalhar em revistas de mexericos, Cassandra deixou as fanfics de Harry Potter de lado,e começou a escrever o seu primeiro livro, inspirado no urbanismo e cosmopolitismo de Manhattan, cuja publicação lhe permitiu escrever a tempo inteiro, livrar-se das histórias cor-de-rosa e tornar-se uma autora mundialmente famosa.

  Publicado em 2007, o primeiro volume da série Caçadores de Sombras, A Cidade dos Ossos, tornou-se um sucesso a escala mundial. Publicado em vinte países, tornou-se uma das séries literárias mais viciantes de sempre, tendo milhares de fãs ansiosos pela adaptação cinematográfica que chegará em Agosto deste ano. Primeiro volume de uma série que contará com seis livros, o último será publicado em Março de 2014, conta ainda com uma trilogia antecedente e agora uma nova série acerca de uma das personagens mais emblemáticas.

  Numa noite normal da sua jovem vida, Clary vê o que não devia, o que não existe, algo com que nem sonhava. Depois dessa noite, a sua vida desfaz-se e retorna das cinzas para um novo mundo, cheio de perigos, segredos e uma guerra ancestral, um mundo que sem saber, sempre lhe correu no sangue. Enquanto descobre que os pesadelos podem ser palpáveis e que nem sabe quem é ou os seus, Clary tem de desbravar as leis, a sociedade, as intrigas deste submundo e, ainda, lidar com as coisas mundanas da sua vida anterior. Jace, é o melhor Caçador de Sombras da sua geração e, tal como Clary, tem ligações a um passado de que ninguém gosta de falar mas agora vão ter de enfrentar juntos quem são, quem se espera que se tornem e quem realmente querem ser. Eles são Caçadores de Sombras, herdeiros de uma linhagem de guerreiros. Eles vão ter de enfrentar os segredos e mudar o destino.

  Cassandra Clare é, indiscutivelmente, a senhora, dona e rainha de um género que já deu muitas cartas mas que pela sua mão ganha uma nova vida, uma nova dimensão que conquistou e ainda irá conquistar leitores de todos os géneros e idades. Com uma escrita que envolve, vicia e nos tortura a cada reviravolta, a autora criou uma série tão fantástica que é difícil resistir ao chamamento que ao virar de cada página nos atiça a ler mais e mais. Não é a toa que Caçadores de Sombras se tornou um fenómeno. Através da sua escrita divertida, inteligente, cheia de força, juventude e ironias mas sem esquecer o lado mais negro e perigoso que vive nas sombras, Cassandra marca e ganha pontos a cada desenvolvimento, cada acontecimento que nos corta a respiração e nos arregala os olhos e nos faz querer devorar este livro pela noite dentro.

  Marcante pela irreverência e originalidade do seu mundo, este livro é uma lufada de ar fresco que não deixa de ser um ar pesado, onde quase se pode sentir o mistério a adensar-se a nossa volta enquanto os segredos são desvendados nas formas mais improváveis e cada acto, cada gesto tem uma importância e significados escondidos que podem alterar tudo de um momento para o outro. Apesar de apresentar algo tão banal como vampiros, lobisomens, feiticeiros, aqui encontrarão uma elite que levará a nossa imaginação mais longe. Cada pormenor e detalhe à volta dos Caçadores de Sombras, das Cidades a que pertencem, de cada elite e objecto que lhe dão vida, é fantástico, do outro mundo e que não deixa de se adaptar a nossa banalidade, sendo tão credível que quase podemos achar que é real.

  Para isso, também muito contribui a naturalidade com que o enredo se desenvolve, como cada peça se encaixa. Há uma fluidez, um raciocínio por trás de cada momento que nos transporta facilmente para a pele de Clary, tornando não só a história verosímil como faz com que tudo tenha um sentido. O nosso mundo está tão entrançado neste submundo que é impossível desligar um do outro. Depois temos a forma como a autora escolheu construir a sua história. Aqui pouco encontrarão daquilo a que chamámos os clichés habituais. Reviravoltas, personagens, acontecimentos, tudo é tão diferente que não é difícil perceber o porquê do sucesso desta série.

  Quanto às personagens, será que vos espanta se eu disser que encontrei os melhores protagonistas de sempre deste tipo de séries? Sim, estou mesmo a falar a sério. Clary e Jace, são diferentes. Fortes, corajosos até a loucura, tão passionais quanto racionais, eles não são o típico casal, estão bem longe disso. E à sua volta contam com outras personagens tão marcantes quanto originais, com passados escondidos, sentimentos guardados, segredos por revelar. Existe nestas personagens uma humanidade e ao mesmo tempo algo tão fantástico que ficar indiferente a elas é tão impossível como não virar a próxima página.

  A verdade é que há muito tempo que não me sentia tão entusiasmada com uma nova série como me estou a sentir com esta. Não só pelo final avassalador mas também por tudo o resto que ela nos traz. A Cidade dos Ossos é um princípio prometedor, um primeiro volume que nos faz querer correr para a livraria mais próxima e trazer toda a série atrás. Resta-me dizer, Cassandra estás aprovada.

7*

sábado, 20 de abril de 2013

Opinião - A Laranja Mecânica

Título Original: A Clockwork Orange
Autor: Anthony Burgess
Número de Páginas: 222

Sinopse
 Alex, o "humilde narrador" deste romance, é o produto de uma civilização em que a violência se transformou num hábito, numa parte integrante da sociedade. Os adolescentes que, como Alex, cresceram rodeados por essa violência, juntam-se em grupos e aterrorizam uma Londres do futuro, atacando os seus cidadãos ao acaso, roubando e violando, ou brigando entre si. Um dia, Alex é traído pelos seus "drucos" e preso pelos "milicens". Na prisão, Alex vê-se confrontado com um tipo de violência diferente, uma violência institucionalizada, legalizada, e torna-se objecto de um "tratamento" que o condiciona a repudiar qualquer tipo de violência...

Escrito em "nadescente", a língua que Burgess inventou para as suas personagens, A Laranja Mecânica é um livro sobre o livre arbítrio. Burgess apresenta aos leitores um dilema central da existência humana: "O que é que define um homem bom? É nom o homem que escolhe o bem ou aquele a quem o bem é imposto? Não será o homem que escolhe o mal de alguma forma melhor do que aquele que faz o bem porque não tem escolha?"

Em 1971, A Laranja Mecânica foi levado ao cinema pelo realizador Stanley Kubrick, numa adaptação que não esteve isenta de controvérsia. O seu lançamento no Reino Unido causou tantos problemas que o próprio realizador resolveu tirar o filme do mercado britânico, onde permaneceu fora das salas de cinema até à morte de Kubrick, em 1999.

Opinião

  Foi linguista, compositor, poeta, dramaturgo. Foi oficial, tradutor, ensaísta, crítico. Mas foi pela sua escrita que ficou conhecido. Nascido no ano em que haveria de despoletar a Revolução Russa, John Anthony Burgess Wilson, viveu na Malásia, serviu na II Guerra Mundial e decidiu escrever quando lhe foi diagnosticada uma doença fatal. 

  Anthony sobreviveu 34 anos a essa doença fatal. Voltou a casar e deixou uma vasta obra marcada pela controvérsia, pela sua admiração por James Joyce e pelo seu tempo, da qual se distingue o seu décimo oitavo trabalho, A Laranja Mecânica. Baseado num facto real, este livro gerou controvérsia quando foi publicado em 1962, tendo o seu vigésimo primeiro capítulo sido retirado das edições originais. Mais tarde, também quando chegou ao cinema pelas mãos do cineasta Stanley Kubrick em 1971, gerou polémica e foi retirado das salas de cinema britânicas antes do previsto e só depois da morte do realizador, trinta anos depois é que pode voltar a ser exibido em terras de Sua Majestade.

  Aos 15 anos, Alex, o encantador, sarcástico protagonista, já é um monstro e está prestes a pagar pelos longos crimes que já cometeu na sua vida. Dono de uma personalidade tão destrutiva, ele não conhece a diferença entre o Bem e o Mal, apenas o satisfaz cometer horrores pela noite fora até que os seus druncos decidem que já estão fartos dele. Ansioso pela liberdade ele acede a fazer parte do programa Ludovico e por ela, perde a personalidade, o gosto pela música e a capacidade de puder escolher quem quer ser, o que quer fazer e quem é.

  Um dos livros mais controversos do século XX ou mesmo da História, A Laranja Mecânica é uma história de violência pura, onde o livre-arbítrio é o tema principal, onde a humanidade no seu pior, principalmente a rebeldia e crueldade da adolescência, nos causam emoções tão poderosas como o ódio, a aversão, a fúria e a vingança. Para dar vida a uma história que nada de bom traz ou provoca, é preciso ter jeito para as palavras, ter um poder encantatório que convença o leitor, e gostando ou não do livro, a verdade é que Burgess tem esse poder. Com uma escrita crua, provocante, muitas vezes sarcástica e sem dúvida convincente, o autor mostra que é preciso mais do que coragem para escrever uma história assim, é preciso saber escrevê-la.  

  O ponto mais importante, ou mais visível deste livro, é a escrita que Burgess criou para o seu mais famoso livro, uma linguagem entre o inglês e o russo, uma espécie de calão para os adolescentes de uma Londres temporal distante. Apesar de ser um acto extraordinário e dever ser-lhe entregue os créditos por isso, a verdade é que mesmo tendo tido facilidade em acompanhá-la, achei que esta servia apenas para tornar ou fazer parecer que esta é uma história extraordinária, algo com que não posso concordar.

  Sendo inegável o jeito e o talento do escritor, não posso dizer que gostei deste livro, pelo contrário. Para mim é difícil gostar de um livro que generaliza a adolescência como uma infecção de maldade e crueldade crua, para a qual a violência é um passatempo sem consequências, sem consciência. Sendo um livro sobre o nosso poder de escolha, não consigo de forma nenhuma ver isso em Alex porque nele não há escolhas, há sim, problemas psicológicos graves cuja cura só pode ser tão radical como o programa Luduvico, ou seja, ele próprio não sabe escolher porque nunca soube distinguir o Bem do Mal, logo é um péssimo exemplo para o que Burgess tenta demonstrar aqui.

  Violência gratuita é o que encontrarão no início do livro. Uma lista de crimes horrendos que só um monstro pode cometer com a naturalidade com que Alex o faz mas atenção, ele não é Hannibal, não tem o encanto, a persuasão e a inteligência. Alex é o que eu chamo um parasita da sociedade, alguém que nunca fez nada de bom, nem quer fazer e com um trauma psicológico muito grande. Desculpe-me Burgess se eu acho que não se deve generalizar e se penso que se fossem todos como ele pinta já não tínhamos mundo onde viver. Percebo claro, o que ele quer transmitir, mas perceber a mensagem não significa adorar a maneira como ele o faz. 

  Para mim, há uma ideia que ganha sem dúvida pontos, e não, não é a linguagem que mais serve para aumentar o ego de um certo senhor e dificultar a leitura de algo simples, é sim o programa Ludovico. Há nesse programa, um fatalismo, um fim, que nos assusta a todos, o de perder a nossa personalidade, a nossa moral, a nossa forma de olhar a vida. Isso sim devia causar arrepios a todos nós porque se há algo que apreciámos é a liberdade e algo assim iria retirar-nos tudo e por isso isto devia ser a parte mais assustadora do livro. Lamento, mas depois de já estar anestesiado com tantos horrores só consegui ver isto como um castigo para a Alex e acho que devia ser esse o ponto central. O livre-arbítrio é o tema que este livro quer explorar mas toda a história acaba por se centrar na loucura de Alex, no castigo e na sua cura, por isso mesmo, para mim foi mal explorado e acabou por ir perdendo importância.

  Mas algo que me assusta neste livro, realmente, é a despersonalização das personagens. Nós sabemos quem é Alex, odiámo-lo, somos felizes com a vingança mas o resto das personagens, pura e simplesmente, não existem. Não são pessoas, são objectos com uma finalidade, o de serem vítimas, capangas, juízes e torturadores, nada mais, tudo gira a volta do maior empecilho da história da literatura. Não há prazer em odiá-lo, só coisas más. Todo o ambiente do livro só causa impressões negativas e uma fúria ao longo de toda a leitura.

  Um clássico do século XX, esta é uma obra que para mim, foi mais do que sobrevalorizada. Ao terminá-la, não senti que tivesse aprendido algo, apenas um alívio imenso de passar a frente porque ler este livro senhores é como se vocês próprios estivessem a passar pela tortura de Alex. Definitivamente, não memorável.

 4*

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Opinião - A Rapariga Que Roubava Livros

Título Original: The Book Thief
Autor: Markus Zusak
Editora: Editorial Presença
Número de Páginas: 463

Sinopse
 Molching, um pequeno subúrbio de Munique, durante a Segunda Guerra Mundial. Na Rua Himmel as pessoas vivem sob o peso da suástica e dos bombardeamentos cada vez mais frequentes, mas não deixaram de sonhar. A Morte é a narradora omnipresente e omnisciente e através do seu olhar intemporal, é-nos contada a história da pequena Liesel e dos seus pais adoptivos, Hans, o pintor acordeonista, e Rosa, a mulher com cara de cartão amarrotado, do pequeno Rudy, assim como de outros moradores da Rua Himmel, e também a história da existência ainda mais precária de Max, o pugilista judeu, que um dia veio esconder-se na cave da família Hubermann. Um livro sobre uma época em que as palavras eram desmedidamente importantes no seu poder de destruir ou de salvar. Um livro luminoso e leve como um poema, que se lê com deslumbramento e emoção.

Opinião
  Filho de pai austríaco e mãe alemã, Markus cresceu a ouvir histórias da Alemanha Nazi, compreendendo o poder das palavras e dos símbolos e sabendo que a visão da Nação unida era tão real quanto a presença das pessoas que à sua maneira se debateram contra as amarras de um líder, de uma guerra e de um povo.


  Nasceu em Sidney, é o mais novo de quatro irmãos e aos trinta anos afirmou-se como um dos romancistas mais aclamados dos nossos dias mas não deixou de ser surfista nem de ver filmes. Pai de uma menina, Markus escreve livros para jovens e já foi galardoado com vários prémios.


  A Rapariga que Roubava Livros é o sexto trabalho de Markus e um fenómeno literário a escala mundial. Vencedor de quase dez prémios literários e nomeado para outros tantos, este é daqueles livros que ficará para a posterioridade, um futuro clássico que será lido por gerações. Neste momento a ser adaptado para cinema, deverá estrear no próximo ano e conta Geoffrey Rush e Emily Watson para o elenco.


  Para os amantes de livros, para os que apreciam a História da Segunda Guerra Mundial, para os que compreendem o conceito de amizade, honra e família, e para tudo o outro tipo de leitores, este é o livro que os irá inspirar.


  Esta é a história de uma rapariga que roubou um livro antes de saber ler. Esta é a história de uma rapariga que roubava livros em vez de comida. Esta é a história da rapariga que enfrentou a Morte e a inspirou.


  Na Alemanha Nazi havia mais do que o Partido e os seus longos braços. Existiam os Judeus. Existiam as classes baixas. Os que trabalhavam, morriam, os que tinham medo de levantar a voz. A raça perfeita também tinha imperfeições e este livro é a voz que lhes faltou. A voz dos que tinham fome, dos oprimidos, dos sacrificados, contada por aquela que foi a maior arma do Führer. A Morte. A bela, a brilhante, a sublime. É ela que nos conta o outro lado da História dos que se achavam vencedores e acabaram vencidos. É a sua voz que nos embala e aconchega aqui.


  Markus brilha neste livro com uma luz imensa, uma luz que se transcende nas suas palavras, que nos alcança a alma e se fixa nos nossos corações. De uma forma magistral, ele conta-nos uma história que podia ser igual a tantas outras mas que na sua inocência em tempos de crueldade nos arrebata como nenhuma outra, mesmo que saibamos que o Fim é certo e que ao virar de cada página podemos perder alguém de quem aprendemos a gostar e a admirar. 


  Este livro é sobre palavras, sobre o seu poder, e ninguém seria melhor para as usar pois Zusak compreende o seu âmago, dá-lhes vida, entrelaça-as com magia, transmitindo com elas sensações e sentimentos de uma forma tão sublime que não podemos, não devemos, deixar de nos enternecer, de chorar ou quebrar pela história destas palavras, destes livros, desta rapariga. A verdade, é que ele é o mestre e esta a sua obra-prima. 


  Com um ritmo cadenciado, pautado por verdades, fábulas e vozes sussurradas e um grito de revolta, este livro leva-nos a ver uma Alemanha vista pelos olhos das crianças. Produtos de uma educação, de um regime, de um tempo, elas viram, compreenderam e à sua maneira também mostraram o seu desagrado, também sussurraram, também esconderam, também tremeram. Nos seus corpos, os de Liesel e Rudy, sentimos as amarras do Nazismo, o medo, a incompreensão. Pelos seus olhos, vemos o lado dos que apoiavam, o dos que temiam, o dos que enfrentaram. Olhámos pelo olhar dos inocentes que à sua forma a despiram para envergar a casaca da mudança e da esperança. Vemos pelos seus olhos e pelos da Sábia quão efémera, suspensa e inacreditável é a vida.


  Nesta história sobre histórias e vidas, há duas personagens que se destacam. A protagonista, Liesel, a rapariga que roubava livros e a narradora, a Morte, a própria. Na primeira encontrámos as marcas de uma época negra e a força de uma educação pobre, por um lado doce, por outro mais bruta dígamos assim, mas onde o amor, a justiça, a compreensão e a lealdade existem mesmo que tenham de tremer por trás dos sorrisos. Enquanto a vida e a guerra passam por ela, Liesel enfrenta a Morte, lê e rouba livros, aprende na cave o que o mundo não lhe pode ensinar. Ela é o exemplo de uma inocência não desaparecida mas endurecida, de quem perde mas não desiste. Ela é a inspiração e o mote para a vida de muitos, até para a Morte. 


  Nesta história, a Morte é desmistificada. A Morte acompanha-te. Está ao teu lado, leva os teus, espera por ti. Neste livro ela é a narradora. Não, mais do que isso. Ela é A narradora, é o espírito, a transportadora das palavras, a arma do Mal que embala as almas no seu colo e lhes beija a testa. Por ela, sorrirão, segurarão o livro com mais força. Por ela, amarão ainda mais a rapariga que roubava livros. A Morte é a razão da magistralidade deste livro, é por ela, mais por ela, que o autor merece uma ovação pois a forma magistral como ele lhe dá vida, como ele a humaniza é de um talento sem igual porque depois de a conhecerem, nenhum outro narrador poderá ofuscá-la.


  Por entre personagens únicas e vidas ímpares, vivesse uma atmosfera de calma antes da tempestade. Cada um deles simboliza algo, vos dirá algo. Todos terão algo para vos contar e ensinar neste livro, nesta obra-prima que viverá gerações. 


  Um clássico da actualidade, um clássico que durará vidas, A Rapariga Que Roubava Livros é uma obra que palavra nenhuma pode descrever mas onde todas as palavras ganham vida.

7*

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Tentações: Corações Gelados [ASA]

A perfeição nem sempre é o melhor

 Título: Corações Gelados
Título Original: Wintergirls
Autor: Laurie Halse Anderson
Editora: ASA
Número de Páginas: 232
Preço: €16.90
ISBN: 9789892316840








*Laurie Halse Anderson*

 Laurie Halse Anderson é uma autora de bestsellers, presença frequente no Top do The New York Times, que escreve livros para pessoas de todas as idades. Conhecida por abordar temáticas difíceis com frontalidade, sensibilidade e humor, já recebeu e foi nomeada para muitos prémios. Grita foi finalista do National Book Award. Em 2009, Laurie foi agraciada com uma distinção da YALSA - The Young Adult Library Services Association, por mérito na edição de livros para jovens e adultos.*


Corações Gelados
Sinopse: «Eu sou aquela rapariga. Eu sou o espaço entre as minhas coxas, a luz do sol a derramar-se entre elas. Eu sou a auxiliar de biblioteca que se esconde na "Fantasia". Eu sou a aberração de circo enclausurada em cera. Eu sou os ossos que eles querem, ligados num molde de porcelana.» Viajei na terra dos Corações Gelados devido às inúmeras leitoras que me escreveram a contar a sua luta com distúrbios alimentares, automutilação e sensação de andarem perdidas. A sua coragem e sinceridade puseram-me no caminho para encontrar Lia e ajudaram-me a compreender a sua devastação. Embora não seja uma história da vida real, Lia foi inspirada nessas leituras, e por isso lhes estou muito grata. 

Pode ser encontrado aqui

*informação retirada do site Wook 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Opinião - Amor & Enganos

Título Original: An Offer from a Gentleman (#3 Bridgertons)
Autor: Julia Quinn
Editora: Edições ASA
Número de Páginas: 384

Sinopse
 Sophie Beckett tinha um plano ousado: fugir de casa para ir ao famoso baile de máscaras de Lady Bridgerton. Apesar de ser filha de um conde, ela viu todos os privilégios a que estava habituada serem-lhe negados pela madrasta, que a relegou para o papel de criada. Mas na noite da festa, a sorte está do seu lado. Sophie não só consegue infiltrar-se no baile como conhece o seu Príncipe Encantado. Depois de tanto infortúnio, ao rodopiar nos braços fortes do encantador Benedict Bridgerton, ela sente-se de novo como uma rainha. Infelizmente, todos os encantamentos têm um fim, e o seu tem hora marcada: a meia-noite. Desde essa noite mágica, também Benedict se rendeu à paixão. O jovem ficou até imune aos encantos das outras mulheres, exceção feita... talvez... aos de uma certa criada, que ele galantemente salva de uma situação desagradável. Benedict tinha jurado tudo fazer para encontrar e casar com a misteriosa donzela do baile, mas esta criada arrebatadora fá-lo vacilar. Ele está perante a decisão mais importante da sua vida. Tem de escolher entre a realidade e o sonho, entre o que os seus olhos veem e o que o seu coração sente. Ou talvez não...

Opinião

  No seu último ano em Harvard, Julia não sabia o que iria fazer da sua vida, por isso, sentou-se com uma caixa grande de Ben&Jerry’s e um bom livro enquanto pensava nas suas hipóteses de carreira e enquanto pensava que Medicina era uma boa escolha o seu olhar passou pelo romance junto à caixa de gelado e achou que já que ia demorar a ser médica então também podia escrever um livro daquele género. Dois anos depois quando finalmente iria ingressar a Escola de Medicina o seu agente ligou-lhe. Duas grandes editoras andavam a batalhar pelos seus dois primeiros livros. Julia escreveu o terceiro, o quarto, e lá se lembrou que queria ser médica. Poucos meses depois desistiu e tornou-se uma das autoras românticas mais adoradas da actualidade.


  Quase vinte anos depois de ter publicado o seu primeiro livro Julia já publicou vinte livros, colaborou em várias antologias com a autora Eloisa James e escreveu outro tanto número de contos. A sua série mais conhecida e, provavelmente, a preferida dos seus leitores, é a dos irmãos Bridgerton, cujo terceiro volume é agora publicado pela ASA. Publicado um ano depois dos dois primeiros volumes, Amor e Enganos foi originalmente publicado em 2001, conta com vinte e duas edições e é a história do irmão dois, o B, o segundo rapaz, o Benedict.


  Nascida do lado errado da cama, Sophie viveu toda a sua vida ostracizada até que uma noite, uma única noite, a faz guardar recordações e sonhos, beijos e palavras que se desvaneceram com as doze badaladas. Benedict é o Príncipe Encantado, o segundo de uma numerosa família cuja única mulher que alguma vez quis a seu lado é uma desconhecida, uma mulher envolta em brilho e ilusões que desaparece nas brumas da noite e que ele irá procurar insanamente. Mas Benedict não sabe como a encontrar pois não sabe o nome dela nem nunca vê a sua face que escondida por uma mascarilha, lhe povoa os sonhos.


  Esta é, sem dúvida, a minha autora de eleição neste género. Com uma escrita que provoca tantos suspiros como risos, Julia consegue derreter-nos com as suas histórias, onde o romantismo se junta à ironia para criar um enredo tão tentador que resistir é quase uma tarefa impossível e a vontade para o fazer é nenhuma. Com um enredo leve, cheio de trapalhadas e ternura, a autora marca a diferença num género sobrelotado pois mais do que sensuais, os seus livros são um hino ao amor, a família e a aquele tipo de sentimento que glorifica a vida.


  Neste livro a autora vai buscar o famoso conto da Cinderela para iniciar mais uma história cheia de romance e conquista mas as parecenças depressa acabam e é o estilo original e irreverente de Julia que o tornam um conto de encantos, almas gémeas e magia. Provavelmente o mais romântico dos três livros que li até agora,   Amor & Enganos proporciona-nos momentos de uma beleza etérea, cheios de doçura onde o amor em todas as suas formas é honrado por cada personagem, cada acontecimento. 


  Benedict e Sophie são duas almas com uma força interior imensa. Mais práctica, com um sentido de ética e honra de que poucos se podem gabar e uma coragem e alegria que irradia das páginas do livro, Sophie é sem dúvida uma Cinderela mais perfeita que a própria, o tipo de mulher que se admira e que desejámos ser. Ele, artista, romântico, impetuoso e teimoso como só os Bridgerton conseguem ser, é o típico irmão segundo que vive na sombra do primogénito e que é muito mais do que aparenta ser à primeira vista. Sonhadores, apaixonados, eles vão enternecendo-nos palavra a palavra, beijo a beijo, despedida a despedida e prometem ser inesquecíveis.


  Mais uma vez este não é apenas um romance de época. Cada detalhe é usado com um primor imenso e ao termos uma protagonista de baixo estatuto social conseguimos compreender melhor o que se passa fora dos salões de baile e saraus. Cada cenário, cada momento apresentam pormenores, ideias, educações, uma visão da sociedade do século XIX que dá gosto conhecer e à qual as introduções da famosa Lady Whistledown dão um outro brilho e fascínio.


  Esta leitura prima também pelos detalhes familiares que nos vão aparecendo, tanto acerca da matriarca como dos restantes irmãos e que apenas nos fazem adorar ainda mais esta família tão amorosa e unida que em cada livro nos arrebata cada vez mais. São todos eles que protagonizam esta história e nenhum é esquecido ou deixado para trás o que ajuda a matar as saudades e a aguçar a curiosidade.



  De cada vez que abro outro livro desta série a sensação com que fico sempre é que vai melhorar ainda mais, que nunca me irei fartar de seguir os amores e traquinices desta família a que Quinn dá vida de uma forma tão soberba que só podemos adorá-los. Página a página, enternecemo-nos e divertimo-nos. A cada encontro apaixonámo-nos mais uma vez. Apreendemos as suas qualidades e defeitos, compreendemos os seus feitios e desejos mais escondidos. Fazemos por umas horas parte desta família.


  Um livro que nos deixa satisfeitos e desesperados pelo próximo, Amor & Enganos é tudo o que um romance deve ser e mais ainda. É um doce embrulhado num papel brilhante que quando aberto só nos apetece devorá-lo e que quando acaba continuámos com vontade de mais.

7*
 
As minhas opiniões da série:


Podem encontrá-lo aqui  no formato livro e ebook


A Jane Austen da actualidade

Tentações: Perto de Ti [Quinta Essência]

Ter coragem para mudar tudo na sua vida pode significar novas aventuras mas também desilusões

 Título: Perto de Ti 
Título Original: No Ordinary Love
Autor: Anita Notaro
Editora: Quinta Essência
Número de Páginas: 452
Preço: €16.60
ISBN: 9789897260551


*Anita Notaro*
 Anita Notaro é produtora de televisão, jornalista e realizadora e trabalhou para a RTE, a rádio-televião da Irlanda, durante dezoito anos. Foi a realizadora do Festival Eurovisão da Canção e das eleições gerais irlandesas, bem como de programas para a BBC e Channel 4.*


Perto de Ti

Sinopse:Louisa está farta da sua vida. Do namorado, do trabalho, do apartamento - tudo precisa de uma reforma imediata e radical. E assim ela decide mudar tudo a favor de uma existência despreocupada, trocando o seu apartamento por uma casa móvel, o carro por uma moto, e as suas roupas elegantes por outras informais. E, acima de tudo, começa um novo trabalho como psicóloga de cães. Com as amigas Maddy e Clodagh, embarca numa nova aventura - para conhecer pessoas diferentes, descobrir novos lugares e encontrar um homem novo e fabuloso. O seu trabalho traz-lhe recompensas imediatas e extraordinárias quando ela conhece os donos de cães cujos problemas muitas vezes parecem ecoar os dos donos. Mas independentemente do stresse da sua nova vida, Louisa tem o apoio das amigas. Se ao menos isso pudesse durar para sempre...  




Uma novidade muito desejada e que pode ser encontrada aqui

 *informação retirada do site Wook