Aos 21 anos, Veronica Roth casou e iniciou não só uma viagem
pela aventura que é o casamento como também a da publicação, já que no mesmo
ano publicou o seu primeiro livro, Divergente,
um dos maiores sucessos literários da década. Escrito na vez dos trabalhos de
casa, valeu a autora o título de Autora do Ano pelos leitores do Goodreads de
2013 enquanto os três livros da trilogia foram, seguidamente, escolhidos como melhores
livros YA de fantasia e ficção científica.
Convergente é,
talvez, o final mais polémico de sempre numa trilogia. Ou pelo menos, aquele
que mais escândalo provocou pela Internet fora. Final de uma das trilogias mais
adoradas da actualidade, conseguiu, mesmo com as opiniões negativas e a revolta
dos fãs, afirmar-se como o melhor do seu género graças aos votos dos leitores. Publicado
em Outubro do ano passado, está traduzido para vinte línguas. A adaptação cinematográfica
já estreou em todo o mundo.
Depois de meses a fugir dos spoilers e das opiniões, foi a tremer como varas verdes que peguei
neste livro enquanto uma sensação de pânico me assolava. Será que as minhas
expectativas sairiam goradas? Será que afinal a autora tinha feito mesmo
asneira? A verdade é que, depois de começar, todos os medos se dissiparam e hoje
é com um novo respeito que olho para Veronica Roth. Especialista a colocar-se
em situações espinhosas e a sair delas como uma senhora, a jovem autora atirou-se
sem medos e deu-nos, não um final que agradasse, mas o final perfeito para a
sua história, um final que faz todo o sentido e que, por mais que doa, nos
deixa com uma sensação de trabalho cumprido. Depois de nos ter arrebatado,
arrasado e surpreendido com a sua sociedade distópica brilhantemente
construída, com as suas personagens memoráveis e a sua forma de nos demonstrar
o pior e o melhor da Humanidade através de escolhas difíceis, seria uma
desilusão terminar esta aventura sem o mesmo espírito divergente com que nos
apaixonou.
Levando a história por um percurso completamente novo, Veronica
surpreendeu e voltou a demonstrar a ousadia e inteligência que a caracteriza
desde o início. Num meio desconhecido, novos desafios são colocados, questões regressam,
sacrifícios têm de ser feitos e, mais uma vez, nos apercebemos das fragilidades
e das forças que tornam cada personagem aquilo que são. Os valores são
questionados, queimados, renascidos, das questões pertinentes, dos vários lados
e vertentes, mas a natureza humana nunca pode ser apagada, desfeita, melhorada.
Somos quem somos, mesmo que debatamos indefinidamente o quão melhores poderíamos
ser. Convergente é isto. Uma luta entre dever e querer, moral e ética,
entre o bom e o mau, o certo e o errado, e a prova, que sejam quais forem os
fins, estes não justificam os meios. Demonstra alguma desilusão para com a
Humanidade mas também um conhecimento que alguns nunca adquirem.
Valerá a pena sacrificarmo-nos por amor? Valerá a pena
perdermos a vida por algo mais elevado? Valerá a pena chegar ao fim do caminho?
Às vezes vale, às vezes é preciso apercebermo-nos do poder dos actos, dos
ensinamentos, dos valores. É preciso crescermos, aceitarmo-nos a nós mesmos
para sabermos do quanto somos capazes e, principalmente, percebermos que quem
vive intensamente, quem crê piamente, quem vive o momento e toma as decisões que
têm de ser tomadas, nunca é egoísta, nunca, nem mesmo nos momentos mais
impulsivos, descura o valor das perdas, não teme a vida e a morte e, muito
menos, foge da última. E é por isso que, por mais que doa, sinto um orgulho imenso
de quem se sacrifica, porque demonstra que, com cada experiência, foi capaz de
se tornar um ser heroico, um líder, uma chama que arde com toda a força. Obrigada,
pela tua força e exemplo e, por no final, teres sido quem eu queria que fosses.
Habituados a estereótipos, os homens tentam conquistar a
liberdade, a escolha mas, a verdade, é que haverá sempre um nome a dar as
coisas, haverá sempre um sistema a dividir-nos, uns com mais poder, outros mais
insignificantes. Podemos fugir das facções, podemos fugir das mentiras, podemos
fugir da tirania, mas haverá sempre, sempre, algo que nos controla e será
sempre imperfeito pois a vida é um ciclo, uns acabam, outros começam, todos os
sistemas têm o seu auge e o seu fim e nunca poderemos agradar a toda a gente. Podemos
sim, tentar ser melhores, viver a vida o melhor possível e habituarmo-nos às
perdas, às memórias, ao futuro incerto enquanto lutámos todos os dias para não cair
na decadência.
Um dos melhores finais que alguma vez li, Convergente é um misto de dor, de
desilusão mas também de gloriosa esperança, aquela que nos faz arriscar tudo e
compreender os sacrifícios. Ainda bem Veronica que seguiste o teu interior e
não as ideias do mundo à parte. Não me desiludiste, magoaste-me, mas também me
tornaste mais forte.