Título Original: Legend (#1 Legend)
Autor: Marie Lu
Editora: 1001 Mundos
Número de Páginas: 296
Sinopse
Outrora conhecida como a
costa ocidental dos Estados Unidos, a República é agora uma nação em
guerra permanente com as vizinhas, as Colónias.
Nascida numa
família de elite num dos distritos mais abastados da República, June,
aos quinze anos, é um prodígio militar. Obediente, entusiasmada e
dedicada ao seu país, está a ser aperfeiçoada para fazer parte dos
círculos mais elevados da República.
Nascido num dos bairros de
lata do Setor Lake da República, Day, também com quinze anos, é o
criminoso mais procurado da República. Mas talvez os seus motivos não
sejam tão maliciosos quanto parecem. Pertencendo a mundos muito
diferentes, não há motivo algum para que os caminhos de June e Day se
cruzem - até ao dia em que o irmão de June, Metias, é assassinado, e Day
se torna o principal suspeito. Agora, apanhado no derradeiro jogo do
gato e do rato, Day corre pela sobrevivência da sua família, enquanto
June tenta desesperadamente vingar a morte do irmão.
Contudo, numa
reviravolta chocante, os dois descobrem a verdade daquilo que
verdadeiramente os levou a encontrarem-se, e a que ponto a nação de
ambos está disposta a chegar para manter os seus segredos.
Repleto
de ação imparável, suspense e romance, o fascinante primeiro romance de
Marie Lu irá certamente comover e arrebatar os leitores.
Opinião
Autora de livros YA, Marie Lu tem um especial apreço por
distopias, o que é irónico, já que ela nasceu em 1984 mas, a sua heroína é J.K.
Rowling e não Orwell como seria de pensar. Deixou Pequim em 1989 para ir viver
para os Estados Unidos da América onde ainda hoje vive, na cidade de Pasadena,
Califórnia, local onde por acaso se passa a série, A Teoria do Big Bang (mais ironias). Trabalhou como directora
artística numa empresa de videojogos.
Desde os quinze anos que Marie tem guardado Day, o
co-protagonista de Legend na mente
até que, em 2009, ao ver Les Misérables,
o conflito de Valjean vs. Javert lhe deu uma ideia e dela nasceu Legend. Publicado em 2011, recebeu um
prémio, foi nomeado para três e está traduzido para vinte e três línguas.
Por onde começar? Como vos explicar o fascínio que, horas
depois de o ter terminado, Legend ainda
tem sobre mim? Esta era uma daquelas leituras em que as expectativas não eram
muitas. Era mais uma distopia a ler na longa lista que tenho desde que comecei
a ler este género. Era só mais uma. Só que Marie Lu trocou-me as voltas por
completo, deixou-me totalmente cativada pela sua história e a desesperar por
mais. Como? Bem, não foi pela escrita da autora, que é tremendamente simples e
directa para o meu gosto. Então o que tem Legend
para me ter tirado o sono? Não é uma história devoradora, não, mas é
daquelas que se infiltra na nossa mente e, quando damos conta, já estamos
completamente viciados, totalmente vidrados. Simplesmente apanha-nos e nós, não
temos vontade nenhuma de o largar até acabar.
Num mundo inspirado pela República Comunista da China,
altamente militarizado e propagandista, as pessoas são controladas, avaliadas e
usadas conforme a sua utilidade para a República e descartadas se esta assim
entender. Neste mundo organizado e lustroso, a total obediência e cegueira são
a única forma de se sobreviver e, a hipocrisia, é aquela que tudo controla.
Contudo, por trás da fachada de perfeição, existem mentiras, abusos e uma
conspiração da qual apenas vislumbrámos o início. Este pode parecer um conceito
simples e, de facto a autora falha ao não o aprofundar mais, mas a perspicácia
com que nos apresenta a sua sociedade, deixando-nos a tentar adivinhar
exactamente o que se passa, aguçando a nossa curiosidade com pistas e não
revelando tudo desde o início, apenas faz com que ficámos a salivar por mais.
O enredo, dividido em duas perspectivas que nos apresentam
os dois lados desta sociedade, o que ajuda bastante à sua compreensão e torna a
leitura muito mais interessante, é rico em acção e surpresas, rápido e
fulgurante mas, o segredo desta distopia não está na violência ou nos momentos
mais arquejantes como outras distopias. Esta é uma narrativa mais psicológica,
mais subtil, em que vamos apreendendo as ligações entre momentos e personagens
através de pormenores e não de grandes revelações, conseguindo a nossa atenção
sem desvendar muito do que está para vir. Mesmo assim há momentos de tensão e
perigo, inteligentemente colocados pela autora, que nos distraem na altura
certa para depois nos apanhar completamente desprevenidos.
A dicotomia entre o bandido e o agente da lei que foi a
grande inspiração desta história é, contudo, a chave do sucesso deste livro.
June e Day, criados em lados opostos e defensores de ideias diferentes, são os
perfeitos antagonistas. Brilhantes e perspicazes, inimigos mortais, colocam em
andamento uma caça de gato ao rato deliciosa, não só pelas suas personalidades
fortes e independentes, pelas suas mentes quase gémeas mas, principalmente,
pelas muitas parecenças que têm. June é gelo onde Day é fogo. Ela é paciente,
dura e sensata. Ele é incontrolável, emocional e perigoso. Juntos, são
irresistíveis e deixam o leitor rendido a seus pés.
Marie Lu não é um nome de se descartar nas distopias. É sim,
um nome a recordar, pois esta autora tem em Legend
uma promessa. Uma promessa fascinante que pode bem deixar-nos completamente
presos a si. Não a subestimem, eu nunca mais o voltarei a fazer.